Existe uma velha fábula: o rato vê uma ratoeira sendo colocada na casa e corre avisar os outros animais. A galinha responde: “não é problema meu”. O porco diz: “lamento, mas não posso fazer nada”. A vaca ignora.
Naquela noite, quem não era o alvo acabou pagando o preço — porque quando o perigo entra na casa, ele não escolhe espécie.
A eleição municipal funciona exatamente assim.
Durante quatro anos, muitos assistem ao colapso da saúde, à escola sem estrutura e à insegurança crescente como se fossem problemas “do bairro do outro”. Só se indignam quando a ambulância não chega para o próprio filho, quando falta vaga para o próprio neto ou quando o assalto acontece na própria rua. A dor coletiva só vira urgência quando ganha endereço pessoal.
Mas chega o período eleitoral… e o comportamento muda: vira festa, vira torcida, vira negociação.
O voto deixa de ser consciência e passa a ser moeda.
Um favor aqui, um emprego ali, um saco de cimento, um contrato prometido, uma ajuda imediata.
Troca-se o futuro por conveniência de curto prazo — e depois se estranha o resultado.
Vamos ao silogismo mais simples possível:
1. Uma campanha que custa dezenas de milhões não é caridade.
2. Quem investe para ganhar “a qualquer custo” pretende recuperar o custo.
3. Quem paga a conta é sempre a população.
Não existe milagre administrativo capaz de sustentar política cara sem retorno financeiro. A matemática é brutal: a eleição cara produz gestão cara — e a gestão cara produz serviço público ruim.
Depois vêm as reclamações:
– hospital sem médico
– escola sem professor
– cidade insegura
– obra superfaturada
Mas quem elegeu?
Não foi um ente abstrato chamado “política”.
Foi o conjunto de pequenos interesses individuais somados.
A ratoeira nunca foi só do rato.
Quando alguém vende o voto pensando apenas no benefício próprio, está ajudando a construir o problema coletivo que um dia inevitavelmente baterá à sua porta. A tragédia pública nasce de milhares de decisões privadas aparentemente insignificantes.
Portanto, antes de criticar o caos, vale a reflexão: não existe governo ruim sustentado por eleitor responsável — e não existe boa cidade construída por voto negociado.
O problema do outro quase sempre é o ensaio do nosso.
Na democracia municipal, mais do que nunca, cada eleitor é parte da causa… ou parte da solução.
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