A Maçonaria é um sistema de formação moral, ilustrado por símbolos e velado por alegorias, destinado a transformar o homem para que este, por sua vez, transforme a sociedade. Durante mais de três séculos, essa escola iniciática formou estadistas, cientistas, líderes mundiais e cidadãos comprometidos com a ética pública.
Ao ingressar no século XXI, a Ordem enfrenta um dos maiores desafios de sua história moderna: o envelhecimento de seus membros, a queda no número de obreiros e, sobretudo, a perda da função iniciática das Lojas. Em muitas jurisdições, a Maçonaria deixou de ser uma escola viva de virtude e transformou se em uma associação administrativa marcada por reuniões protocolares, rotinas burocráticas, leitura de atas e formalidades que preservam a forma, mas já não transmitem o conteúdo simbólico e transformador que sempre definiu a experiência maçônica.
As novas gerações, em busca de sentido, profundidade e autenticidade, não se satisfazem com encontros vazios de vivência simbólica. Quando encontram uma Ordem burocratizada, com ritual mecanizado, leituras mal conduzidas e educação superficial, afastam se naturalmente.
Paradoxalmente, a sociedade moderna precisa exatamente daquilo que a Maçonaria possui em sua essência: comunidade real, ética prática, formação do caráter e transcendência simbólica. O declínio não decorre da irrelevância da missão da Ordem, mas da ausência de um método organizado que traduza seus princípios imutáveis em práticas sistemáticas, mensuráveis e fiéis à tradição.
O exemplo da Maçonaria norte americana é claro e incontornável. Em 1959, a Ordem possuía cerca de 4 milhões de membros. Em 2023, restavam menos de 870 mil, o que representa uma redução aproximada de 80% em pouco mais de seis décadas. Essa queda acompanha o envelhecimento institucional, a baixa renovação geracional e, sobretudo, o enfraquecimento da formação simbólica profunda.
O ritual tornou se formalidade, a educação perdeu sua função pedagógica e a iniciação deixou de cumprir plenamente seu papel transformador.
Ao mesmo tempo, o mundo moderno vive o colapso das comunidades tradicionais. Os vínculos sociais baseados na convivência no mundo real, na confiança mútua e na participação cívica enfraqueceram diante do mundo virtual, do individualismo digital, do uso excessivo das telas, da privatização da vida social e da fragmentação das relações humanas. Esse processo atingiu todas as instituições, não apenas a Maçonaria.
Curiosamente, a Maçonaria foi criada exatamente para formar comunidade, virtude e sentido. O fracasso contemporâneo, portanto, não é de missão, mas de método.
Historicamente, sempre que a Ordem atravessou períodos de declínio, sua renovação ocorreu sem ruptura doutrinária, por meio do retorno disciplinado às suas fundações. A transição da Maçonaria operativa para a especulativa converteu ferramentas físicas em instrumentos morais. Em momentos críticos, a fidelidade ao ritual, a integridade ética e a caridade sustentaram a sobrevivência da instituição.
No período pós guerra, a integração familiar e comunitária promoveu o maior crescimento da história moderna da Maçonaria. Em todos esses ciclos, o renascimento resultou da organização consciente das boas práticas.
O processo de revitalização começa individualmente no maçom, por meio de formação simbólica sólida e contínua, educação estruturada e mentoria ativa, transformando símbolos em práticas.
A inclusão da família é fundamental. Ela não pode ocupar papel periférico, devendo tornar se parte ativa da vida maçônica, fortalecendo o pertencimento, a permanência dos membros e a continuidade geracional.
Nossas Lojas devem buscar incansavelmente esses pilares fundamentais: ritual executado com excelência simbólica, educação presente em todas as reuniões, mentoria ativa e caridade comunitária. Assim, a Loja deixa de ser meramente administrativa, não sendo um clube de serviços, e retoma sua vocação de centro de formação moral.
O futuro da Ordem não depende exclusivamente do número de iniciados, mas da qualidade da formação e da permanência consciente dos irmãos. Campanhas de filiação em massa e reformas superficiais não resolvem o problema.
O renascimento depende da qualidade da formação iniciática, da vivência simbólica autêntica, da integração familiar e da coerência ética praticada no cotidiano.
A Maçonaria sobreviverá não por quantos entram, mas por quão bem forma seus membros. Ou retorna às suas origens com método, profundidade e fidelidade histórica, ou continuará seu lento esvaziamento institucional, tornando se sombra de sua própria grandeza.
Bibliografia
O presente texto constitui um resumo interpretativo do estudo de:
KASI, Arbab Naseebullah. Revitalizing Freemasonry in the Twenty First Century: The Universal Masonic Revival Model (UMRM) as a Lawful, Systematic, and Measurable Framework for Renewal. Academy of Masonic Knowledge, Grand Lodge of Pennsylvania, 2025.

Nenhum comentário:
Postar um comentário