dezembro 27, 2020

MEMÓRIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 8


        Aos 53 anos, em 2003, compulsoriamente aposentado por um câncer renal, eu me tornei escritor. Escrevi 7 livros e o primeiro deles, O caminho da felicidade, terá publicada a sua décima edição ainda neste mês de janeiro. As preciosas lições recebidas na Folha Popular, no Cruzeiro do Sul e em outras publicações nas quais tive a honra de escrever, os ensinamentos de Zé Caetano Graziozi, Sergio (Pinga) Coelho de Oliveira, Geraldo Bonadio, Guyma, Irany Caovilla, Nello Gandara e outros tantos e o rigor do Prof. Benedito Cleto na escola me trouxeram uma preciosa lição, os textos têm vida própria e uma vez liberados percorrem novos e inesperados caminhos, alterando muitas vezes a intenção inicial do autor.         Foi o que aconteceu com estas memórias. A ideia era contar a em poucas linhas os fatos mais significativos da história de papai mas sem que eu percebesse acabou-se tornando um resumo de fatos da história de Sorocaba naqueles anos dourados das décadas de 60 e 70.
        Em 1900 um físico alemão chamado Max Plank descobriu que a energia carregada por um átomo não flui de modo regular como o escorrer da água de uma torneira, mas sim aos saltos, de maneira aleatória, como quando a gente enche a mão com castanhas de caju de um pote. Porque este tipo de contagem se chama ‘quantum’ em latim (raiz etimológica de quantidade), e o plural é ‘quanta’, ele deu à ciência que criou o nome de física quântica.
        Memórias são quânticas. Vem e vão como o estouro de fogos de artifício. Um lampejo aqui, outro ali e tentamos coordenar estas lembranças para formar uma história inteligível. Então outras famílias judias vão aparecer aqui na medida em que com a ajuda dos leitores e das lembranças eu possa completar as lembranças.
        Deixei para esta postagem a citação de mais algumas famílias judaicas de atuação expressiva na sociedade sorocabana. O Sr. Bernardo Goldman e seus filhos Adolfo, Walter, Júlio e Moisés que tinham uma loja de brinquedos na Rua XV de Novembro e uma grande vidraçaria na parte baixa da Rua Brigadeiro Tobias, mais ou menos onde funciona o Liceu Pedro II. Eles suportaram financeiramente a sinagoga por muitos anos. Nunca se negaram a ajudar os patrícios necessitados, inclusive o meu pai que conseguiu com eles os recursos para a compra da primeira casa na Rua Afonso Pena, bem pertinho da vidraçaria. Tinham uma valiosa propriedade, um quarteirão, no bairro mais nobre de Campo Grande no MS, e várias vezes eu hospedei Moises (Moishe) em casa quando morava naquela Capital enquanto ele negociava o seu terreno.
        A família Epelman, o bem-apessoado casal Moisés e Genny, e o irmão Idal, eram provavelmente a família judaica mais rica da cidade, proprietários do grande estabelecimento comercial Eletrônica Paulista que funcionou na Rua Monsenhor Soares e em diversos endereços. Moisés e Genny frequentavam a sociedade sorocabana, ele foi até diretor do Sorocaba Clube que era então o reduto da elite, da alta sociedade da cidade. Houve uma grande fofoca no fim dos anos 70 que envolveu o casal e que os sorocabanos mais velhos devem recordar. Hoje em dia o fato seria uma virgula, mas naqueles tempos foi um parágrafo inteiro. Preservo a descrição do acontecido em respeito à família. A empresa foi a falência e que acabou provocando a sua mudança para S. Paulo e depois para Israel. As últimas notícias que tenho de Idal, há mais de uma década, são de um comércio de automóveis na Rua Sete de Setembro.
        E o judeu mais famoso da história da cidade, Salomão Pavlowski, hoje nome de viaduto, proprietário da Radio Vanguarda e um dos repórteres mais célebres do Brasil será objeto de um próximo post.
        Minha irmã Genia ainda é uma mulher muito bonita, mas quando jovem era lindíssima e creio que fez balançar o coração de mais de um jovem sorocabano. E não é exagero meu, tenho certeza que muitos dos leitores irão confirmar essa opinião. Ela puxou a genética de minha mãe, que aos 91 anos ainda é uma linda senhora. Desde a sua chegada à Sorocaba meu pai, apesar das dificuldades iniciais nunca economizou em nossa educação. Comprava todos os livros que desejávamos, desde brochuras até coleções, o que nos tornou, a mim e a minha irmã, fanáticos bibliófilos, pagou todos os cursos que desejávamos fazer. Ambos estudamos piano com a Profa. Mirna, fizemos inglês no Centro Cultural e participamos de tudo quando é curso que a cidade oferecia. Genia fez ballet com a Profa. Janice. Retirei centenas de volumes para leitura do Gabinete de Leitura.
        Ficaram no passado as dificuldades do menino de sete anos que ao ser matriculado no Grupo Escolar Visconde de Porto Seguro mal falava português. Eu falava íidiche e hebraico, russo com papai, húngaro como mamãe, algumas palavras de árabe com os amiguinhos da rua em Israel, com o vocabulário de uma criança de seis anos é obvio, mas português, que língua difícil, meu Senhor. A ‘tia’ Cida, minha primeira professora, e que pena que não me lembro mais do nome dela, entendendo a dificuldade me dava uma atenção especial e me proporcionou a leitura de Monteiro Lobato para crianças. Foi o alicerce de minha educação.             Costumo dizer que a base de tudo que sei e aprendi a partir daí devo à obra desse genial brasileiro, tão pouco cultuado. Já tive a oportunidade de presentear dezenas de coleções da obra de Lobato para crianças e escolas, e outros milhares de livros em ações de Rotary, em respeito a Castro Alves que prega: Oh, bendito o que semeia livros à mão cheia e manda o povo pensar! O livro caindo n’alma, é germe - que faz a palma, é chuva - que faz o mar.

dezembro 26, 2020

MEMÓRIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 7


        O principal eixo do comércio de Sorocaba na época era a cruz formada pela Rua Barão do Rio Branco e Rua Dr. Braguinha. Numa esquina do cruzamento de ambas ficava a grande loja das Casas Pernambucas, cuja importância no comércio brasileiro era de tal monta que havia uma anedota dizendo que qualquer lugar só era realmente cidade se tivesse prefeitura, igreja, delegacia e uma filial das Pernambucas. Milhares de porteiras de fazendas em todo o país eram pintadas com o nome da loja e o digito verificador do CGC foi ampliado de três para quatro algarismos quando a empresa passou a ter mais de mil lojas.
        Os judeus de Sorocaba concentravam o seu comércio nestas ruas. No início da Barão o belo prédio dos Kaplan, da viúva Rosa Kaplan e seus filhos Marcos, o meu amigo mais antigo e Rubens, artista multitalentoso, falecido precocemente e se tornou um dos miniaturistas mais importantes do país. Eu ganhei uma miniatura dele mas nunca fui buscar e com o seu passamento ficou apenas na intenção. Passei muitas horas na minha infância no amplo apartamento que ficava sobre a loja. Ao lado a Loja Modas Rio Branco de Abrão e Bertha Ofenhejm e suas lindas filhas, Dora, que se tornou advogada e escritora de sucesso, Miriam, que estudou odontologia mas que fez carreira como muito bem-sucedida empresária e Sara, historiadora, de quem tenho poucas notícias.
        Um pouco abaixo do lado oposto, um prédio de três ou quatro andares de Salomão Zitron, um dos líderes da comunidade, cujo filho se tornou um renomado médico. Na Braguinha havia a loja de papai, a dos Mitelmão e seus filhos Sami e os gêmeos. Ao lado a loja do teatrólogo Werner Rothschild, que elevou o nível do teatro em Sorocaba. Pouco abaixo a Casa Couraça dos Kann e dos meninos Eliezer e Zevi. Próximo da ponte havia a loja dos Pinski, de Isaac e Jaime, que se tornou importante historiador e editor. Havia ainda o elegantíssimo médico Dr. Tabacow, que não frequentava a sinagoga, mas atendia a comunidade em domicílio. Havia ainda outras famílias como a do Dr. Saul Gun, cujo filho Luís Gustavo salvou a minha vida diagnosticando e operando um câncer no rim e algumas que vinham da cidade de Itu. As festas na sinagoga eram frequentes, alegres e cheias de comida deliciosa.
        Aos 70 anos minha memória já anda funcionando aos trancos, como um carro com motor cansado. Perdi muitos detalhes daqueles tempos e se algum leitor, meu contemporâneo, puder me auxiliar corrigindo minhas lembranças ou fornecendo maiores detalhes ficarei muito agradecido.
        Toda a vida da comunidade girava em torno da pequena e estreita sinagoga, que ficava em uma travessinha, Rua D. Pedro II, que sai defronte à antiga Prefeitura, atual Teatro Municipal, e termina na própria Dr. Braguinha. Hoje creio que ela não existe mais, mas apenas como curiosidade conto uma história que ouvi do próprio participante, Marcos Kaplan, que era há alguns anos o presidente da Sinagoga. O telhado desgastado pelo tempo do velho prédio havia caído, e o orçamento para a reparação ficava em trinta mil reais. Marcos tirou diversas fotos do estrago e foi procurar o bilionário mecenas Samuel Klein em S. Caetano do Sul, o dono das Casas Bahia. Apresentou-se, exibiu as fotos e pediu a ajuda possível. Klein disse à secretaria: - traga trinta mil em um envelope. Enquanto isso acontecia Marcos perguntou: - O senhor quer um recibo? A resposta foi: - Se eu precisar um recibo da sinagoga eu não dou dinheiro algum. Ao abrir o envelope ele continha trinta mil dólares. Marcos chamou a atenção para o engano, e a resposta foi: - Tudo certo. O senhor vai embora e arruma o prédio. Meu falecido cunhado Horácio Grobman me contou outras histórias sobre a generosidade de Samuel Klein.
        O comércio na cidade crescia de forma extraordinária e meu pai foi muito bem, o que lhe permitiu adquiriu um sobrado na Rua Humaitá, em região nobre da cidade, onde tivemos vizinhos ilustres como o Dr. Luís Garcia Duarte, medico renomado e governador do Rotary e seu filhos João Luís, que se tornaria médico também e Sandra, a menina mais bela da redondeza, que todos sonhávamos namorar. Éramos vizinhos também do Manoel Beldi Castanho, que se tornaria o dono do melhor SPA do Brasil, e os Cacace, Fábio, restaurador, artista plástico e músico, José Cláudio, Danilo e Regina que se tornaram meio que extensão de minha família. Bem próximo morava a família de Leila e Benedito Puglia Camargo, e seus filhos Lélia e Celso, uma das famílias que mais amei na vida. Como eu já disse acima, a memória de tantas outras pessoas tornou-se fugaz.        
        Papai comprou um Opala azul bebê novo em 1968, ano do seu lançamento. Era lindo e foi o carro no qual aprendi a dirigir à custa de derrubar o muro do vizinho da frente. Era o carro mais luxuoso da rua o que mostra a evolução do imigrante que 20 anos antes havia chegado com as mãos abanando e recomeçado a sua vida como camelô. (Na foto a casa da Rua Humaitá)