Causas, Consequências e Perspectivas de Futuro
A Maçonaria, enquanto ordem iniciática milenar dedicada à formação moral,
ao simbolismo e à busca pela verdade, enfrenta nos últimos décadas um desafio
existencial: a evasão em massa de membros e o envelhecimento acelerado de suas
fileiras. Em âmbito mundial, especialmente no Ocidente, os números são
alarmantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a membresia caiu de cerca de 4
milhões em 1959 para menos de 870 mil em 2023 – uma redução de
aproximadamente 80%. Na Inglaterra, berço da Maçonaria especulativa moderna,
a United Grand Lodge of Enpgland (UGLE) conta hoje com cerca de 175 mil
membros, uma fração do que tinha no pós-guerra. Esse declínio não é uniforme:
em regiões como Ásia (Índia) ou América Latina, há sinais de estabilidade ou
crescimento modesto, mas a tendência global no mundo ocidental aponta para uma
crise profunda.
Jorge Antônio Vieira Gonçalves, em seu texto "A sombra de sua própria
grandeza", captura bem essa realidade. Ele argumenta que a Ordem deixou de ser
uma "escola viva de virtude" para se tornar uma associação burocrática, com
reuniões protocolares, rituais mecanizados e educação superficial. As novas
gerações buscam autenticidade, profundidade simbólica e transcendência –
exatamente o que a Maçonaria promete em sua essência, mas muitas vezes falha
em entregar. Paradoxalmente, em um mundo fragmentado por individualismo
digital e colapso de comunidades reais, a Maçonaria poderia ser mais relevante do
que nunca. O fracasso, como diz Gonçalves, não é de missão, mas de método.
As Raízes do Declínio: Do Esoterismo Puro à Socialização Excessiva
Uma perspectiva crítica, compartilhada por muitos irmãos tradicionais, é
que a Maçonaria perdeu seu atrativo ao diluir seu caráter esotérico. Originalmente,
as lojas eram espaços sagrados dedicados ao estudo profundo dos símbolos, à
introspecção e à elevação espiritual. O ritual era vivo, o segredo preservava o
mistério, e o foco estava na transformação individual do homem rude em pedra
polida.
Com o tempo, especialmente no pós-guerra, as lojas se converteram em
instrumentos sociais: festas, jantares, atividades filantrópicas em larga escala e
inclusão ativa das famílias. Essa "mundanização" distorceu o objetivo central. A
caridade, por exemplo, passou a ser praticada de forma pública e organizada dentro
da Ordem, muitas vezes com eventos que atraem o profano. Argumenta-se que isso
contamina o templo: a bolsa de coleta tradicional era um exercício esotérico de
fraternidade interna, destinado a auxiliar irmãos em necessidade, não a
projetar imagem de benevolência na sociedade. A filantropia externa, por mais nobre,
deveria ocorrer fora da loja – entre homens elevados que se reúnem separadamente
para isso, a caridade interna deve ser estritamente esotérica, restrita ao trabalho
de misericórdia dos Mestres Hospitaleiro e Chanceler, em conjunto com o trabalho
da severidade do Mestre Tesoureiro, para com os irmãos que porventura estejam
necessitados. Esse é o segredo desses cargos, revelando os verdadeiros significados
de Chesed e Gevurá.
O processo de sindicância, que prioriza candidatos de "bom coração", acaba
reforçando esse ciclo: atrai perfis inclinados à ação social imediata, que
naturalmente introduzem essas práticas nas sessões. O resultado é uma Ordem
que, em muitas jurisdições, mais se assemelha a um clube de serviços do que a
uma escola iniciática. Eventos sociais, por mais que rotulados de "caridade",
tornam-se profanos e diluem o sagrado.
Gonçalves, porém, defende o oposto para a revitalização: ritual executado
com excelência simbólica, educação contínua, mentoria ativa, caridade
comunitária e – crucialmente – inclusão familiar ativa. Ele vê a integração da
família como essencial para o pertencimento e a continuidade geracional, citando
o crescimento explosivo do pós-guerra como prova. Modelos como o Universal
Masonic Revival Model (UMRM), de 2025, propõem frameworks sistemáticos que
combinam tradição com práticas mensuráveis, incluindo esses elementos.
O Caso da Inglaterra: Pressões Externas e o Fantasma da Extinção
Na atualidade, na Inglaterra, o declínio ganha contornos geopolíticos.
Historicamente, a Grande Loja serviu como rede informal de poder para a elite
britânica, especialmente durante o Império. Com o Brexit e a perda de influência
militar, o Reino Unido voltou-se para capitais do Golfo (Emirados, Catar, Arábia
Saudita), atraindo investimentos massivos. A população muçulmana cresceu
significativamente, e figuras como o Rei Charles III demonstraram interesse
cultural pelo Islã – aprendendo árabe básico, citando o Alcorão e promovendo
diálogo inter-religioso.
Recentemente, pressões institucionais surgiram: a polícia metropolitana de
Londres implementou políticas exigindo que oficiais declarem membership
maçônico (mais de 300 o fizeram em 2026), sob alegação de transparência. A UGLE
respondeu com ações judiciais, argumentando discriminação. No judiciário,
requisitos semelhantes existiram no passado. Em países de maioria muçulmana,
a Maçonaria é frequentemente banida ou vista com suspeita, o que alimenta teorias
de influência indireta.
Contudo, ligar isso diretamente a uma "avalanche árabe" ou ao interesse
pessoal do Rei em extinguir a Ordem parece especulativo. Charles III tem histórico
de ecumenismo, não de hostilidade maçônica. A UGLE mantém campanhas de
recrutamento agressivas (inclusive via redes sociais) e relatórios anuais enfatizam
estratégias de membership como prioridade absoluta até 2028.
Quanto à ideia de que o fim na Inglaterra arrastaria a Maçonaria mundial:
discordo. A Ordem é descentralizada, com obediências independentes. O declínio
inglês reflete tendências maiores – secularização, concorrência por tempo livre,
revelação de segredos pela internet –, mas não é fatal. Esforços de revitalização em
jurisdições como Pensilvânia e Califórnia mostram sucesso em estabilizar ou
reverter perdas locais, sem rupturas doutrinárias.
Conclusão: Caso Perdido ou Oportunidade de Renascimento
A evasão reflete causas múltiplas: burocratização, perda de profundidade
esotérica, envelhecimento e mudanças sociais amplas (declínio geral em
associações fraternais, igrejas e clubes). A socialização excessiva e a filantropia
pública contribuíram para diluir o mistério que outrora atraía os buscadores
autênticos. Em muitos aspectos, concordo que há contaminação irreversível em
algumas lojas: uma vez transformadas em "clubes sociais", o retorno ao esoterismo
puro é difícil.
No entanto, não é caso perdido globalmente. A história maçônica é cíclica:
declínios foram superados por retornos disciplinados às fundações, como na
transição operativa-especulativa. Se a Ordem priorizar rituais vivos, educação
simbólica profunda e seleção rigorosa de candidatos (em vez de campanhas de
massa), pode renascer. A caridade e a família podem ter lugar, mas subordinados
ao templo sagrado – não o inverso.
O futuro depende da qualidade, não da quantidade. Ou a Maçonaria retorna
à sua essência iniciática com método e fidelidade, ou continuará como sombra de
sua grandeza. O desafio é mundial, mas a solução começa em cada loja, em cada
irmão consciente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário