fevereiro 03, 2026

A EVASÃO NA MACONARIA MUNDIAL - Lucius Cohen (Barcelona)




Causas, Consequências e Perspectivas de Futuro

A Maçonaria, enquanto ordem iniciática milenar dedicada à formação moral, ao simbolismo e à busca pela verdade, enfrenta nos últimos décadas um desafio existencial: a evasão em massa de membros e o envelhecimento acelerado de suas fileiras. Em âmbito mundial, especialmente no Ocidente, os números são alarmantes. Nos Estados Unidos, por exemplo, a membresia caiu de cerca de 4 milhões em 1959 para menos de 870 mil em 2023 – uma redução de aproximadamente 80%. Na Inglaterra, berço da Maçonaria especulativa moderna, a United Grand Lodge of England (UGLE) conta hoje com cerca de 175 mil membros, uma fração do que tinha no pós-guerra. Esse declínio não é uniforme: em regiões como Ásia (Índia) e América Latina, há sinais de estabilidade ou crescimento modesto, mas a tendência global no mundo ocidental aponta para uma crise profunda.

Jorge Antônio Vieira Gonçalves, em seu texto "A sombra de sua própria grandeza", captura bem essa realidade. Ele argumenta que a Ordem deixou de ser uma "escola viva de virtude" para se tornar uma associação burocrática, com reuniões protocolares, rituais mecanizados e educação superficial. As novas gerações buscam autenticidade, profundidade simbólica e transcendência – exatamente o que a Maçonaria promete em sua essência, mas muitas vezes falha em entregar. Paradoxalmente, em um mundo fragmentado por individualismo digital e colapso de comunidades reais, a Maçonaria poderia ser mais relevante do que nunca. O fracasso, como diz Gonçalves, não é de missão, mas de método.

As Raízes do Declínio:

Do Esoterismo Puro à Socialização Excessiva

Uma perspectiva crítica, compartilhada por muitos irmãos tradicionais, é que a Maçonaria perdeu seu atrativo ao diluir seu caráter esotérico. Originalmente, as lojas eram espaços sagrados dedicados ao estudo profundo dos símbolos, à introspecção e à elevação espiritual. O ritual era vivo, o segredo preservava o mistério, e o foco estava na transformação individual do homem rude em pedra polida.

Com o tempo, especialmente no pós-guerra, as lojas se converteram em instrumentos sociais: festas, jantares, atividades filantrópicas em larga escala e inclusão ativa das famílias. Essa "mundanização" distorceu o objetivo central. A caridade, por exemplo, passou a ser praticada de forma pública e organizada dentro da Ordem, muitas vezes com eventos que atraem o profano. Argumenta-se que isso contamina o templo: a bolsa de coleta tradicional era um exercício esotérico de fraternidade interna, destinado a auxiliar irmãos em necessidade, não a projetar imagem de benevolência na sociedade. A filantropia externa, por mais nobre, deveria ocorrer fora da loja – entre homens elevados que se reúnem separadamente para isso, a caridade interna deve ser estritamente esotérica, restrita ao trabalho de misericórdia dos Mestres Hospitaleiro e Chanceler, em conjunto com o trabalho da severidade do Mestre Tesoureiro, para com os irmãos que porventura estejam necessitados. Esse é o segredo desses cargos, revelando os verdadeiros significados de Chesed e Geburah.

O processo de sindicância, que prioriza candidatos de "bom coração", acaba reforçando esse ciclo: atrai perfis inclinados à ação social imediata, que naturalmente introduzem essas práticas nas sessões. O resultado é uma Ordem que, em muitas jurisdições, mais se assemelha a um clube de serviços do que a uma escola iniciática. Eventos sociais, por mais que rotulados de "caridade", tornam-se profanos e diluem o sagrado.

Gonçalves, porém, defende o oposto para a revitalização: ritual executado com excelência simbólica, educação contínua, mentoria ativa, caridade comunitária e – crucialmente – inclusão familiar ativa. Ele vê a integração da família como essencial para o pertencimento e a continuidade geracional, citando o crescimento explosivo do pós-guerra como prova. Modelos como o Universal Masonic Revival Model (UMRM), de 2025, propõem frameworks sistemáticos que combinam tradição com práticas mensuráveis, incluindo esses elementos.

O Caso da Inglaterra:

Pressões Externas e o Fantasma da Extinção

Na atualidade, na Inglaterra, o declínio ganha contornos geopolíticos. Historicamente, a Grande Loja serviu como rede informal de poder para a elite britânica, especialmente durante o Império. Com o Brexit e a perda de influência militar, o Reino Unido voltou-se para capitais do Golfo (Emirados, Catar, Arábia Saudita), atraindo investimentos massivos. A população muçulmana cresceu significativamente, e figuras como o Rei Charles III demonstraram interesse cultural pelo Islã – aprendendo árabe básico, citando o Alcorão e promovendo diálogo inter-religioso.

Recentemente, pressões institucionais surgiram: a polícia metropolitana de Londres implementou políticas exigindo que oficiais declarem membership maçônico (mais de 300 o fizeram em 2026), sob alegação de transparência. A UGLE respondeu com ações judiciais, argumentando discriminação. No judiciário, requisitos semelhantes existiram no passado. Em países de maioria muçulmana, a Maçonaria é frequentemente banida ou vista com suspeita, o que alimenta teorias de influência indireta.

Contudo, ligar isso diretamente a uma "avalanche árabe" ou ao interesse pessoal do Rei em extinguir a Ordem parece especulativo. Charles III tem histórico de ecumenismo, não de hostilidade maçônica. A UGLE mantém campanhas de recrutamento agressivas (inclusive via redes sociais) e relatórios anuais enfatizam estratégias de membership como prioridade absoluta até 2028.

Quanto à ideia de que o fim na Inglaterra arrastaria a Maçonaria mundial: discordo. A Ordem é descentralizada, com obediências independentes. O declínio inglês reflete tendências maiores – secularização, concorrência por tempo livre, revelação de segredos pela internet –, mas não é fatal. Esforços de revitalização em jurisdições como Pensilvânia e Califórnia mostram sucesso em estabilizar ou reverter perdas locais, sem rupturas doutrinárias.

Conclusão:

Caso Perdido ou Oportunidade de Renascimento

A evasão reflete causas múltiplas: burocratização, perda de profundidade esotérica, envelhecimento e mudanças sociais amplas (declínio geral em associações fraternais, igrejas e clubes). A socialização excessiva e a filantropia pública contribuíram para diluir o mistério que outrora atraía os buscadores autênticos. Em muitos aspectos, concordo que há contaminação irreversível em algumas lojas: uma vez transformadas em "clubes sociais", o retorno ao esoterismo puro é difícil.

No entanto, não é um caso perdido globalmente. A história maçônica é cíclica: declínios foram superados por retornos disciplinados às fundações, como na transição operativa-especulativa. Se a Ordem priorizar rituais vivos, educação simbólica profunda e seleção rigorosa de candidatos (em vez de campanhas de massa), pode renascer. A caridade e a família podem ter lugar, mas subordinados ao templo sagrado – não o inverso.

O futuro depende da qualidade, não da quantidade. Ou a Maçonaria retorna à sua essência iniciática com método e fidelidade, ou continuará como sombra de sua grandeza. O desafio é mundial, mas a solução começa em cada loja, em cada irmão consciente.


     


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