abril 14, 2021

A TEORIA DAS JANELAS QUEBRADAS





Há alguns anos, a Universidade de Stanford (EUA), realizou uma experiência de psicologia social.  Deixou duas viaturas idênticas, da mesma marca, modelo e até cor, abandonadas na via pública.  Uma no Bronx, zona pobre e conflituosa de Nova York e a outra em Palo Alto, uma zona rica e tranquila da Califórnia.  Duas viaturas idênticas abandonadas, dois bairros com populações muito diferentes e uma equipe de especialistas em psicologia social estudando as condutas das pessoas em cada local.

Resultou que a viatura abandonada em Bronx começou a ser vandalizada em poucas horas.  Perdeu as rodas, o motor, os espelhos, o rádio, etc.  Levaram tudo o que fosse aproveitável e aquilo que não puderam levar, destruíram.  Contrariamente, a viatura abandonada em Palo Alto manteve-se intacta.

Mas a experiência em questão não terminou aí.  Quando a viatura abandonada em Bronx já estava desfeita e a de Palo Alto estava há uma semana impecável, os pesquisadores partiram um vidro do automóvel de Palo Alto.  O resultado foi que se desencadeou o mesmo processo que o de Bronx, e o roubo, a violência e o vandalismo reduziram o veículo ao mesmo estado que o do bairro pobre.  Por quê  o vidro partido na viatura abandonada num bairro supostamente seguro, é capaz de disparar todo um processo delituoso ?  Evidentemente, não é devido à pobreza, é algo que tem a ver com a psicologia humana e com as relações sociais.

Um vidro partido/quebrado numa viatura abandonada transmite uma idéia de deterioração, de desinteresse, de despreocupação.  Faz quebrar os códigos de convivência, como de ausência de lei, de normas, de regras.  Induz ao “vale-tudo”.  Cada novo ataque que a viatura sofre, reafirma e multiplica essa idéia, até que a escalada de atos cada vez piores, se torna incontrolável, desembocando numa violência irracional.

Baseados nessa experiência, foi desenvolvida a *‘Teoria das Janelas Partidas’*, que conclui que o delito é maior nas zonas onde o descuido, a sujeira, a desordem e o maltrato são maiores.  Se se parte um vidro de uma janela de um edifício e ninguém o repara, muito rapidamente estarão partidos todos os demais.  Se uma comunidade exibe sinais de deterioração e isto parece não importar a ninguém, então ali se gerará o delito.

Se se cometem ‘pequenas faltas’ (estacionar em lugar proibido, exceder o limite de velocidade ou passar com o sinal vermelho) e as mesmas não são sancionadas, então começam as faltas maiores e delitos cada vez mais graves.   Se permitem atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento das crianças, o padrão de desenvolvimento será de maior violência quando estas pessoas forem adultas.

Se os parques e outros espaços públicos são deteriorados e progressivamente abandonados pela maioria das pessoas, estes espaços são progressivamente ocupados pelos delinquentes.


*A Teoria das Janelas Partidas* foi aplicada pela primeira vez em meados da década de 80 no metrô de Nova York, o qual se havia convertido no ponto mais perigoso da cidade. Começou-se por combater as pequenas transgressões: lixo jogado no chão das estações, alcoolismo entre o público, evasões ao pagamento de passagem, pequenos roubos e desordens.  Os resultados foram evidentes.  Começando pelo pequeno conseguiu-se fazer do metrô um lugar seguro.   *Posteriormente, em 1994, Rudolph Giuliani, prefeito de Nova York, baseado na Teoria das Janelas Partidas e na experiência do metrô, impulsionou uma política de ‘Tolerância Zero’.  A estratégia consistia em criar comunidades limpas e ordenadas, não permitindo transgressões à Lei e às normas de convivência urbana.  O resultado prático foi uma enorme redução de todos os índices criminais da cidade de Nova York.*   A expressão ‘Tolerância Zero’ soa a uma espécie de solução autoritária e repressiva, mas o seu conceito principal é muito mais a prevenção e promoção de condições sociais de segurança.  Não se trata de linchar o delinqüente, pois também aos abusos de autoridade da polícia deve-se aplicar a tolerância zero.   Não é tolerância zero em relação à pessoa que comete o delito, mas tolerância zero em relação ao próprio delito.  Trata-se de criar comunidades limpas, ordenadas, respeitosas da lei e dos códigos básicos da convivência social humana.   Essa é uma teoria interessante e pode ser comprovada em nossa vida diária, seja em nosso bairro, na rua onde vivemos.   A tolerância zero colocou Nova York na lista das cidades seguras.


*Esta teoria pode também explicar o que acontece aqui no Brasil com corrupção, impunidade, imoralidade, criminalidade, vandalismo, etc.*


Mais informações em https://en.wikipedia.org/wiki/Broken_windows_theory


D. PEDRO II E OS JUDEUS

 



Com a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, país hospitaleiro por excelência, processaram-se diversas e rápidas mudanças e uma grande modernização na cultura estabelecida da época. Desde o início do século XIX, tais mudanças já vinham sendo observadas e viriam a favorecer os imigrantes de diferentes religiões, proibidas ou mal recebidas até então.

Em 1810, foi assinado o Tratado de Aliança e Amizade com o Reino Unido, o maior parceiro comercial de Portugal, para favorecer os súditos ingleses que professavam a religião protestante. No artigo XII do decreto rezava que:

-A religião católica apostólica romana continuará a ser a religião do Império.

-Os vassalos de sua Majestade Britânica não serão molestados por causa de sua religião.

-Todas as religiões serão permitidas, em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de Templo e semelhantes a casas de habitação.

-Ninguém pode ser perseguido por motivo de religião, uma vez que respeite o Estado, e não ofenda a moral pública.


Se desde 1808, judeus marroquinos, fugindo de humilhações e até de confisco de bens, já haviam começado a se estabelecer na Amazônia. O novo decreto veio incentivar a vinda de mais e mais imigrantes judeus de várias nacionalidades, principalmente ingleses e franceses. Além de Samuel & Philips, firma inglesa cujos proprietários judeus faziam parte de um grupo de elite, composto por industriais, profissionais liberais e comerciantes, Bernard Wallerstein, o mais famoso deles, fundou na Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, uma elegante casa de moda feminina que vendia desde calçados a jóias de grande valor, tornando-se o maior fornecedor da Casa Imperial, por isso mesmo festejado e admirado.


Pouco a pouco os judeus foram ocupando o seu lugar na sociedade, sendo que em 1824, com a independência do Império do Brasil, e com a nova Constituição, que garantia total liberdade religiosa, abriram-se as possibilidades aos imigrantes de se estabelecerem definitivamente na nova pátria.


No segundo Império, D. Pedro de Alcântara Imperador do Brasil, estudioso de línguas e grande admirador da cultura judaica, cultivava várias amizades entre os judeus. Poliglota que era, além do hebraico (que dizia ser sua língua preferida), falava francês, inglês, italiano, grego, árabe e conhecia o sânscrito e a língua tupi.


Consta que o seu interesse pelo hebraico, veio por acaso, quando encontrou em um banco do Jardim do Palácio São Cristóvão, uma gramática hebraica esquecida por um missionário sueco, que sendo convocado ao Palácio, aceitou iniciá-lo na língua. Porém o seu primeiro professor de hebraico foi o judeu sueco Aker Blom, por volta de 1860. Fazendo progressos extraordinários, costumava dizer que, dedicava-se ao estudo do hebraico para melhor conhecer a história, a literatura judaica e os livros dos Profetas.


Em 15 de novembro de 1873, foi agraciado com o Grande Diploma de Honra por seus trabalhos, por intermédio do Grão-rabino Benjamim Mossé, Oficial da Instituição Pública Francêsa de Avignon, que o considerava um filósofo e um sábio.

 Mosséh e o Barão do Rio Branco, mais tarde, foram autores de uma de suas biografias.


 Em 1887, recebeu no Palácio, com uma bela recepção, uma delegação de judeus da Alsácia e Lorena. Na ocasião o imperador surpreendeu a comitiva, falando-lhes em hebraico clássico, que nem todos conheciam.
Visitou a Palestina, esteve em Jerusalém três vezes e escrevendo a amigos, assim a descreveu:


- Jerusalém, Jerusalém, pela sua posição elevada, domina quase toda a Terra Santa e produz o efeito mais surpreendente, qualquer que seja o lado pelo qual se lhe aproxima.

Anotando também em seu diário:
-Vou ao Monte das Oliveiras, ver os judeus orando junto à Muralha do Templo.


D. Pedro foi o precursor dos estudos hebraicos no Brasil e mesmo depois de abdicar, continuou suas pesquisas. Fez versões de Camões para o hebraico e traduziu parte do Velho Testamento para o latim, dentre elas o Cântico dos Cânticos, Isaías, Lamentações e Jó.


Em 1891 publicou um livro com versões de poesias judaicas. No Museu Imperial de Petrópolis, existe um excelente acervo de documentos, trabalhos manuscritos com versões do Hebraico para o grego, inglês, português e outras tantas línguas, e registros em seu diário, contando das grandes amizades que cultivava nos meios judaicos.


O imperador viajava sempre que possível e em todos os lugares por onde passava procurava conhecer e visitar as sinagogas, fazendo anotações e assistindo ao Shabat. Conta-se que, em uma dessas sinagogas, na América do Norte, quando abriram a Torá, ele não só a leu com desenvoltura, como traduziu o texto do livro de Moisés, e com tanto desembaraço que surpreendeu a todos.

A morte de D. Pedro em 05 de dezembro de 1891 provocou um momento de tristeza para muitos judeus de todo o mundo, com os quais se correspondia e tinha como amigos.


Dele falou o rabino Mosséh:
- D. Pedro foi uma das mais admiráveis figuras de nossa época moderna... Ele não somente amava nossa língua, mas nos amava, elogiava as virtudes do nosso povo e indignava-se com o antissemitismo.
E assim a história de D. Pedro II é mesclada à história dos judeus no Brasil do século XIX e, como muitos deles, teve que morrer longe de sua terra natal.