dezembro 31, 2020

MEMÓRIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 12

 




Alguns fatos divertidos da minha efêmera experiência de jornalista em Sorocaba merecem ser relembrados. O título é porque quase todos envolveram gente poderosa ou rica.

Em novembro de 1968 fui cobrir a inauguração do primeiro trecho da Rodovia Castelo Branco que naquela época tinha o nome de Rodovia do Oeste. Ia de São Paulo para lugar nenhum, um ponto qualquer chamado Torre de Pedra a meio caminho de Avaré e São Manuel, mas era uma boa alternativa para ir a São Paulo, que até então era acessada pela Rodovia Raposa Tavares em viagem que levava cerca de duas horas e meia nos excelentes ônibus da Viação Cometa. A Castelo tinha de ser acessada pela Éden, mesmo assim a viagem encurtava em uma hora. Lembro-me dos protestos dos sorocabanos porque o traçado inicial da estrada deveria passar bem próximo a cidade, e acabou passando por Itu. A visão do longo prazo do estadista acabou se revelando providencial pois duzentos mil veículos passando por dia em Sorocaba seriam uma tragédia viária e a Castelinho proporcionou o desenvolvimento de um grande parque industrial.

Está montado o palanque debaixo de um calor infernal. As autoridades suando em bicas em seus caros ternos e aquele enxame de “assessores” e convidados revoando em volta, mas o evento não começava, Como o governador Abreu Sodré já estava presente ninguém entendia a razão do atraso. Aí chega um Cadillac rabo de peixe, enorme, estaciona do lado oposto do palanque e desce um senhor troncudo. O senhor tira a camisa, o motorista abre o porta malas e tira uma camisa novinha, um paletó, e o passageiro se troca em frente a todos, na beira da estrada. Era Sebastião Ferraz de Camargo Penteado, o autor da obra, dono da Camargo Correa (o Correa já havia falecido há muito tempo), um dos homens mais ricos e poderosos do país.

Bem está na hora de começar. Discursos daqui, discursos dali, o mestre de cerimônias fazendo as apresentações até que chega a fala do governador, mais ou menos assim – “essa estrada que ora entregamos ao povo paulista é uma das obras mais importantes de nosso governo, blá, blá, blá”. Não sei dizer se quebrou o protocolo ou não, mas Camargo pega o microfone e com voz poderosa pontifica: - “esta estrada, construída pelo governador Ademar de Barros e inaugurada por V. Excia.” O choque foi tão grande que a cobertura do palanque onde se realizada a solenidade voou com o vento e a cerimônia acabou ali. Mas a Castelo continua firme e forte mais de cinquenta anos depois.

Laudo Natel se auto intitulava “o governador caipira” e uma das marcas de seu governo era despachar por um dia ou mais nas cidades do interior. Esteve algumas vezes em Sorocaba. Antes de ser governador foi diretor do Bradesco e presidente do S. Paulo FC, aliás, um dos responsáveis pela construção do Estádio do Morumbi. De fato, era um homem bastante cordato e simples. Morava próximo à casa de minha irmã no Pacaembu e eu o encontrei em uma ou duas ocasiões há alguns anos comprando pão numa padaria na Avenida Sumaré.

Mas numa destas visitas fui designado para acompanhá-lo e com a inconsequência da juventude colei no governador enquanto ele descia da redação do Cruzeiro, com toda uma “entourage” a segui-lo, para a Praça Cel. Fernando Prestes, nem me lembro por quê. Natel parou no Bar Passarinho para um café. Eu ao lado do governador. Ele disse baixinho: - dá para você pagar o café? - Claro, mas o senhor é dono de um banco, argumentei. – Por isso mesmo, ele riu. – Já imaginou se eu andasse com dinheiro.

Ainda Natel. Em outra ocasião o industrial Carlos Alberto Moura Pereira da Silva ofereceu um almoço na Chácara Sônia Maria, onde hoje é o Carrefour. Era uma propriedade espetacular, talvez a melhor de Sorocaba. Um número enorme de convidados sentava-se às longas mesas de madeira aguardando o início da ágape. As travessas começaram a ser servidas, mas o prato principal, para surpresa e angústia de todos, era frango assado, dezenas de travessas de frango assado e ninguém sabia bem o que fazer. Sentindo no ar o drama o “governador caipira” atacou uma coxa de frango com as mãos e em questão de segundos todos os pedaços de frango evaporaram, enquanto os convivas se lambuzavam deliciados.

dezembro 30, 2020

MEMÓRIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 11

 

Há alguns anos, em decorrência de ter participado de um treinamento em comércio exterior com diplomatas brasileiros designados para o mundo todo e patrocinado pelo Itamarati, fui coautor de um volume publicado pela USP intitulado “Promoção de Comércio Exterior, Investimento e Tecnologia.” O convite para o treinamento veio porque anteriormente havia escrito e publicado, patrocinado pelo Sebrae , o Mercoguia, o primeiro Guia do Mercosul. Alguém achou que em decorrência destas publicações eu talvez entendesse alguma coisa do assunto e fui convidado pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Coréia do Sul, através de seu presidente, Sr. Léo Kim, a passar um mês naquele país, com todas as despesas pagas, onde tive a oportunidade de fazer palestras sobre comércio internacional e transferência de tecnologia em cinco cidades.

Fui recebido na Coréia do Sul com alguns requintes que se destinam a autoridades, como veículo para transporte, visitas oficiais, entrevistas com membros do governo etc. Fiquei impressionado com o progresso e desenvolvimento do país, que passou de uma renda per capita de US$ 158,00 em 1960 para mais de US$ 27.900,00 em 1997, três vezes mais do a brasileira. E a explicação para isso foi o fortíssimo investimento em educação, que eu tive a oportunidade de testemunhar. Visitei algumas escolas e uma universidade. Na época em que a internet escolar no Brasil era apenas uma remota expectativa todas as carteiras da escola que visitei, equivalente ao curso ginasial brasileiro, tinham computadores ligados em redes de alta velocidade.

A tristeza que me causa a involução da educação formal no nosso país é equivalente ao estrago que foi feito em nosso futuro. Pelo menos duas ou três gerações foram sacrificadas pela péssima gestão da educação. Estudei na OSE, no Estadão e no Liceu Pedro II. Fiz o curso científico e Química Industrial simultaneamente, estudando de manhã e à noite. Quando fui prestar o vestibular da Faculdade de Direito da Universidade Católica de Petrópolis passei direto, sem a necessidade de cursinho, tão boa tinha sido a base de meus estudos.

Nunca mais me esqueci de alguns professores, Benedito Cleto, João Tortello, Dulce Pupo, Edson Campioni, Abramo Rubens Cuter, Valério Gozzano, e outros tantos que moldaram os meus conhecimentos. Mas o melhor professor que eu tive, meu tipo inesquecível, foi o Prof. Lauro Sanchez, em razão de quem, nesta segunda fase de minha vida, decidi escrever sobre História. Os professores de minha juventude representavam a elite intelectual da cidade. Alguns desfilavam com seus jalecos brancos angariando o respeito e admiração de todos os que por eles passavam. Eram bem remunerados e pertenciam ao topo da classe média.

O Prof. Lauro Sanchez, portador de severa deficiência visual, transformava as suas aulas em roteiro de filmes, e descrevia as situações com largos gestos representando os fatos ocorridos. Eu me lembro até hoje de uma aula de história quando descrevia a entrada de Alexandre Magno na Índia, atravessando o Rio Ganges em barcos depois queimados, e avançando contra os elefantes hindus fazendo um barulho infernal, de modo que os animais, assustados, dessem meia volta e investissem contra o seu próprio exército.

Aprendi inglês, aperfeiçoado no Cento Cultural, e que fez enorme diferença na minha vida quando me tornei diretor geral para o Brasil da empresa multinacional Card Guard Scientif Survival de Israel. Tive noções de francês e latim. As aulas de física do Prof. Valério eram tão boas que delas nasceu um dos maiores cientistas do país, Beto Fazzio (Adalberto Fazzio), que era nosso vizinho na Rua Afonso Pena e que atualmente é reitor de uma universidade no ABC. As ótimas aulas de português proporcionaram que eu me tornasse jornalista e muito mais tarde escritor. Minhas redações no ginásio foram a razão do Padre Aldo Vanucchi ter me convidado para trabalhar na Folha Popular, depois Folha de Sorocaba.

Só era difícil prestar atenção na aula na presença da Regis Ventrella que era o ideal de beleza de todos os rapazes da época. Embora minhas notas não espelhassem este fato sempre fui bom aluno. Eu tinha preguiça de estudar para as provas e ia fazê-las de memória. E tanto lá, quanto aqui, a memória muitas vezes falha. Eu lia muito e meus conhecimentos gerais eram mais amplos que os dos meus colegas em diversos assuntos, e eu gostava muito de conversar com os professores, que tinham tempo e disposição para trocar ideias com seus alunos.

E hoje em dia? Há algum tempo fui convidado a dar uma palestra aos professores de uma grande escola do SENAI, em cidade satélite do Distrito Federal. Eram mais ou menos sessenta mestres. Sem falsa modéstia, minhas palestras são preparadas com cuidado e frequentemente aplaudidas em pé. Pois bem, neste dia, metade da plateia presente usava acintosamente seus celulares em redes sociais, fingindo que estava prestando atenção. Eles fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e o resultado é que nem o ministro da educação escreve com português correto. Como será então o resto da população estudantil?

Em um dos meus livros há um capítulo sobre educação, em seus dois sentidos: as atitudes civilizadas de comportamento e a aquisição sistematizada de conhecimentos, a primeira responsabilidade dos pais, e a segunda dos professores. Com pai e mãe sendo obrigados hoje a trabalhar para sustentar a família rareou a primeira opção e com os professores mal pagos, sobrecarregados e politizados que temos, a segunda tornou-se crítica. Ou redescobrimos a opção de uma educação – lato sensu – de qualidade, ou estaremos condenados a ser para sempre uma nação de segunda classe.

Não era essa a visão que tínhamos do futuro naqueles anos dourados de 60/70 quando cada um de nós imaginava o brilhante, fulgurante, porvir do Brasil. “Todos juntos vamos, prá frente Brasil, salve a seleção”.