janeiro 19, 2026

QUANDO FOI QUE COMEÇAMOS A NOS PERDER - Hugo Studart



A Revolução Iraniana, em 1978, significou a ascensão de um dos mais controvertidos –e ao mesmo tempo influentes-- teólogos em 14 séculos de islamismo, Ruhollah Khomeini. Em farsi, a língua majoritária do Irã, Ruhollah significa “inspirado por Allah”. Ele partiu da ideia do teólogo paquistanês Sayyid Mawdudi de que todos os povos do mundo devem ser governados pelos sacerdotes, em nome de Allah e segundo as leis islâmicas. Ou seja, nada diferente do que pregavam os santos teólogos católicos medievais, a começar por Santo Agostinho – esse ai, confesso, com quem ainda nutro afinidades.

Khomeini foi discípulo de Mawdudi na decada de 1930. Homem intelectualmente limitado mas dono de uma oratória aguda e de uma genialidade política raras, Khomeini acrescentou outra ideia – a necessidade de uso da violência e da guerra como armas de conversão ao islamismo. Ele pregava a necessidade do martírio, do suicídio e da espada para impor o sharia aos fiéis e aos infiéis. Ele tinha como lema: 

“A espada é a chave do paraíso”.

Suas ideias e práticas, enfim, são extremamente similares à do teólogo católico Joaquim de Fiore, inspirador de grupos de camponeses “iluminados” do Século 11 que buscavam precipitar os final dos tempos para instaurar o Paraíso na Terra e, na sequência, das Cruzadas Santas cristãs contra os inféis do Oriente. 

Como fizeram todos os demais movimentos messiânicos radicais anteriores --cruzados católicos, iluministas franceses ou revolucionários marxistas-- tão logo Khomeini consolidou-se no poder, imediatamente passou a exportar sua guerra santa para outros países. Encontrou por todo Oriente Médio uma juventude humilhada por séculos de dominação Ocidental, por décadas de despotismo de governantes fantoches, e por crises econômicas que parecem não ter mais fim. Terreno fértil, húmus puro, para pregações messiânicas radicais. 

Sua teologia disseminou-se por grupos políticos em uma enorme faixa de terra que vai do extremo ocidente africano ao extremo oriente asiático. Cada um mais radical do que o outro. Todos buscando as mais esdrúxulas e possíveis ligações com a divindade para justificar o uso da religião para fins políticos. 

Assim, no dia 11 de Setembro de 2001, uma dessas muitas facções escatológicas, Al-Qaeda, liderado por um autonomeado messias chamado Osama bin-Laden, conseguiu, dentre outros feitos, devolver ao pó duas torres gêmeas fincadas no coração do Império Americano, símbolos do imaginário capitalista, oficializando o início da sharia, uma Cruzada Santa do Islã contra os infiéis do Ocidente.

Desde então, vêm proliferando estudos, teses e prospecções sobre essa guerra. Os analistas mais conceituados, como o economista francês Jacques Atalli, um genial visionário, apontam para uma cruzada que tende a durar cerca de 50 anos. Tende também a se radicalizar reciprocamente, incitando grupos religiosos cristãos a perderem a racionalidade de tal forma que já defendem abertamente o expurgo da Teoria da Evolução das Espécies de Darwin dos currículos das escolas oficiais, em favor da teologia mais primitiva – a de que o homem foi criado por Deus e a mulher nasceu da costela de Adão. Esses fundamentalistas cristãos são os nossos próprios aiatolás xiitas, com os quais teremos que conviver por muitas décadas, em uma noite que talvez pareça não ter mais fim.


Nenhum comentário:

Postar um comentário