março 21, 2026

A FORMAÇÃO DO MAÇOM NO SÉCULO XXI - Helio P. Leite


 A FORMAÇÃO DO MAÇOM NO SÉCULO XXI: ENTRE A ESTRATÉGIA, GESTÃO E A LOJA

Quem afinal, é responsável por formar o maçom contemporâneo no âmbito do Grande Oriente do Brasil? A resposta revela não apenas uma estrutura de poder, mas, sobretudo, um modelo de responsabilidade compartilhada – e, muitas vezes, mal compreendida.

No debate recorrente sobre a formação maçônica, é comum a tentativa de atribuir a responsabilidade a uma única instância: ora ao Grão-Mestrado Geral, ora aos Grão-Mestrados Estaduais, ora ainda aos Veneráveis Mestres. Essa busca por um “centro exclusivo” de formação, contudo, parte de uma premissa equivocada. A formação maçônica não é um monopólio – é um sistema. E como todo sistema, exige integração, coerência e propósito.

O Grão-Mestrado Geral ocupa o vértice da estrutura. É dele que deve emanar a visão de futuro da Ordem, a definição de diretrizes doutrinárias e os grandes eixos formativos. Sem essa orientação superior, a formação perde unidade, compromete a identidade institucional. Cabe, portanto, ao nível central pensar o maçom que deseja formar: ético, consciente, preparado para os desafios contemporâneos e fiel aos princípios iniciáticos. Entretanto, diretrizes, por si só, não transformam realidades.

É nesse ponto que entram os Grão-Mestrados Estaduais, responsáveis por traduzir a estratégia em prática. São eles que operacionalizam programas, organizam cursos, capacitam lideranças e adaptam conteúdos às especificidades regionais. Funcionam como o elo vital entre o pensamento e a execução. Quando essa instância falha, o que se tem é uma doutrina bem escrita, porém ineficaz – um projeto que não sai do papel.

Mas é na Loja que tudo se decide. O Venerável Mestre não apenas administra trabalhos: ele forma homens. Sua influência é direta, cotidiana e, muitas vezes, silenciosa. É pelo exemplo, pela condução ritualística, pelo estímulo ao estudo e pela observação  atenta dos irmãos que a formação se concretiza. Nenhuma diretriz nacional, por mais bem elaborada, substitui a liderança efetiva no chão da Loja.

Se o Grão-Mestrado Geral pensa, e os Grão-Mestrados Estaduais executam, é o Venerável Mestre que realiza.

Essa constatação impõe uma reflexão necessária: a crise de formação, quando existe, não pode ser atribuída isoladamente a um desses níveis. Ela decorre, quase sempre, da desarticulação entre eles. Diretrizes sem execução tornam-se meras intensões. Execução sem liderança local transforma-se em burocracia. Liderança sem orientação doutrinária degenera em improviso.

O século XXI impõe à Maçonaria um desafio adicional. Não basta transmitir conteúdos ou repetir rituais. É preciso formar líderes capazes de compreender a complexidade do mundo contemporâneo, atuar com responsabilidade social e preservar, ao mesmo tempo, a essência iniciática da Ordem.

A ideia de uma estrutura nacional integrada de formação – como uma Escola de Administração Maçônica – não surge como luxo acadêmico, mas como necessidade estratégica. Um sistema que alinhe visão, execução e prática pode ser o caminho para superar a fragmentação e elevar o padrão formativo.

No fim, a resposta à pergunta inicial não está em escolher um responsável, mas em reconhecer uma verdade mais exigente: A formação do maçom não pertence a uma autoridade. Pertence a um compromisso coletivo.

E, como todo compromisso coletivo, só se realiza plenamente quando cada nível cumpre, com excelência, o papel que lhe cabe.



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