dezembro 25, 2020

MEMORIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 6

 

Minha mãe Irena era filha de criação de uma família de fazendeiros da aristocracia húngara. Na terrível pobreza dos anos depois da Primeira Guerra Mundial, no destruído e desmembrado Império Austro Húngaro só havia dois tipos de cidadãos, aqueles que possuíam terras e os que trabalhavam na terra e lutavam arduamente para apenas sobreviver. Uma filha inesperada para quem já sustentava família era um ônus insuportável e a menina foi dada para o idoso casal fazendeiro criar. Era a alegria da casa e foi criada como uma princesinha, até a sombria época da Segunda Grande Guerra, quando os pais de criação faleceram, a fazenda foi tomada e a menina expulsa para se virar como pudesse. Ela tinha pouco mais de treze anos.

A saga dos anos passados dormindo aonde dava e comendo aquilo no que pudesse botar a mão são suficientes para outra história. Mas um dia, por uma destruída estação de estrada de ferro na Hungria passava uma tropa russa a caminho da Alemanha, e a garota, então com dezesseis para dezessete anos pediu comida a um garboso capitão. Ficaram juntos pelo resto da vida. Era 1944 e os soviéticos por um lado, a partir da Europa Oriental e os aliados por outro, a partir da França, avançavam fechando o inimigo como os braços de uma tesoura, rumo à Alemanha, que a esta altura já estava desarticulada, apenas recuando e se defendendo, mas ainda lhe restavam bons combatentes dando muito trabalho às tropas que avançavam. E já bem próximo da Alemanha, quase ao final do conflito, papai foi ferido por um estilhaço de granada na perna esquerda, que lhe deixou profundas cicatrizes. Ele foi tratado em um hospital em solo germânico, e minha mãe também foi internada no mesmo hospital para ser tratada por desnutrição.

Estando ambos recuperados tomaram consciência que a Alemanha não era um bom lugar para se viver, especialmente para um militar russo e judeu. Voltar para a URSS era uma opçáo ainda pior.

Paris era ainda a capital cultural do mundo. A ocupação da França produziu o roubo de milhares de obras de arte que desfalcaram os tesouros do país, mas a consciência dos comandantes da ocupação alemã preservou a cidade- ícone de destruição ou de bombardeios e a Cidade Luz rapidamente atraiu milhares de pessoas querendo refazer sua vida. Como já contei, papai foi trabalhar como auxiliar de cozinha em um restaurante russo e nunca mais esqueceu de como fazer deliciosos “borscht” a sopa de beterraba com creme de leite que é a marca registrada da culinária da Ucrânia e “pirozhki”, o bolinho assado de repolho, uma delícia, entre muitos outros pratos. Ele cozinhava muito bem,

Mamãe foi trabalhar em um “atelier” de costura e rapidamente retomou os modos e a elegância com que havia sido criada. E daí para a frente, pelo resto da vida, (e até hoje, aos 91 anos), ela não andava, mas desfilava, com luvas, chapéus e as roupas que ela mesmo fazia ou reformava. Na Sorocaba dos anos 60 e 70 era um espetáculo que os vizinhos e conhecidos gostavam de admirar, ver a Dona Irena, garbosa e linda como uma princesa, indo comprar pão na padaria.

A cidade de Sorocaba crescia de maneira acelerada. O censo de 1970 lista a cidade em 9º lugar no Estado de SP, com pouco mais de 175.000 habitantes. E os negócios de meu pai cresceram também. Ele alugou um sobrado do Eng. Wilson Kalil na Rua Dr. Braguinha, uma das principais artérias comerciais da cidade, onde montou a loja Modas Braguinha, e fomos morar no andar de cima do sobrado. Mas a despeito de possuir agora um comércio, do qual a minha mãe ficou encarregada, nunca deixou de trabalhar, agora com a Rural Willys lotada de mercadorias, vendendo de porta em porta. Dobrava o expediente quando voltava para a loja para lançar as vendas, fazer o caixa, preparar as comprar e separar as mercadorias que levaria no seguinte para a Rural. 

dezembro 24, 2020

MEM[ORIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 5

 Meu pai não gostava de falar sobre a sua família e muito menos ainda sobre os tempos da guerra. Ao longo de muitos anos fomos arrancando alguma informação, aqui e ali, sobre tais assuntos, especialmente a Alice, com quem ele gostava de conversar quando estava já nos seus últimos anos morando na casa de minha irmã.

Nós não podemos imaginar os horrores da guerra vendo os filmes de cinema e televisão. A dor, o sofrimento e a barbárie excedem a prodigiosa imaginação dos roteiristas. Papai esteve durante cerca de três anos na defesa de Leningrado ante a tentativa das tropas alemãs de destruição da cidade. Quase um milhão e meio de habitantes morreram durante o cerco, milhares deles de fome. Tornaram-se habituais casos de roubo de cartões de racionamento (a ração era 250 grs. de pão por dia) e até mesmo de canibalismo. Nenhum animal sobreviveu, cavalos, cães, gatos, pombos, todos viraram comida. O frio absurdo fazia com a cidade fosse sendo queimada casa por casa para aquecer os sobreviventes, fantasmas esfomeados que vagavam trôpegos, em andrajos, pelas ruas congeladas. E o exército alemão bombardeava continuamente sem alvo determinado, valia destruir qualquer coisa.

Um hospital que tinha dezenas de crianças feridas internadas, muitas em estado grave, foi bombardeado. As crianças sobreviventes encontravam-se em estado desesperador e não havia para aonde levá-las, não havia comida, não havia medicamentos, ninguém queria recebê-las em casa, a temperatura era de cerca de trinta graus negativos e não havia agasalhos. O General Georgy Zhukov, que comandava as tropas soviéticas, confrontado com o problema reuniu seus oficiais, expos o problema e pediu sugestões. A decisão foi matar as crianças para que tivessem uma morte menos dolorosa do que abandonadas ao relento, à fome, ao frio e à dor dos seus ferimentos. Oficiais cumpriram a ordem chorando. Papai se negou a isso, mas assistiu e nunca mais se esqueceu. Foi um fantasma que o acompanhou pelo resto da vida.

Ele não gostava de ver filmes de guerra na TV, dizia que era tudo fantasia. Mas lia os jornais diariamente, principalmente o Estadão e acompanhava os noticiários na TV. Sabia tudo o que acontecia no mundo. Era a época da guerra fria e ele dizia que os ocidentais não entendiam a dissimulada mentalidade soviética, de como eles inventavam mentiras nas quais eles próprios passavam a acreditar e na extrema agressividade e valentia de um povo que descendia dos vikings e se estabeleceu em uma das mais inóspitas regiões do mundo. O nome Rússia, vem do nome do chefe viking Rus, que saqueou Constantinopla no século IV e criou naquele remoto local o que viria a ser este país.

Ele adorava o Brasil e se revoltava quando um brasileiro falava mal do país. E com seu sotaque carregado dizia: - o senhorrrr sabe quando frrrango fica congelado no geladeirrra, como pedrrra. São quatrrrro graus menos. Lá no Russia é trrrrinta graus menos. Senhorrrr vai prá la verrrr se é melhorrr.

Da sua família eu soube apenas que teve irmãos e irmãs e uma pequena foto desbotada de uma gorda matrona que o acompanhou pela vida toda seria de sua mãe, minha avó, Ita ou Ida, eu nunca soube o certo. De quem teria sido meu avô eu nunca ouvi uma palavra sequer.

Como todos os militares era extremamente disciplinador e rigoroso com os filhos, mas sabia ser carinhoso e gentil do seu modo. Muitas vezes minha irmã e eu dormimos com ele coçando as nossas costas.