No dia da minha iniciação na maçonaria, fui recebido logo na porta por um maçom alto, imponente, desses que pela presença já impõem respeito. Sem muitas palavras, ele me conduziu a uma pequena sala reservada.
Ali começou algo que, naquele momento, me pareceu estranho e até desconcertante. Ele retirou meu paletó, minha gravata, desabotoou parcialmente minha camisa e a tirou da calça. Pediu que eu tirasse os sapatos e as meias, entregando-me um par de chinelos. Arregaçou uma das pernas da minha calça até próximo do joelho. Por fim, solicitou minha carteira, eu ainda tinha algum dinheiro ali dentro.
Não resisti e perguntei:
— Por que tudo isso agora?
Ele respondeu com serenidade:
— Você entrou aqui vestido como um profano. Agora está sendo despido de suas vaidades. Não está nu nem vestido. E foi despojado de todos os metais.
Fiquei ali, de pé, em silêncio. Confesso: eu não entendia nada. Minha mente buscava lógica, explicação, sentido imediato, e não encontrava.
Então colocaram uma venda sobre meus olhos.
E foi assim, na escuridão, sem entender completamente o que estava acontecendo, que comecei minha jornada. Não apenas dentro de um templo, mas dentro de mim mesmo.
Agora, 25 anos depois começo a entender melhor e vou tentar explicar.
Naquele dia nada foi aleatório. Cada detalhe daquela preparação que eu descrevi teve uma carga simbólica profunda. Não foi constrangimento. Foi construção.
Quando fui parcialmente despido, sem paletó, sem gravata, camisa desalinhada, um pé descalço, a perna arregaçada, isso representou o abandono das máscaras sociais. Ali não entrou o professor, o empresário, o avô, o cidadão respeitado. Entrou o homem. Cru de títulos. Sem status. Sem distinções.
O fato de estar “nem nu nem vestido” simbolizou um estado de transição. Eu não pertencia mais totalmente ao mundo profano, mas ainda não estava integrado ao mundo iniciático. Estava entre dois estados. É um limiar.
Ser despojado dos “metais”, dinheiro, objetos de valor, representou deixar do lado de fora aquilo que pesa: riqueza material, vaidade, poder. A mensagem foi clara: ali dentro, todos são iguais. O valor é moral, não financeiro.
O pé descalço e a perna exposta me remeteu à humildade e à vulnerabilidade. Eu não estava protegido. Estava aberto. Pronto para sentir o chão, a realidade, a verdade.
E então veio a venda.
A venda talvez tenha sido o símbolo mais forte. Ela representou a ignorância inicial, não como ofensa, mas como condição humana. Todos chegamos às grandes verdades sem enxergar completamente. A escuridão simbolizou o desconhecimento. A jornada começou quando aceitai caminhar mesmo sem ver.
E repare que isso ecoa na própria vida. Quantas vezes começamos algo sem entender direito? Casamento. Paternidade. Fé. Política. Amor. A gente entra meio às cegas… e só depois compreende.
A iniciação, no fundo, dramatizou o nascimento de um novo olhar. Primeiro a escuridão. Depois, gradualmente, a luz. Mas a luz só tem sentido para quem já experimentou o escuro.
E sabe o que acho interessante? No momento que eu disse aquele homem me recebeu na porta do templo, que não estava entendendo nada, talvez não fosse para entender racionalmente. A simbologia fala mais ao inconsciente do que à lógica.
Hoje, olhando para trás, eu entendo melhor, eu parado de pé, descalço, vendado!
Às vezes a verdadeira iniciação não acontece no dia do ritual. Ela acontece anos depois, quando a gente finalmente compreende o que viveu.
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