As origens remotas da Maçonaria permanecem desconhecidas, e os historiadores, nesse ponto, ainda se limitam ao campo da conjectura. Algumas dessas conjecturas são particularmente fantasiosas. Não teria sua criação sido atribuída à própria mão de Deus? Não teria sido creditada ao próprio Adão, a Moisés, a Ninrode? Alguns, aparentemente mais sérios, remontam a fundação dessa "sublime Ordem" ao rei romano Numa Pompílio (715 a.C.) e acreditam que seus "segredos" chegaram até nós por meio dos "Colégios" de artesãos romanos que, estabelecidos por todo o Império, continuaram na Idade Média na forma de grupos profissionais, irmandades, "guildas" ou corporações. Outros acrescentam que muitos Templários se filiaram a essas irmandades comerciais, especialmente após a dissolução da Ordem do Templo em 1312.
I. — A Maçonaria na Idade Média.
Como pensavam dois antigos e prestigiados Grão-Mestres da Grande Loja da França, Michel Dumesnil de Gramont e Antonio Coen (1), existe em todo caso um vínculo de filiação entre a Maçonaria moderna, chamada especulativa, e a Maçonaria "operativa" da Idade Média.
“Na Idade Média”, escreveu Victor Hugo, “a humanidade não considerava nada importante que não expressasse em pedra”. A arquitetura era verdadeiramente a arte real. Essas grandes obras em pedra, que continuam a nos maravilhar até hoje, eram encomendadas e financiadas pela Coroa, pela Igreja, por grandes senhores e pelas municipalidades. Exigiam uma grande força de trabalho, muitas vezes vinda de longe para trabalhar nos canteiros de obras.
Essa força de trabalho era composta por homens livres, não servos presos à terra — ou seja, homens livres, que escapavam da servidão feudal e real. À frente desses “maçons” estava um Mestre de Obras que tinha autoridade sobre os trabalhadores e jurava cumprir os regulamentos. Ele detinha o título de Mestre Maçom e podia ter assistentes. A Loja era construída no canteiro de obras. O termo surgiu pela primeira vez na Inglaterra em 1278 (Abadia Real) e na França em 1283 (Notre-Dame de Paris). Era uma oficina coberta onde os materiais eram cortados, esculpidos e preparados para uso. Era também um local de descanso e convívio fora do horário de trabalho. Por fim, era certamente um lugar de aprendizado: os elementos da geometria e os princípios da arte da construção eram ensinados ali. E essa "arte, que consistia em dimensionar as várias partes de um monumento, em erguer aquelas torres e campanários ousados, em curvar aquelas magníficas abóbadas, sob as quais o som assumia uma dimensão mais harmoniosa, parecia uma arte mágica", como escreveu Albert Lantoine. Dentro da Loja, os membros trocavam "segredos" profissionais, como a Proporção Áurea, mas também segredos de outra natureza, que eram proibidos de serem escritos, mas que se encontram gravados em pedra, como o círculo, a pirâmide, o Selo de Salomão e a estrela de cinco pontas. A palavra "Loja" rapidamente passou a designar a comunidade, o grupo de aprendizes que trabalhavam na mesma construção. Submetida durante toda a duração do projeto à autoridade do Mestre Maçom, essa comunidade extraía considerável força da habilidade profissional de seus membros, de seu número e dos laços estreitos forjados entre eles pela intimidade diária da Loja. Além disso, a mobilidade inerente à profissão facilitou as conexões entre os canteiros de obras e levou a uma certa padronização das lendas e costumes do ofício. Estes seriam registrados por escrito a partir do século XIV, na Grã-Bretanha e também na Alemanha.
Possuímos cerca de uma centena de versões manuscritas inglesas ou escocesas das Antigas Obrigações. Entre esses manuscritos, um dos mais antigos é o Manuscrito Cooke (1410 ou 1430).
Isso inclui:
1) uma declaração que reconhece a dívida do homem para com Deus;
2) duas versões sucessivas da história lendária da profissão desde os tempos bíblicos;
3) a tarefa de casa propriamente dita;
4) uma breve oração final.
Os deveres assemelhavam-se muito aos prescritos em outras profissões pelas "Ordenanças" das guildas municipais. Parece que o novo membro da Loja ouvia a história da Ordem, sendo então exortado a observar os deveres, que lhe eram lidos em voz alta, com a mão sobre o Livro (a Bíblia), segurado por um dos maçons mais antigos. Ele então prometia manter em segredo os ensinamentos do Venerável Mestre e tudo o que aprendesse na Loja.
Ainda mais antigo que o Manuscrito Cooke é o Manuscrito Reguis (1390), que transforma as lendas da construção em versos. Segundo esse poema, a geometria, fundamento da arte da construção, foi inventada por Euclides no Egito para reconstruir o cadastro de terras a cada ano após a cheia do Nilo.
Na Alemanha, foram preservados os "Estatutos e Regulamentos de Regensburg, da guilda dos pedreiros", datados de 1459. Eles confirmam a existência dos "Steinmetzen" (pedreiros) agrupados em "Witten" (Lojas) e "Haupthütten" (Grandes Lojas), das quais havia cinco: em Estrasburgo, Colônia, Viena, Zurique e Magdeburgo. Uma primeira assembleia de pedreiros alemães foi realizada já em 1275 em Estrasburgo, onde o mestre de obras da catedral, Erwin von Steinbach, foi nomeado Mestre de todos os pedreiros. Uma Loja de Estrasburgo da Grande Loja da França leva seu nome até hoje.
O caráter religioso, até mesmo católico, das "Antigas Obrigações" britânicas (isto é, antes da Reforma) parece inegável. A maioria das constituições manuscritas começa com uma invocação a Deus e às três pessoas da Santíssima Trindade. O primeiro artigo das "Obrigações Gerais" ordena ao maçom "que seja um homem leal a Deus e à Santa Igreja e que evite o erro e a heresia". De forma semelhante, na Alemanha, os regulamentos para pedreiros começam assim: "Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo, e da gloriosa Mãe Maria..."
Em assuntos políticos, os antigos deveres manuscritos obrigam os maçons a "serem súditos leais ao rei, a serem leais à autoridade civil"
Assim nos é apresentada a Maçonaria antes do século XVI, em toda a Europa cristã: um grupo com caráter profissional, religioso e cultural, cujo local de trabalho e reunião era, em cada canteiro de obras, a Loja.
......Continua amanhã...
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