Há dias em que sinto que o tempo já não é meu, desde que o teletrabalho se instalou como o "novo normal", no pós confinamento pandémico, o que era suposto trazer liberdade trouxe, afinal, uma aceleração quase silenciosa.
Já não há separação entre o que é trabalho e o que é pausa, e mesmo quando há, é invadida por notificações, prazos, chamadas e a estranha urgência de responder a tudo.
Se me perguntarem quando foi a última vez que parei mesmo, sem celular, sem tarefas, sem estímulos, talvez tenha de recuar até à última sessão de Loja e a todas as ultimas sessões.
Isso, por si só, já diz muito..
Na vida profana, tudo parece correr, nas estradas, nos corredores dos supermercados, nos gabinetes e nas escolas., até os reformados.
Aqueles que deveriam ter tempo para o “dolce far niente” ou descansar à sombra do chaparro, parecem sempre com algo urgente para fazer.
O tempo tornou-se um luxo e a lentidão, um pecado.
Quem abranda é ultrapassado.
Quem pára, fica para trás.
E, no entanto, o tempo continua a ser o mesmo...
Não é o mundo que gira mais depressa, somos nós que deixámos de o escutar.
O tempo não se mede apenas em minutos, mas em presença, talvez seja por isso que vivemos com tanta pressa, para não estarmos realmente onde estamos, para não sentir o peso de cada instante.
A pressa não é apenas um vício, é uma forma de ausência, uma fuga bem disfarçada.
Em Loja, tudo muda, o tempo não acelera ou abranda, assume um ritmo próprio, cadenciado, harmonioso, quase litúrgico.
O ritual não está feito à medida da pressa, mas da harmonia.
Há pausas e há compassos.
Há silêncio e nesse silêncio, não há vazio, há sim construção.
Dizem que os antigos sabiam viver devagar. Os monges, os operários, os mestres de ofício, sabiam que ouvir o tempo era ouvir-se a si mesmos.
Hoje já não o fazemos, corremos.
Mas corremos para onde?
Gostava de mudar isso, de ter a capacidade para conseguir parar dez minutos por dia, só para refletir, para me ouvir.
Não para produzir, não para responder a ninguém, apenas para reencontrar o compasso interior que o mundo me rouba.
Talvez um dia volte a conseguir, talvez seja esse o verdadeiro trabalho de uma vida, recuperar o tempo.

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