fevereiro 02, 2021

SEXO E MISTICISMO - UMA ABORDAGEM HISTÓRICA E CULTURAL - PARTE 1


 SEXO E MISTICISMO: uma abordagem histórica e cultural


Parte 1

O intuito deste ensaio é abordar as relações entre duas das mais poderosas manifestações que abordam o gênero humano: o sexo e o misticismo.
O sexo é uma das manifestações de energia criadora. Sem esta força vital não existiriam formas organizadas de vida. Por esta razão as grandes correntes religiosas e filosóficas da antiguidade trataram deste assunto com grande ênfase.
No hebraísmo estudou-se a sexualidade com minúcias, existindo mesmo um aspecto de "erotismo sagrado" na Cabala, que abordaremos a seguir. A tradição hindu, bem como a chinesa, são riquíssimas neste aspecto.
Diversas estatísticas levantadas em foros judiciais em todo o país mostram que uma expressiva parcela das ações de separação diz respeito, direta ou indiretamente a incompatibilidade sexual. O sexo é o "leit motiv" dos problemas interpessoais.
É certo que os condutores de homens, os líderes de todas as épocas sempre souberam disso e por essa razão os códigos de comportamento ético ou moral de todos os povos se preocuparam em conter a sexualidade dentro de estreitos limites.
Segundo um renomado sociólogo americano, Dr. A Willy, o comportamento do ser humano com relação a sexualidade depende de três fatores: os instintos, a sociedade e a razão.
Os instintos, comuns a todos os animais, o que inclui naturalmente o "homo sapiens", formam uma base constante de comportamento sexual, quer o agente seja uma macaco antropóide, quer seja um ser humano.
A sociedade, com suas leis e regras, exerce sobre o comportamento sexual do homem uma influência maior do que a dos primitivos instintos. No entanto, quer a leis sejam naturais, quer sejam consuetudinárias, variam em função do local e da época.
O terceiro fator que rege o comportamento sexual do homem é a razão. A razão é, com sua força equilibradora, o que leva o indivíduo a aceitar exteriormente as prescrições da sociedade e a agir interiormento de acordo com o seu foro íntimo, que chamamos de moral ou de consciência.
A razão, por conseguinte, equilibra o antagonismo existente entre as prescrições da sociedade e os apelos do instinto. Quando tal não se dá, o erotismo gratuito se desencadeia e a decadência dos costumes e da sociedade processa-se num ritmo acelerado, cujo exemplo mais dramático foi o Império Romano.

Sexo entre os hebreus

Uma tradição judaica dis que, quando um homem e uma mulher se encontram e se amam, os anjos se rejubilam, e que é do encontro desses amantes que se inspiram os cânticos celestiais.
Independentemente de suas finalidades específicas a natureza fez do sexo uma função muito agradável. Qualquer tensão que se acumule no organismo, como sono, fome ou sede causa angústia e o relaxamento desta tensão mediante sua satisfação é sentido como prazer. Isso é muito mais verdadeiro ainda no caso da tensão sexual, cuja satisfação constitui uma das mais prazenteiras atividades do ser humano.
No Velho Testamento, o Cântico dos Cânticos, atribuído ao Rei Salomão, celebra esse prazer através do amor mútuo em que um amado e uma amada se unem, se perdem, se buscam e se encontram. Este livro, sem nenhum plano definido, é uma coleção de poemas unidos pelo mesmo tema, o amor carnal, considerado com um sadio realismo. O Cântico não fala de Deus, emprega a imagem de uma amor apaixonado e segundo alguns estudiosos foi baseado nos cultos de Ishtar e Tammuz, copiados pelos cananeus e praticado nos primórdios do culto de Iaweh.
Embora seja discutível, alguns exegetas pretendem que o Cântico teria sido o ritual expurgado e revisado dos ritos da hierogamia, ou casamento divino, praticado desde o antigo Egito, e cuja cultura teve ponderável influência na formação das tradições judaicas.
Vejamos, para conhecer o estilo e o espírito, alguns trechos do Livro:

Como és bela, minha amada, com és bela
Teus peitos são dois filhotes, filhos gêmeos da gazela,
pastando entre açucenas...
Antes que sopre a brisa e as sombras se debandem
vou ao monte de mirra, à colina do incenso...
Tua boca é um vinho delicioso, que se derrama na minha
molhando-me os lábios e os dentes.
Eu sou do meu amado, seu desejo o traz a mim.

O mesmo amor humano é eventualmente tema de outros livros do Antigo Testamento: assim, em relatos do Gênesis, na história de Davi, nos Provérbios e no Eclesiastes, onde ele é tratado de forma e com expressões semelhantes às do Cântico.
A Cabala, como também as demais tradições do Oriente tem um aspecto de erotismo sagrado, em que Adão é simbolizado pelo IUD, letra hebraica de formato semelhante a um apóstrofo, ou a um espermatozóide, e representa o aspecto masculino. Se se acrescentar a essa letra o nome ternário de EVA, obtemos IEVE, o Nome Sagrado. Isso eignifica que desse encontro, dessa relação entre o homem e a mulher nasce o Nome Sagrado de Deus. Abrem-se dessa forma, novas perspectivas de entendimento sobre o amor e o sexo.
Também traz nova visão sobre o antagonismo natural do 1 e 2 e sobre a atração dos contrários.
Assim: ALEF é masculino, homem; BEIT é feminino, mulher.
A é ativo e B é passivo. Na tradição hindu representam o LINGAM e a YONI. Na chinesa o YIN e o YANG.
O princípio ativo busca o princípio passivo. Qual é a natureza do princípio ativo? É propagar. E qual a natureza do princípio passivo? É fecundar. A unidade se exprime pelo binário.
Uma das interpretações da Estrela de David, o "maguen David", é a de que os dois triângulos sobrepostos que formam a figura, um para cima, e outro para baixo, representam o encontro entre o homem é a mulher, a relação fecunda que glorifica o amor e cria a vida.

............................................................................

fevereiro 01, 2021

O PAI NOSSO ORIGINAL, EM ARAMAICO



O Pai Nosso original, em aramaico

 

            O Pai Nosso é a oração mais comum da cristandade. Não há quem não tenha a proferido em adoração, súplica ou gratidão em algum momento da vida, só ou em grupo, antecedida da expressão “a oração que nos foi ensinada pelo Pai”.

 No entanto o Pai Nosso que costumamos rezar não é aquele que nos foi ensinado por Jesus Cristo, conforme conta Mateus: Jesus estava rezando em algum lugar, sozinho, próximo a Cafarnaum, em alguma colina com vista para o Mar da Galiléia. Quando ele parou de orar, um dos discípulos se aproximou e pediu: - “Senhor, emsina-nos a rezar como João ensinou a seus discípulos”. E então Jesus lhes disse, na língua comum do povo daquela época, o aramaico: - “Quando vocês rezarem, digam”:

            Abvum d’bashmáia, netcádash shimóch, tetê malcutách, nehuê tcevianách aicana d`bashimáia af b’arha, havlan lácma d’suncanán ianomána, uáshbocan haubéin uahtehin aicána dáf quinan shbuocán l´haiabéin, uêla tahlan l´nesiôna. Ela patssan min bixa, mêtol diláhie malcutá uahália usteshbôcta l’ahlám almin. Amen.

            O aramaico, (cujo nome deriva do Patriarca Aaram – ou Aarão) é um idioma semítico[M1]  nascido por volta de 600 anos antes de Cristo e era falado por todo o povo daquela região. É uma língua de pastores e agricultores, muitos deles nômades, e cujos limites geográficos eram as estreitas faixas de terra fértil delimitadas pelos intermináveis desertos e o límpido céu maravilhosamente estrelado como cobertura. Tem um vocabulário limitado e os seus conceitos referem-se fundamentalmente a vida simples daquelas pessoas, ligadas a terra, a agricultura, às colheitas, aos animais de pastoreio e as tradições místicas dos povos do deserto.

            Desta forma, muitas expressões em aramaico têm significados impossíveis de se verter com precisão para outros idiomas. Por exemplo, a palavra céu, no sentido bíblico, traduzida para o grego como “cosmos” que significa “ordem”, tem em aramaico o sentido muito mais amplo e belo, de “luz e som brilhando através de toda a criação”, provavelmente a sensação que emocionava aqueles primitivos pastores durante as noites de vigília.

            Os 39 livros que compõe o Velho Testamento e outras dezenas de livros que chamamos de apócrifos, foram grafados em aramaico, hebraico e siríaco e os 27 livros contidos no Novo Testamento em grego. Mas os livros do Velho Testamento também foram vertidos para o grego, a língua culta da época, idioma muito mais estruturado e lógico, e a partir deste foram feitas as traduções da Bíblia, para quase todos os idiomas.

            O grego foi introduzido no Oriente Médio por Alexandre da Macedônia, cujas conquistas militares helenizaram o mundo antigo mas nunca se tornou uma língua popular. Era falado pelos intelectuais e pela elite da época e o povo da Terra Santa sempre usou o aramaico. O hebraico era um idioma litúrgico falado apenas pelos sacerdotes e nas cerimônias das sinagogas.

Em 1681 é publicada a primeira Bíblia em língua portuguesa, tradução do Reverendo João Ferreira de Almeida, (Torre de Álvares, Portugal, 1628-1691), sacerdorte católico que se converteu ao protestantismo e que dedicou praticamente toda sua vida a verter a Bíblia para o português.

            Uma vez que as traduções da

            Abvum d`bashmáia (Pai-mãe, Respiração da Vida, Fonte do Som. Ação sem Palavras, Criador do Cosmos. Faça sua Luz brilhar entre nós, fora de nós e que possamos nos tornar úteis).

            Netcádash shimóch ( Ajude-nos a seguir nossos caminhos, respirando apenas o sentimento que emana de você)


 [M1]Refere-se aos povos semitas, um dos quais é o povo hebreu.