Perguntou um dos leitores habituais do A-Partir-Pedra, no comentário ao texto “Os sinais de reconhecimento”:
• “Continuo a considerar tudo isto um brincadeira de “gente crescida”.
• Para quê?
• Ensinamentos que os maiores filósofos do mundo não tenham explicado?”
A pergunta é tão pertinente que, tendo tencionado inicialmente responder-lhe nos comentários, acabei por decidir dedicar-lhe o texto de hoje.
Comecemos então por uma analogia.
Existem milhares de formas de perder peso: dietas equilibradas, dietas malucas, jejum, exercício moderado, exercício pesado, exercício combinado com dietas, bulimia, enfim…
Há para todos os gostos.
No fim, todas têm o mesmo objetivo: perder peso.
De uma forma mais intensa, podemos ainda explorar o objetivo “ser saudável”.
Aí entram, além das dietas e do exercício, as pulseiras magnéticas milagrosas, os chás de tudo e mais alguma coisa, as noites de sono bem passadas, as almofadas mágicas, o auto-controlo, a alternância equilibrada entre períodos de descanso e períodos de trabalho, os amuletos, o cumprimento de determinados rituais, enfim…
Todas elas nos prometem mais e melhor saúde.
Umas serão globalmente mais eficientes do que outras – e não esqueçamos que a eficiência é diferente de pessoa para pessoa – e umas terão mais contra-indicações do que outras.
No fim, cada um deverá procurar aquela que mais se lhe adequa, e pode, até, conseguir bons resultados combinando vários métodos ou aplicando apenas parte deles.
Do mesmo modo, tudo o que a Maçonaria ensina de substantivo pode ser encontrado de muitas outras formas: através de várias religiões, de diferentes correntes filosóficas, de palestras, de “gurus” privados, ou, para quem se disponha a despender algum do seu tempo, através até de uma boa biblioteca pública.
*O que a Maçonaria tem de único é o método, o meio, a forma.*
Não há ensinamentos exclusivos da Maçonaria que não sejam instrumentais, ou seja, que não digam respeito ao método e não ao fim, ao objetivo.
Por isso, quem procura na Maçonaria ensinamentos exclusivos, secretos, reservados, e que o resto do mundo desconheça, então desengane-se: não há.
Já aqui foi dito, bem como explicado o que a Maçonaria não revela e porquê.
Os símbolos, as alegorias, os “segredos de grau”?
Não passam de instrumentos, simples andaimes, meros artefactos que suportam, ilustram e consolidam os verdadeiros ensinamentos.
*Mas que ensinamentos são esses, afinal?!*
Ah, esses são tão únicos como único é cada indivíduo!
Pretender sabê-los seria como, através da descrição das técnicas de pintura de um dos grandes Mestres, pretender saber o que viriam a representar as telas pintadas por cada um dos seus discípulos…
A Maçonaria apenas indica os princípios, e esses são bem simples: a fraternidade, a entre-ajuda, a tolerância perante a diversidade, a crença num Princípio Criador, o trabalho como meio de obter resultados, o desenvolvimento intelectual, a procura do Bem e da Virtude, o combate ao Vício e às Paixões, e tudo isto focado em cada um, do modo que este melhor entenda que mais lhe aproveita para atingir os objetivos que definiu para si mesmo.
É, por isso, impossível dizer-se que ensinamentos é que a Maçonaria transmite: era preciso, para isso, que cada um estivesse ciente dos mesmos – que, tantas vezes, são absorvidos quase que “por osmose”, pelo contacto com ideias alheias, sem que sejam propriamente sequer verbalizados, e por vezes nem mesmo conscientemente apercebidos.
O que traz a segunda dificuldade: mesmo que apercebidos, podem não se conseguir transmitir senão de forma imperfeita.
Pensemos como explicaríamos como se pinta a alguém que nunca pegou num pincel, mas sem o fazer passar pela experiência de conspurcar dezenas de telas brancas, nem se besuntar nas tintas, ou passar pelo experimentar, olhar e tentar de novo…
Por fim, quem considere ser a Maçonaria uma “brincadeira de gente crescida” deve recordar que:
A Maçonaria Regular não faz proselitismo, ou seja, não faz convites nem recruta novos membros, pelo que ninguém pode acusar a Maçonaria de o ter arrastado para um erro.
Cada um dos que adere à Maçonaria fá-lo pelo seu próprio pé, por sua própria opção e no exercício da sua própria liberdade.
Apesar de nem todos serem livres de entrar, todos são livres de sair quando entendam; não queremos entre nós gente contrariada;
Há inúmeras formas de aumentarmos o nosso potencial humano e espiritual, das quais a Maçonaria é apenas mais uma.
Como os meios de emagrecimento, cada um deverá procurar o que mais se lhe adequa.
De fato, aos olhos de quem faça exercício duro, uma ou mais horas por dia, uma pessoa dedicar-se ao vegetarianismo como único meio de emagrecer pode parecer uma “brincadeira de gente crescida”; se de fato o é ou não, já é questão completamente diferente…

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