novembro 30, 2025

A Ponte da Azenha, o Estandarte Farroupilha e o Ideal de Liberdade - Leonardo Redaelli




A liberdade 

**As Origens da Ponte e do Nome “Azenha”**

No século XVIII, antes mesmo de Porto Alegre se firmar como cidade, o som das águas do **Arroio Dilúvio** movia as rodas de um velho moinho. Seu construtor, **Francisco Antônio da Silveira**, era um açoriano que se estabeleceu nas margens do arroio por volta de **1777**.

Ali ergueu uma **azenha**, um moinho de pedra e madeira movido pela força da correnteza, e sobre o arroio construiu uma **ponte rústica** para facilitar o transporte do trigo e da farinha.

O povoado começou a se referir ao lugar como **“a azenha do Chico”**, e com o tempo, o nome “Azenha” passou a designar toda a região.

A ponte, por sua vez, tornou-se **a única ligação entre o sul e o centro de Porto Alegre**, papel que a faria entrar para a História como o cenário do primeiro confronto da **Revolução Farroupilha**.

 O Chamado das Armas

É noite de 19 de setembro de 1835.

O frio sopra dos pampas, e a capital da província de **São Pedro do Rio Grande do Sul** dorme inquieta.

Nos campos próximos à cidade, **os rebeldes farroupilhas** — estancieiros, soldados, peões e idealistas — marcham sob o comando do **General Bento Gonçalves da Silva**.

As tensões com o governo imperial atingiram o limite. O **Império do Brasil**, centralizador e distante, impunha impostos pesados sobre o charque e desprezava as necessidades da província.

Os gaúchos, orgulhosos e autônomos, exigiam liberdade administrativa e respeito às suas terras.

Naquela noite decisiva, os rebeldes acampam **no morro ao sul da Várzea**, local hoje tomado pelo coração urbano de Porto Alegre.

Fogueiras iluminam a planície e, ao longe, a **Ponte da Azenha** é vislumbrada sob o luar. O plano é audaz: **atravessar a ponte ao amanhecer e tomar a cidade**.

Do **Palácio do Governo**, o presidente da Província, **Antônio Fernandes Braga**, alarmado, ordena ao **Visconde de Camamu** que reúna homens para resistir. Mas o povo, solidário aos farroupilhas, não se mobiliza.

O Combate da Ponte da Azenha

Nas primeiras horas da madrugada, **o Capitão José Gomes de Vasconcelos Jardim**, braço direito de Bento Gonçalves, envia o **Cabo Manuel Vieira da Rocha** com um pequeno destacamento para reconhecer as forças inimigas.

Avançam pelas sombras, em silêncio, mas são surpreendidos por um grupo legalista.

O confronto é rápido, intenso, iluminado apenas pelas fagulhas das descargas de pólvora.

O **Visconde de Camamu**, temendo enfrentar um exército inteiro, ordena a retirada. Seus homens batem em retirada, e **a primeira vitória farroupilha está consumada**.

Ao amanhecer de **20 de setembro de 1835**, Porto Alegre desperta sob o domínio dos rebeldes.

O presidente da província foge, e o estandarte da insurreição tremula sobre a cidade.

Esse dia seria para sempre lembrado como o **Dia do Gaúcho**, símbolo da coragem, da liberdade e da lealdade à terra.

A Bandeira Farroupilha

Em meio à guerra que se seguiu, nasceu também um **símbolo eterno**: a **bandeira farroupilha**.

Suas cores — **verde, vermelho e amarelo** — foram escolhidas pelos republicanos de São Pedro como representação da terra, do sangue e do ouro, valores que expressavam a natureza, o sacrifício e a riqueza moral de seu povo.

O verde simboliza **as coxilhas e a esperança**;

o vermelho, **o sangue derramado pela liberdade**;

e o amarelo, **a lealdade e o ouro espiritual da causa justa**.

Essa bandeira, inspirada nos ideais republicanos franceses e italianos, **nasceu do mesmo espírito que inflamava as lojas maçônicas da época** — lugares onde se falava em liberdade, igualdade e fraternidade, quando tais palavras ainda eram perigosas.

A Presença Maçônica e o Ideal Republicano

A **Maçonaria** teve papel silencioso, porém decisivo, na formação do pensamento farroupilha.

Muitos de seus líderes — **Bento Gonçalves, Domingos José de Almeida, José Gomes de Vasconcelos Jardim** e outros — eram **maçons iniciados**, formados sob o ideal da **Liberdade, Igualdade e Fraternidade**.

As **Lojas Maçônicas** serviram de espaço de reflexão, instrução política e articulação. Ali se discutia não apenas o descontentamento local, mas o conceito de uma **República federativa e justa**, onde o homem fosse livre em consciência e em ação.

Sob a luz da estrela flamejante, os irmãos traçaram planos, firmaram juramentos e, nas sombras dos templos simbólicos, sonharam com uma província livre.

A **Revolução Farroupilha**, portanto, não nasceu apenas das lanças e espadas — mas também **das ideias lapidadas nos altares do conhecimento maçônico**.

 Garibaldi e Anita: o Amor e a Pátria

Entre os nomes imortais da revolução, destaca-se **Giuseppe Garibaldi**, marinheiro italiano que chegou ao Rio Grande em **1836**.

Exilado por lutar pela liberdade em sua terra natal, encontrou nos Farrapos um ideal semelhante ao que o moveria por toda a vida: a luta contra a tirania e pela unificação dos povos.

Foi no litoral gaúcho, em **Laguna**, que conheceu **Anita Ribeiro de Jesus**, a jovem que se tornaria **Anita Garibaldi**, sua companheira de armas e símbolo de coragem feminina.

Juntos, conduziram batalhas pelo mar e pela terra, levando os ideais farroupilhas até **Santa Catarina** e além das fronteiras brasileiras.

O episódio da **Tomada de Laguna**, em 1839, marcou o auge da revolução, quando foi proclamada a **República Juliana**, efêmera, mas vibrante em seus ideais de emancipação.

 O Fim da Revolução e o Tratado de Poncho Verde

Após uma década de lutas, privações e heróis anônimos, a revolução se encaminha para seu desfecho.

O **Duque de Caxias**, enviado pelo Imperador, compreende que a força sozinha não derrotaria os ideais.

A guerra se encerra com dignidade, em **março de 1845**, com a assinatura do **Tratado de Poncho Verde**.

Os farroupilhas depõem as armas, mas garantem **anistia, integração dos oficiais ao exército imperial** e a **libertação dos escravizados que combateram na causa republicana**.

A província retorna ao Império, mas o espírito de liberdade **permanece aceso como chama eterna**.

Legado e Simbolismo

A **Ponte da Azenha**, o **estandarte farroupilha**, e os **nomes de Garibaldi, Anita e Bento Gonçalves** são mais do que marcos históricos — são **símbolos da alma do Rio Grande**.

E nas colunas do Templo Maçônico, onde se cultua o espírito da liberdade e o labor da consciência, o eco desse ideal ainda ressoa.

A **Revolução Farroupilha** ensinou que a liberdade não se conquista com violência, mas **com o esclarecimento da mente e a elevação do espírito**.

Por isso, ela permanece viva — não apenas nas ruas e bandeiras, mas **nos corações daqueles que veem na luta dos Farrapos um reflexo da busca humana pela verdade e pela luz.**


Nenhum comentário:

Postar um comentário