abril 18, 2026

MARXISMO E A MAÇONARIA - João Anatalino

 

À primeira vista é muito difícil ligar as teses marxistas a qualquer ensinamento maçónico. 

Nada parece estar mais distante um do outro do que os postulados marxistas e a filosofia praticada pelos Irmãos da Arte Real. 

Marx era um revolucionário, um racionalista por excelência, que aplicava as teses de Darwin para explicar o movimento da História e o desenvolvimento do indivíduo e dos grupos sociais.

Mas ao se verificar o momento histórico em que viviam os maçons nos meados do século XIX, é bem possível que esta moldura histórica tenha influenciado os organizadores do Rito Escocês, sugerindo-lhes a postura filosófica adoptada para o grau 26.

Afinal, por que, entre tantos símbolos herméticos, motivos gnósticos, alegorias alquímicas e evocações cavalheirescas, iriam ser introduzidos motivos políticos e sociológicos de tal conteúdo? 

Só podemos mesmo entendê-los à luz dos acontecimentos históricos da época. 

Afinal, para um bom entendedor não é preciso muitas palavras. 

A preocupação com a igualdade social e a justa valorização do trabalho não é uma concessão ao trabalhador, mas uma necessidade que se faz presente em face da própria evolução da história. 

E depois, quem melhor do que a Maçonaria, uma congregação de obreiros, ou seja, trabalhadores, para defender tais postulados? 

Afinal de contas, não é a Fraternidade dos Obreiros da Arte Real uma Confraria fundamentada exatamente sobre os sacrossantos valores do trabalho, da justiça, da igualdade em todos os seus termos?

A JUSTIFICATIVA DO TEMA 

A preocupação com a ascensão dos trabalhadores, a melhoria das condições de vida do povo, uma “redenção social” a partir da elevação das classes obreiras faz sentido dentro de um sistema de pensamento que pugna pela Liberdade, pela Igualdade e pela Fraternidade.

Especialmente a primitiva ideia da Maçonaria, que se fundamenta na mística de elevação de um grupo de “eleitos”, cooptados no seio da comunidade para se tornarem líderes de uma nova sociedade, justa, equânime e ordeira deve ter sido simpática aos organizadores do ritual. 

Dentro deste pressuposto, a doutrina de valorização do trabalho, mesmo com a sua inspiração socialista, serviu de fundamento aos postulados da Maçonaria, que é, na origem, uma sociedade fundada sobre a ideia de que somente o trabalho produz valor.

É verdade, porém, que o Marxismo, na sua concepção autoritária de organização política e social se opõe a qualquer tipo de sociedade secreta, bem como a qualquer particularização de ideias ou atitudes, sendo, portanto, avesso a qualquer coisa que se pareça com a prática maçónica. 

Razão pela qual, uma das primeiras providências dos regimes revolucionários de orientação marxista, quando tomam o poder, é banir as organizações dessa espécie.

A Maçonaria implica, ainda que seja forçoso ao Maçom reconhecer, numa ideia de elitismo. 

Mas este elitismo, da mesma forma que Platão o imaginou na sua República, é um plano de criação de um grupo seleto, no qual a sociedade encontre um celeiro de virtude e sabedoria, e onde possam ser encontrados dirigentes maduros e capazes para conduzi-la. 

Não é, em síntese, a perpetuação da aristocracia, da oligarquia e das castas, mas sim, da salvaguarda de valores e da seleção natural, aplicada ao desenvolvimento da sociedade. 

Isto faz-nos pensar que quando o ritual se refere à reabilitação das classes menos favorecidas, o que se pretende é que o Maçom desperte para a necessidade de trabalhar para permitir que as desigualdades sociais se tornem cada vez menores e todos tenham oportunidade de lutar, com iguais armas, para ascender socialmente.

Daí, talvez, a evocação de que a pedra filosofal do Maçom está embaixo da bandeira de três tons, oculta da vistas dos profanos e só a vê aquele que é capaz de entender o seu profundo significado. 

A bandeira, como se sabe, é a bandeira francesa. 

Estas cores são evocativas da aura de romantismo que norteou os revolucionários franceses de 1789, e foram introduzidas na bandeira daquele país por força dos ideais professados por aqueles patriotas. 

Entre eles havia muitos maçons.

A tradição de evocar questões sociais nos ritos iniciáticos maçónicos já existia em 1788, véspera da eclosão da Revolução Francesa, como bem lembra Jean Palou. 

Esta preocupação transparece no “interrogatório” dos profanos que se iniciavam na Loja da cidade de Privas, segundo aquele autor. 

Este “interrogatório” consistia no seguinte:

P.: – Que achais das questões que perturbam o reino?

R.: – É uma calamidade que toda a Franco-Maçonaria deveria em geral procurar remediar.

P.: – Se o Rei, vosso Mestre, lhe ordenasse pegar em armas contra Vossa Província, ou mesmo contra qualquer uma da França, que faríeis?

R.: – Pediria a minha demissão.

P.: – Que achais de M. de Briene, de M. de Lamoignon e, por conseguinte, daquele e daquelas que os autorizam?

R.: – Que esses senhores fossem enforcados. E que aqueles que os autorizam, um aos filhos enjeitados, e o outro que procurasse um melhor conselho.

Noutra Loja, em Pas-de-Calais, o discurso de recepção de profanos dizia: 

_“Encontrareis aqui a paz e a candura de vossos costumes; aqui desaparecem as classes sociais; o nível maçónico torna todos os homens iguais”.

Todos estes discursos são evocativos de um ideal libertário sufocado por uma aristocracia insensível, mas não de um ideal socialista, como parecem ter entendido alguns autores do ritual Moderno em Portugal. 

Quanto à bandeira tricolor, escreve J. M. Ragon que ela foi criada por um Maçom, de nome Laffayette, que era comandante da guarda nacional francesa por ocasião da Revolução.

As cores azul, branca e vermelha, corresponderiam aos graus da Maçonaria praticada naquele tempo, ou seja:

_ A Maçonaria simbólica (azul), 

_ O Capítulo (Maçonaria vermelha) 

_ E os graus filosóficos e administrativos (Maçonaria branca). 

Jean Palou, no entanto, contesta essa informação dizendo que a Maçonaria branca, correspondente aos 31 º, 32° e 33 º graus e é posterior a 1789.

O que talvez possa ter ocorrido, neste caso, é uma readaptação dos graus, passando os graus filosóficos a ser divididos de outra forma, diferentes daquela citada por Ragon. 

Tudo isso, são especulações que não podem ser comprovadas por falta de documentos específicos. 

De qualquer forma, esta informação é valiosa para o perfeito entendimento do simbolismo do grau 26 e seu conteúdo filosófico voltado à igualdades social através do trabalho. 

A aplicação das ideias de Marx não resolveu os problemas sociais e económicos dos países que as adoptaram, mas fez com que os países capitalistas adoptassem medidas para minorar o sofrimento das classes trabalhadoras e ajudar na sua ascensão social. 

Talvez por isso a Maçonaria possa lhe ter tido como uma referência para convocar à reflexão sobre a importância do Trabalho para a igualdade. 



Nenhum comentário:

Postar um comentário