Antes de o Estado ser uma máquina, ele foi um rito.
Na França medieval, o poder real não se legitimava apenas pela força ou pela herança: ele era sagrado. O rei não governava “por si”, mas por Deus. Dessa sacralização nasceu, lentamente, algo novo: o Estado moderno.
O rei ungido
A cerimônia de coroação, celebrada em Reims, era o coração simbólico do poder. Ali, o rei era ungido com o óleo da Sainte Ampoule, gesto que o separava dos demais homens. Não era apenas coroado: era consagrado. Seu corpo tornava-se inviolável; sua autoridade, transcendental.
Essa unção criava uma ideia poderosa: o rei possuía dois corpos — um natural, mortal; e outro político, eterno. Mesmo quando um rei morria, a realeza permanecia. O poder deixava de ser pessoa para tornar-se instituição.
Justiça como missão sagrada
A sacralização não era só ritual; era prática. Governar significava fazer justiça. Reis como Luís IX encarnaram esse ideal: julgavam pessoalmente, protegiam os fracos, apresentavam-se como árbitros supremos. A justiça real tornava-se o eixo do reino — e o embrião do direito público.
Do sagrado ao administrativo
Com o tempo, o poder ungido precisou de mãos, olhos e voz. Surgiram conselhos, escribas, tribunais, impostos, arquivos. A fé sustentava a coroa; a administração sustentava o governo. Paris concentrou esses instrumentos: leis, registros, finanças. O Estado começava a ter forma própria, independente do rei individual.
Absolutismo: a ponte
No século XVII, a sacralização alcança sua expressão máxima. Com Luís XIV, o rei afirma: “O Estado sou eu.”
Não é apenas arrogância; é a culminação de um processo. O poder, antes distribuído entre senhores, Igreja e cidades, concentra-se no centro. O sagrado legitima a centralização; a centralização cria o Estado.
O paradoxo fundador
Mas a sacralização traz uma contradição: ao tornar o poder absoluto, ela o torna também visível — e, portanto, questionável. Quando o rei falha, não falha apenas um homem: falha um sistema. A crítica cresce, a razão ilumina, e a fé política se desgasta.
Assim, aquilo que criou o Estado moderno também preparou sua transformação. A soberania deixa o corpo do rei e migra, pouco a pouco, para a nação.
O legado
O Estado moderno nasceu ajoelhado, entre óleo sagrado e altar.
Aprendeu a andar com leis, arquivos e impostos.
E, mais tarde, aprendeu a caminhar sem coroa.
A sacralização do rei não foi ilusão: foi fundação.
Sem ela, não haveria continuidade.
Sem superá-la, não haveria modernidade.
Fonte: Facebook
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