O mundo só se nos mostra pelos nossos sentidos, e a complexidade e a variabilidade da realidade ultrapassam a nossa capacidade de absorver a individualidade de cada ocorrência.
Para lidar com essa complexidade generalizamos, sintetizamos e normalizamos, considerando, de acordo com a nossa vivência, serem idênticas coisas que, na verdade, são ligeiramente diferentes.
Este mecanismo faculta-nos mais informação, que por sua vez nos permite entender, antecipar e reagir melhor àquilo que sucede em nosso redor.
No entanto, não há duas vidas iguais; não há duas experiências do mundo iguais; não há duas realidades iguais.
Por isso é que o mundo, tal como o apercebemos, é, mesmo que imperceptivelmente, distinto do mundo tal como é apercebido por qualquer outra pessoa.
Assim, porque cada um é fruto da visão que tem do mundo, é natural que seja única e irrepetível a matriz que estabelece a própria conceção identitária de cada um de nós.
Assim, podemos dizer que a nossa identidade passa pelas convicções que decorrem da nossa experiência ao longo da nossa passagem pelo mundo.
Ora, essas nossas convicções – especialmente a política e a religiosa – são um pouco como a nudez física.
Assim, há quem, (à semelhança dos nudistas – e, até, dos exibicionistas) esteja disposto a desnudar a sua intimidade do ser, do crer e do pensar, expô-la e questioná-la.
E, no outro extremo, há quem (à semelhança de quem nem ao médico revela a nudez) sinta como agressão o mero questionamento das suas convicções, sentindo que tal abalaria a delicada construção interna da sua relação consigo mesmo, com o mundo e com os outros.
Uma Loja maçônica é um local onde poucas dezenas de pessoas que se reencontram vezes e vezes a fio e que sabem que podem “baixar as defesas” e, sem receio, expor o seu ser, o seu saber e a sua experiência para benefício dos demais.
Cada um apresenta, na medida que entende fazê-lo, e mediante o seu grau de conforto em revelar-se, a sua visão do mundo e a súmula que dela fez – a sua pessoal e única experiência – com o intuito de que cada um dos demais possa ver o mundo por outros olhos e retire daí os ensinamentos que entenda.
Atacar essa matriz assim exposta seria atacar a pessoa no que tem de mais íntimo, de mais pessoal, de mais sagrado.
Por isto, uma das primeiras coisas que se aprende na Maçonaria é a respeitar a diferença e a diversidade, sejam estas de pontos de vista, de crenças ou de convicções.
Cada um dá um pouco de si; quem quer, colhe daí o que lhe aprouver.
Ninguém é obrigado a aderir a conclusões conjuntas, a versões definitivas, a consensos alargados; estes procuram-se apenas até onde é possível fazê-lo sem atropelar a convicção e a vontade de cada um.
É esta uma das formas através das quais a Maçonaria toma homens bons e os torna melhores.
É assim que, em Maçonaria, tudo se aprende e nada se ensina.
E é assim, e por isso, que, em Maçonaria, se aprende a calar tudo quanto possa perturbar este equilíbrio.
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