março 17, 2026

CIÊNCIA X RELIGIÃO - Mauricio Nunes



Recentemente, a pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, responsável por avanços promissores no tratamento de lesões na medula espinhal, foi questionada no programa Roda Viva não exatamente sobre sua descoberta — mas sobre o fato de a proteína estudada ter formato de cruz. Em poucos minutos, o foco saiu da ciência e foi parar na velha suspeita: não estaria ela misturando religião demais na conversa?

Mas por quê?

Desde quando reconhecer beleza, simbolismo ou até transcendência em algo invalida uma pesquisa científica? A ciência pede método e evidência. Não pede que a alma fique do lado de fora aguardando autorização.

Esse episódio me fez lembrar de Tomás de Aquino, um homem que, séculos atrás, ousou algo que ainda hoje soa revolucionário: pensar Deus sem medo.

No século XIII, quando muitos temiam que a razão pudesse ameaçar a fé, Tomás fez o movimento inverso. Em vez de afastá-la, convidou-a para a mesa. Não inventou uma filosofia do zero, como faria séculos depois René Descartes com seu célebre “penso, logo existo”. Tomás preferiu construir pontes. Aproximou o pensamento robusto de Aristóteles — que já era complexo para muita gente — da tradição cristã.

O resultado dessa engenharia intelectual foi batizada de Tomismo.

Ok, admito que o nome escolhido talvez não seja dos mais sedutores, mas nessa filosofia — se assim podemos chamá-la — a razão não combate a fé; prepara-lhe o caminho.

Tomás não era ingênuo. Sabia que nem tudo cabe numa equação. A razão pode ir longe — mas não vai até o fim de tudo. Há mistérios que ela aponta, mas não esgota. E há verdades que só se deixam conhecer pela fé. E aqui está o pulo do gato: para Aquino, razão e fé não brigam, se completam. São duas asas. E, convenhamos, ninguém voa com uma só.

Elas não são inimigas mortais, são mais como parentes que discutem no jantar de domingo, mas continuam morando na mesma casa.

O curioso é que transformamos tudo num duelo dramático. “É ciência!” grita um lado, como se estivesse defendendo a última fatia de pizza racional do universo. “É religião!” rebate o outro, com a convicção de quem já reservou lugar na eternidade.

Como se Deus estivesse ameaçado por um microscópio. Ou como se um telescópio pudesse finalmente anunciar: “Senhoras e senhores, encontramos o sentido da vida. Está a 12 bilhões de anos-luz e fecha às sextas.”

Talvez seja apenas nossa irresistível necessidade de transformar qualquer assunto — inclusive o infinito — numa discussão de reunião de condomínio.

No fundo, se a verdade é uma só, talvez ela esteja assistindo a tudo isso como quem vê duas pessoas brigando pelo controle remoto… enquanto o filme continua passando, indiferente, e nenhum dos dois percebe que a televisão nem estava ligada.

Fonte: A Toca do Lobo - Facebook


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