A QUESTÃO DA PALAVRA. DE NOVO - Heitor Rodrigues Freire

 

“Pelas vossas palavras sereis justificados; pelas vossas palavras sereis condenados” (Mateus 12:37).

A palavra, esse instrumento maravilhoso de que fomos dotados, exige cada vez mais sua utilização consciente para que não cause prejuízos, às vezes, irreparáveis.

Falar sem uma avaliação correta do que estamos falando poderá causar situações inusitadas e que ensejarão dano, com certeza, financeiro ou moral.

A propósito, o site Migalhas, em sua edição nº 5.846, de 09/05/2024, publicou uma matéria que ilustra bem esse assunto. Transcrevo:

“Em meados de março deste ano, pelas ruas da cidade de Fortaleza, o advogado cearense César Crisóstomo levava seu pai ao banco quando, incomodado pelo silêncio, decidiu trocar de estação e colocar na emissora da Rádio Jovem Pan.

No momento, ocorria uma entrevista com o empresário e coach Pablo Marçal no programa Pânico. Ao longo do bate-papo, o convidado afirmou, com ênfase, que pagaria 1 milhão de dólares para a pessoa que encontrasse algum processo movido por ele, de pessoa física ou jurídica.

Ao ouvir as palavras de Pablo Marçal, o advogado afirmou que, inicialmente, não deu importância. No entanto, com “a pulga atrás da orelha”, após dois dias, decidiu procurar processos envolvendo o coach. O advogado afirma ter encontrado ao menos 10 processos movidos por Marçal nos últimos anos.

Após localizar os processos, a decisão que o causídico tomou o traria aos holofotes de todo o país. Crisóstomo decidiu ajuizar uma ação contra o empresário pedindo os 51 milhões de reais prometidos durante o programa.

Em entrevista ao Migalhas, o advogado diz que tentou entrar em contato com a equipe do empresário antes de iniciar o processo judicial.

‘Mandei mensagem pelo WhatsApp e tentei entrar em contato via notificação extrajudicial para dizer: 'Meu amigo, está acontecendo isso aqui. Vamos deixar em off. Se você falou, cumpra. Estão aqui os processos. Vamos lá, me pague.’

Após a quarta tentativa frustrada de contato, o causídico optou por ajuizar ação contra o empresário.

‘Ele simplesmente ficou em silêncio. Nada de me responder. Depois que juntei a ata notarial com a gravação, aí eu não tive outra opção senão acionar o Judiciário.’

(...)

Segundo o causídico, uma das motivações que o fizeram ajuizar ação contra Pablo Marçal, além do ordenamento jurídico, foi a cultura cearense na qual está inserido.

‘Eu cresci com esse sentimento de que homem que tem palavra, a mulher que tem palavra, vai e cumpre aquilo que se comprometeu a fazer. Vamos ver se ele realmente é uma pessoa séria, uma pessoa idônea, de palavra. Se ele for, ele vai pagar; se não, ele vai inventar um milhão de desculpas, [que, inclusive] já começou, me chamando de fracassado.’

Outra motivação, segundo o advogado, foi a de mostrar que os cidadãos brasileiros têm o direito à liberdade de expressão, porém devem arcar com as consequências de suas falas”.

O professor Hildebrando Campestrini tem uma frase lapidar: “Somos imortais pela palavra”. Com o que eu concordo plenamente. Porque a grande herança que cada um de nós deixa, no tempo e no espaço, é a nossa continuidade – que é o somatório de tudo o que falamos e fizemos –, e se realiza por meio da palavra.

É necessário – mais do que necessário, é indispensável – o nosso despertar para a utilização plena de todo o potencial de que fomos dotados.

Vamos pensar antes de falar, para só falarmos aquilo que de fato queremos ver realizado. E assim, conscientemente – a palavra-chave é consciência – acordados, devemos estar presentes a cada momento, evitando agir no modo automático.

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

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