fevereiro 21, 2026

A POLÍTICA ESTÁ IMPEDINDO MUITAS PESSOAS DE VIVEREM - Cesar Romão

 



Nunca se falou tanto de política como agora. 

Ela está na mesa do almoço, no grupo da família, nas redes sociais, no trabalho, no bar e até nos momentos que antes eram reservados ao silêncio ou ao afeto. 

A política deixou de ser apenas um instrumento de organização coletiva e passou a ocupar o centro da vida emocional das pessoas. 

O problema não é discutir política, isso é saudável e necessário. O problema é quando essa discussão se transforma em obsessão, substituindo a própria experiência de viver.

A política contemporânea, especialmente em tempos de polarização extrema, deixou de ser um campo de ideias para se tornar um campo de identidades. As pessoas já não debatem propostas; defendem rótulos. 

Não buscam compreender; querem vencer. O outro não é mais um cidadão com visão diferente, mas um inimigo moral. Nesse ambiente, a política passa a funcionar como uma religião secular: há dogmas, hereges, profetas, fanáticos e condenações públicas. E como toda fé mal digerida, ela exige devoção total.

Enquanto isso, a vida real vai ficando em segundo plano. As conversas perdem leveza, os encontros perdem espontaneidade e as relações se tornam condicionais: só permanece quem pensa igual. 

Muitos já não sabem mais escutar sem preparar o contra-ataque. Outros acordam e dormem consumindo indignação, como se estivessem permanentemente em estado de guerra. Viver, nesse contexto, passa a ser apenas reagir.

Há um paradoxo cruel nisso tudo. A política deveria servir para melhorar a vida concreta, o trabalho, a saúde, a educação, o lazer e a dignidade. No entanto, quando ela se torna o eixo absoluto da existência, acaba produzindo o efeito contrário: mais ansiedade, mais rupturas, mais frustração e mais amigos se afastando. Pessoas brigam por políticos que nunca as conhecerão, rompem amizades por ideologias que não lhes darão colo e sacrificam momentos únicos em nome de discussões repetitivas e estéreis.

Esquecer-se de viver não significa alienar-se. Significa lembrar que a vida é maior que o debate. Que existe beleza fora das manchetes, sentido fora das timelines e humanidade fora dos discursos prontos. Viver é conversar sem transformar tudo em trincheira, é rir sem culpa, é amar sem pedir declaração ideológica. É compreender que nenhuma causa vale a perda completa da sensibilidade e do bom senso. 

A política tem origem na necessidade humana de viver em comunidade. Desde os primeiros agrupamentos sociais, os seres humanos precisaram criar regras para organizar a convivência, distribuir recursos, resolver conflitos e tomar decisões coletivas. Essa prática antecede qualquer teoria formal e nasce da própria vida social.

O termo “política” vem do grego politiké, derivado de pólis, que significava cidade-estado. Na Grécia Antiga, especialmente em Atenas, a política passou a ser compreendida como a arte de governar a cidade e buscar o bem comum. Participar da vida política era considerado parte essencial da condição humana, pois o homem era visto como um “animal político”, como definiu Aristóteles.

Com o tempo, a política evoluiu e assumiu diferentes formas: impérios, monarquias, repúblicas e democracias. Apesar das mudanças históricas, sua essência permaneceu a mesma: organizar o poder e mediar interesses dentro da sociedade. Assim, a política surge não como um fim em si, mas como um instrumento para tornar possível a vida coletiva.

Talvez o maior ato político, hoje, seja resgatar o ser humano. Defender a convivência, o diálogo imperfeito, a pausa, o afeto. A política passa; a vida, quando não vivida, não volta.

Tanta discussão sobre política parece não resultar em nada, as eleições surgem e os mesmos que criticamos, elegemos mais uma vez. Quando um político duvidoso sem ética surge, é um empurra empurra para se fazer uma self com ele. 

Diógenes de Sinope filósofo grego da escola cínica andava pelas ruas de Atenas em pleno dia com uma lanterna acesa, afirmando estar “procurando um homem honesto”. Esse ato era uma performance satírica que criticava a hipocrisia, a corrupção e a falta de virtude genuína na sociedade da época. 

A Lanterna de Diógenes teria ótima função nos dias de hoje. 

A vida surgiu há pelo menos 3.8 bilhões de anos no planeta, o ser humano surgiu há 300 mil anos, a política surgiu há 5 mil anos a.C. Como devemos muitos respeito aos mais velhos, devemos dar mais valor e atenção a nossa vida. 




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