abril 09, 2026

A CRIAÇÃO DO MARCA-PASSO



Pegou a peça errada por engano. E esse erro hoje salva milhares de vidas todos os dias.

Universidade de Buffalo. Noite avançada no laboratório de eletrônica.

Wilson Greatbatch tinha os olhos cansados. Estava trabalhando há horas, tentando construir um dispositivo para registrar batimentos cardíacos para fins de pesquisa médica. Não era nada revolucionário, apenas um aparelho simples para ajudar os médicos a controlar o ritmo cardíaco.

Precisava de uma resistência. Colocou a mão na caixa de componentes sem prestar muita atenção. As bandas coloridas pareciam corretas sob a luz ténue.

Não eram.

Soldou a peça no circuito: 1 megaohm em vez dos 10 kiloohms que precisava. Ligou os cabos e acionou o interruptor.

O dispositivo não registou nada.

Em vez disso, começou a emitir pulsos.

Bip. Un segundo de silencio. Bip. Un segundo de silencio.

Greatbatch ficou olhando para o osciloscópio. Apareceu um pico perfeito por 1,8 milissegundos e depois desapareceu. Exatamente um segundo depois - bip - voltou. Ritmo perfeito. Tempo perfeito.

Seu registrador falhado batia como um coração humano.

“Fiquei olhando para aquilo com incredulidade”, escreveria mais tarde, “e então percebi que era exatamente o que era preciso para estimular um coração”.

Eu já tinha visto bloqueio cardíaco antes, uma doença em que o ritmo cardíaco fica perigosamente lento ou até mesmo para. Na década de 1950, muitas vezes era mortal.

Os pacemaker externos eram enormes, dolorosos e dependiam da corrente elétrica. Se a luz se apagasse, o coração parava.

Greatbatch viu o pequeno circuito que tinha na mão. Então surgiu uma ideia radical: e se o pacemaker pudesse ir dentro do corpo?

O mundo médico insistiu que a eletrônica não pertencia ao interior de um ser humano. O corpo era hostil ao metal. A ideia parecia impossível.

Mas Greatbatch não desistiu. Tinha 2.000 dólares economizados e uma convicção inabalável.

Limpou um espaço no seu celeiro em Clarence, Nova Iorque, e deixou o emprego. Nos anos seguintes, o celeiro tornou-se o seu laboratório. Eleanor, sua esposa, ajudou-o a testar componentes.

O maior desafio era proteger o dispositivo dos fluidos do corpo.

Tentou fita adesiva. Tinha fugas. A resina epóxi estava rachando. Ensaiou com pneus e plásticos. Cada falha consumia suas poupanças.

Os médicos avisaram-no: “A bateria vai acabar. Terá que reabrir o paciente.”

Os engenheiros duvidaram dele: "Nunca vai funcionar".

Mas ele continuou.

Em 1958, Greatbatch fez uma parceria com o Dr. William Chardack e o cirurgião Andrew Gage. Testaram o dispositivo em um cão.

O coração do animal bateu com um ritmo perfeito graças ao pacemaker.

Funcionou, mas só por algumas horas antes que os fluidos corporais danificassem o aparelho. Mas funcionou.

Greatbatch voltou para o celeiro e usou uma resina especial. Desta vez, durou mais.

6 de junho de 1960, Hospital Millard Fillmore.

Um homem de 77 anos estava morrendo. Seu coração batia muito devagar. Já não havia opções.

Os cirurgiões implantaram o pacemaker de Greatbatch. Depois fecharam a incisão.

O coração continuou batendo.

Pela primeira vez, um pacemaker implantado mantinha uma pessoa viva.

No final de 1960, outros nove pacientes tinham recebido o pacemaker.

Na década de 1970, Greatbatch melhorou a duração da bateria do dispositivo.

Centenas de milhares de pacemaker são implantados hoje por ano em todo o mundo, salvando e prolongando inúmeras vidas.

Tudo porque um engenheiro cansado pegou a resistência errada e soube ver algo extraordinário.

Wilson Greatbatch morreu em 2011, aos 92 anos. Seu celeiro ainda está de pé, como um lembrete do que a determinação pode alcançar, um erro e uma única ideia.

Às vezes, a peça errada é exatamente a certa.

Fonte: U.S. Department of Veterans Affairs ("The invention of the cardíaco pacemaker", 2 de agosto de 2018)

Nenhum comentário:

Postar um comentário