agosto 30, 2025

AS TARIFAS FUNCIONAM PARA PROMOVER RIQUEZA? - Mario Cesar Martins de Camargo


A administração dos EUA promoveu mudanças drásticas em sua política comercial nos últimos meses. Isso afetou parceiros de longa data, como a União Europeia e a China, e impactou severamente dois países emergentes: Índia e Brasil, meu país de origem.

A tarifa imposta a esses dois países é substancial, de 50%, e, no caso do gigante sul-americano, recaiu sobre itens de consumo cotidiano, como carne, café, cimento e madeira. A lista de tarifas cobre aproximadamente 65% das importações dos EUA vindas do Brasil, excluindo produtos como suco de laranja, celulose, aviões e petróleo.

Tendo tido o privilégio de viver em ambos os países durante minha vida, aprendi a respeitar as decisões tomadas por governos democráticos, deixando de lado qualquer viés político. Entrar na onda da polarização só atrai simpatias e antipatias; já uma discussão inteligente é crucial nesses momentos.

Afinal, o objetivo pretendido é melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores norte-americanos, criando mais empregos, fomentando o crescimento e, em última instância, promovendo riqueza. Metas razoáveis para qualquer administração pública.

Um pouco de história

Os EUA têm vasto conhecimento sobre tarifas implementadas ao longo de sua história. Como lembrete, a Lei Smoot-Hawley de 1930 foi criada para proteger os agricultores afetados pelas consequências da Primeira Guerra Mundial. Proposta por Herbert Hoover, a legislação elevou tarifas a até 60%, número surpreendentemente semelhante aos aplicados nas negociações com países específicos, como os dois mencionados acima.

Após a quebra da Bolsa de Valores em 1929, a medida aprofundou a recessão no continente. Economistas podem debater o papel das tarifas naquela crise, mas os números falam por si: o PIB dos EUA caiu 46% entre 1929 e 1933; as exportações despencaram de US$ 5,24 bilhões em 1929 para US$ 1,6 bilhão em 1932. A receita dos produtos agrícolas, os supostos beneficiários da lei, caiu 50%, principalmente devido às medidas retaliatórias adotadas por parceiros comerciais afetados, como Canadá e França.

Tarifas são inflacionárias? O que esperar?

As taxas de inflação recentes têm sido inesperadamente baixas, se comparadas às expectativas levantadas pelas tarifas. Uma enxurrada de números, típica de um acordo comercial, foi colocada na mesa, mas há alguns fatos concretos que sustentam a narrativa inflacionária até agora, que não foi tão negativa quanto se previa:

1. As tarifas realmente implementadas não foram tão altas quanto se esperava;

2. O estoque e a antecipação de inventário evitaram aumentos imediatos de preços; empresas estão consumindo produtos adquiridos antes do impacto das tarifas;

3. Absorção de custos: empresas têm segurado reajustes, aguardando maior clareza em sua estrutura de custos, resultante da adição das tarifas às suas planilhas;

4. Pressões inflacionárias historicamente levam tempo para se manifestar.

As tarifas causam inflação? Segundo a The Economist, geralmente sim, “mas o problema maior é que prejudicam o crescimento econômico e a inovação”, de acordo com um artigo de janeiro de 2025. O que nos leva ao exemplo do meu país, o Brasil.

Tarifas como política de longo prazo podem prejudicar a produtividade, a alma da riqueza.

Uma ressalva: a situação histórica das tarifas impostas pelo Brasil sobre produtos importados pode diferir do cenário americano, dadas as enormes diferenças entre o tamanho de suas economias. O PIB dos EUA em 2024 foi de US$ 29,2 trilhões, enquanto o do Brasil foi de US$ 2,18 trilhões, sem mencionar a maior complexidade e sofisticação da economia americana. Mas, sendo ambas economias de mercado, talvez a história do uso recorrente de tarifas pelo Brasil para “proteger” sua indústria sirva de exemplo das consequências de longo prazo dessa política.

1. O crescimento econômico anual do Brasil desde a década de 1980 tem sido, em média, 2,5%, bem abaixo das duas décadas anteriores, quando foi três vezes maior. O crescimento da produtividade estagnou em torno de 0,5% ao ano, em média, entre 1981 e 2023, insuficiente para melhorar a qualidade de vida da população. Não surpreende que o setor mais “protegido”, a indústria de transformação, tenha apresentado queda média anual de -0,3% em produtividade, enquanto o setor de serviços ficou estagnado. O segmento mais competitivo da economia brasileira — e os americanos reconhecem isso em suas mesas de café da manhã — é o agronegócio, que cresceu de forma consistente 6% ao ano nas últimas quatro décadas, consolidando o país como fornecedor global de proteína;

2. Comparação de produtividade: na década de 1980, a produção por trabalhador no Brasil representava 46% da de um trabalhador americano. Hoje, o número caiu para 25,6%. Em outras palavras, quatro trabalhadores brasileiros produzem o mesmo que um trabalhador americano. Vários fatores contribuem para essa diferença crescente, não apenas o protecionismo, mas as tarifas para proteger fabricantes locais certamente reforçaram essa disparidade;

3. As tarifas médias do Brasil sobre máquinas e equipamentos importados — vitais para aumentar produtividade e inovação — são de 11,5%, o dobro das do México e três vezes as da União Europeia. Se somarmos barreiras não econômicas, como proteções tecnológicas e burocracia, 86% das importações brasileiras de manufaturados são atingidas por tarifas.

Esses números revelam a dificuldade de implementar uma estratégia de crescimento econômico e geração de riqueza no longo prazo por meio do aumento de tarifas. O exemplo do Brasil também mostra que as implicações de longo prazo devem ser consideradas, com consequências na produtividade e na inovação. Como disse um ex-presidente americano, Ronald Reagan, “as tarifas funcionam por um tempo, um curto tempo”. A adoção dessas medidas de forma permanente pode trazer resultados negativos — o oposto dos objetivos iniciais.


Acesse a publicação: 

https://www.bocaratontribune.com/bocaratonnews/2025/08/do-tariffs-work-to-promote-wealth




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