agosto 30, 2025

A POLARIZAÇÃO SOCIAL E O PAPEL DO MAÇOM COMO PONTE EM TEMPOS DE CONFLITO - Luís Fernando Martinez Miranda




Vivemos em tempos fragmentados. Não por acaso, mas por um acúmulo de tensões sociais, políticas, culturais e emocionais que vêm fermentando há décadas. Hoje, esta tensão encontra múltiplos canais de expressão: desde as redes sociais que amplificam a indignação, até as ruas que se enchem de gritos e faixas. O mundo parece dividido em campos irreconciliáveis, onde cada um defende a sua própria visão como se fosse a única possível. Neste cenário, cheio de ruídos e trincheiras, torna-se urgente perguntar:

Qual o papel do Maçom neste conflito latente?

A Maçonaria, embora discreta nas suas formas, não pode nem deve ficar indiferente aos desafios do mundo que a rodeia. Se o seu objetivo é contribuir para a edificação moral e intelectual do ser humano, então a sua presença, mesmo em silêncio, deve fazer-se sentir quando os fundamentos da convivência estão em perigo.

A lógica do inimigo

Um dos sinais mais preocupantes do nosso tempo é a instalação de uma lógica binária: se não estás comigo, estás contra mim. Este raciocínio, tão simplista quanto nocivo, substituiu o saudável debate de ideias pela desqualificação sistemática do outro. O adversário já não é alguém de quem discordo; é um inimigo a ser derrotado ou silenciado. Esta mentalidade não só empobrece o diálogo social, como o envenena. Perde-se a capacidade de ouvir, de reconhecer o valor do diferente, de aceitar que o outro, mesmo no erro, tem uma dignidade inviolável. Quando uma sociedade perde esta bússola, a coesão quebra-se e a violência, simbólica ou física, encontra um terreno fértil.

O Maçom, pela sua formação, deve resistir a esta tentação. Não porque se considere moralmente superior, mas porque foi treinado para construir em vez de destruir, para reconciliar em vez de dividir. Num mundo que recompensa a reação impulsiva, o Maçom cultiva a pausa reflexiva; numa sociedade que se alimenta de slogans, ele procura o pensamento profundo; e numa época em que a emotividade domina, ele esforça-se por exercer um julgamento calmo.

Ser uma ponte não é ser neutro

Ser uma ponte não significa ser indiferente ou equidistante. Não se trata de adoptar uma tibieza ética que tudo justifica, mas de exercer uma presença que liga, medeia, escuta e propõe. Para cumprir a sua função, uma ponte deve ter âncoras firmes em ambos os lados do abismo. Esta firmeza resulta de um compromisso com princípios universais: justiça, dignidade humana, liberdade de consciência e paz social.

O Maçom não pode ser refém de ideologias passageiras ou cúmplice de fanatismos disfarçados de certezas. A sua tarefa não é alinhar bandeiras, mas recordar que, acima de quaisquer diferenças, há uma humanidade comum que nos une e é onde todos se apressam a julgar que o Maçom pára para compreender que é onde se erguem muros que ele tenta construir pontes.

Ser Maçom em tempos de polarização é, acima de tudo, um ato de coragem. É falar quando todos gritam, mas fazê-lo com respeito, é discordar sem ódio, discutir sem humilhar, construir sem aniquilar o outro. Num mundo inflamado pelas paixões, a serenidade é um ato revolucionário.

O exemplo como palavra silenciosa

Mais do que grandes discursos, o que é necessário hoje são exemplos. Exemplos de integridade, coerência e abertura de espírito. É na vida quotidiana que o ideal maçônico é mais testado: na forma como tratamos aqueles que pensam de forma diferente, na forma como reagimos à injustiça, na nossa capacidade de ouvir sem preconceitos.

Um Maçom que age de forma justa, que dialoga com humildade, que constrói uma comunidade no meio de um conflito, está a fazer muito mais pela paz do que qualquer retórica bombástica. Porque a verdadeira mudança não vem de cima ou de fora. Começa dentro de cada um de nós e espalha-se pelos outros como uma onda de choque.

O dever do discernimento

A polarização também se alimenta da confusão. Na era da desinformação, distinguir o verdadeiro do falso, o importante do trivial, o ético do útil, torna-se uma tarefa complexa. Também aqui o Maçom tem um papel a desempenhar: cultivar o pensamento crítico, questionar a superficialidade, desmantelar as narrativas simplificadoras.

O discernimento exige um esforço intelectual e moral. Requer uma vontade de olhar para além do óbvio, de questionar as próprias convicções, de aceitar que ninguém possui toda a verdade. Neste exercício, o Maçom torna-se um farol discreto: não para iluminar os outros, mas para não se perder no meio da tempestade.

Rumo a uma cultura do encontro

Não há paz sem justiça e não há justiça sem diálogo. A nossa tarefa é, pois, dupla: construir espaços de reflexão serena e promover uma cultura do encontro. Isto não implica ingenuidade ou conformismo, mas um compromisso profundo com o futuro da humanidade.

Precisamos de voltar a olhar uns para os outros como iguais e recuperar o valor da palavra empenhada, do abraço sincero, do silêncio partilhado. Precisamos de recordar que a diferença não é uma ameaça, mas uma riqueza e que o conflito não é necessariamente destrutivo, se abordado com respeito e boa-fé.

E aqui o Maçom tem uma oportunidade preciosa: ser um artesão desta nova cultura. Não da tribuna, mas do trabalho paciente, constante e humilde.

Para onde vamos…                             

Em tempos de confusão, o compromisso ético torna-se urgente. A Maçonaria não tem receitas mágicas nem verdades absolutas. Mas tem uma tradição de homens que procuraram honestamente compreender os outros, elevar-se acima do imediato e contribuir para o bem comum.

Hoje, mais do que nunca, o mundo precisa da nossa presença serena. Do nosso olhar integrador. Da nossa capacidade de estender a mão quando todos se afastam. No meio do ruído, sejamos um espaço de silêncio fecundo e no meio do ódio e da fragmentação, sejamos uma semente de unidade.

Porque onde tudo parece estar prestes a partir-se, há sempre alguém pronto a reconstruir. Que esse alguém, hoje, seja cada um de nós.

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