dezembro 29, 2020

MEMÓRIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 10


        O judeu mais famoso da cidade foi Salomão Pavlovsky, carioca de Inhaúma que adotou Sorocaba para viver e onde se consolidou como um dos mais expressivos comunicadores do rádio no Brasil, a ponto de ter um biografia publicada pelo jornalista sorocabano José Antônio Rosa, excelente livro aliás, sob o título “O livro de Salomão”.
        Papai era ucraniano de Shargorod, e criado pela tia, em Odessa, cidade eternizada no clássico do cinema “Encouraçado Potemkin” de Sergei Eisenstein, que conta o motim da tripulação do navio de guerra que antecipou a revolução bolchevique. O pai de Salomão, Moisés Pavlovsky era também ucraniano o que acabou gerando uma proximidade entre eles, além do fato que ambos eram comunicativos e simpáticos. Salomão ia frequentemente em casa para conversar e se desmanchava em rapapés com a minha mãe, com a proverbial gentileza europeia. D. Mary, sua esposa, era mais reservada, embora fosse tão inteligente quanto o marido e a autora do nome Vanguarda para a rádio que Salomão criaria em parceria com os irmãos Otto e Joubert Wey. Menino ainda participei de algumas destas conversas. Na época de nossa chegada à Sorocaba Salomão tinha, se não me engano, um serviço de alto-falantes que anunciava o comércio local. Mais tarde ele foi trabalhar na PRD-7, Rádio Clube de Sorocaba e no jornal Cruzeiro do Sul.
        Posteriormente fundou a Rádio Vanguarda AM, e naquela era de ouro do rádio brasileiro, com Vicente Leporace, Hélio Ribeiro e outros tantos, destacou-se como repórter entrevistando presidentes, primeiros ministros, a rainha da Inglaterra, astronautas e até Glenn Ford, que ele trouxe para tomar uma cachacinha em Sorocaba. Viajou por todo o mundo levando o seu gravador e trazendo entrevistas que marcaram a história do radio brasileiro. Sua amizade com o judeu Silvio Santos, (Senor Abravanel) lhe permitiu instalar em Sorocaba uma emissora de TV, propriedade da família até os dias de hoje. Salomão, que participou de vários juris dos programas de Silvio Santos chegou a insistir para que minha irmã se inscrevesse no concurso de Miss Brasil, proposta que ela nem levou em consideração, o que foi uma pena. A Vanguarda também foi a primeira emissora FM do Estado de São Paulo.
        Ele contava as suas aventuras nas conversas com papai, enquanto este também lembrava as aventuras vividas na Europa e em Israel. Para um menino como eu parecia que estavam contando histórias dos gibis que eu gostava de ler, pura fantasia. Mas era verdade.
        A região de Odessa que originalmente ficava na Trácia, parte importante do Império macedônio, depois romano, foi incorporada à Rússia no século 18 e se dizia que sua característica era ser “a mais europeia das cidades da Rússia”. Sua arquitetura era baseada nos modelos franceses e italianos e tinha a maior colônia judaica do país. Falava-se tanto russo quanto francês e a educação era baseada nos moldes europeus. Essas características passaram para os nascidos na cidade e seus descendentes, entre os quais Salomão e papai, que eram cultos, educados e cosmopolitas.
        Depois de estudar na OSE, no Estadão, no Liceu Pedro II, eu prestei vestibular para a Faculdade de Direito da Universidade Católica de Petrópolis, consegui um emprego na IBM do Rio de Janeiro e fui residir na Cidade Imperial. Minha irmã Genia foi cursar jornalismo em Campinas e ficou morando lá. Papai mudou-se para Itu onde construiu uma casa enorme, linda, num imenso terreno. A esta altura ele tinha representantes em diversos bairros de Sorocaba e da região vendendo as suas mercadorias e continuava distribuindo os cobertores que permitiram a sua afluência. Foi o fim da permanência de nossa família em Sorocaba, mas eu voltaria a morar na cidade anos depois.
        Creio que aqui acabam essas esparsas histórias de nossa vida em Sorocaba. Nas próximas postagens publicarei as minhas próprias lembranças de pessoas que passaram pela minha juventude e que deixaram marcas indeléveis em minha memória e no meu coração. Alguns ainda estão neste grupo entre nós. Outros não estão no grupo, o talento os levou para outros patamares como Paulo Betti e Eliane Giardini. Vários já descansam na eternidade como Rui Batista de Albuquerque Martins, José Caetano Graziozi, Celso Vitório de Toledo, Carlos Tadeu César Papst e muitos outros.

dezembro 28, 2020

MEMÓRIAS ESPARSAS DE SOROCABA - 9

 

Havia ainda outras famílias judias em Sorocaba. Os pais dos irmãos Epelman, Sr. Samuel e D. Fanny, que também tinham comércio na Rua Barão do Rio Branco, os Crochik, na mesma rua, o engenheiro têxtil da Companhia Nacional de Estamparia Isaac Lederman que construiu umas das casas mais bonitas da cidade em Santa Rosalia vendida depois ao industrial Alfredo Metidieri e talvez outros me fujam da memória. Com a ajuda dos leitores tentarei preencher estas lacunas. Existe um ditado iídiche que diz que onde há um judeu há uma forte opinião, onde há dois judeus há duas fortes opiniões opostas e onde há três judeus há confusão. Apesar da colônia ser pequena havia grupinhos e alguns deles não se falavam, a não ser nas festas da sinagoga quando eram obrigados a conviver. Papai circulava com desenvoltura por todos os grupos por várias razões. A primeira era o seu temperamento bonachão. Rigoroso e disciplinador em casa, quando na rua era simpático, alegre e festeiro. Muitos anos depois descobrimos que era bipolar, naquele tempo se chamava psicose maníaco-depressiva, o que criou problemas em sua velhice. O outro é o fato que era “russiche” e vou explicar no próximo parágrafo. E finalmente porque era ex-combatente, e isso gerava uma aura de profundo respeito por parte da colônia.

Existem dois principais grupos de judeus no mundo, os “ashkenazin”, que são os da Europa Oriental e da Ásia e os “sefaradim”, da Península Ibérica e do norte da África. O segundo grupo é que foi a principal vítima da Inquisição. O hebraico era uma língua litúrgica, somente utilizada nos ritos religiosas. Apenas depois da formação de Israel passou a ser um idioma comum. O primeiro grupo se comunicava em iídiche, o segundo em ladino. Embora sejam os mesmos livros sagrados existem pequenas diferenças nos rituais de ambos os grupos e até hoje eles têm sinagogas separadas. Dentro dos grupos existem subgrupos. Os “ashkenazin” têm os “russiche”, os “poiliche” e outros (da Rússia, da Polônia etc.). Por ser a Rússia o principal país da extinta URSS, os descendentes de russos mereciam uma avaliação especial, mais ou menos como os ridículos juízos de valor que nós mesmos fazemos entre os nordestinos e os cariocas.

Ouvi em alguma ocasião um dito atribuído ao General Douglas Mc Arthur de que o alimento da coragem é o medo e que por esta razão os soldados metidos naquele inferno da guerra dão mostras de coragem absurda. Não sei se o dito é mesmo dele e ignoro se o fato é verdade, mas certamente se aplica a papai cuja coragem era tamanha que se poderia confundir a valentia com temeridade. Não somente a coragem física, uma vez que soldados são treinados para isso, mas a audácia mental de quem joga para ganhar, sem receio de vir a perder. Um episódio ilustra isso.

Quando meu pai começou a circular em Parada do Alto, Barcelona, Votorantim, Piedade e outros locais vendendo suas roupas o clima em Sorocaba no inverno era muito rigoroso e os clientes passaram a encomendar cobertores. A medida que as encomendas aumentavam ele decidiu ir buscar os cobertores na fonte, em São José dos Campos, na Tecelagem Parahyba, que era a maior fábrica de cobertores do país e a responsável por um famoso jingle publicitário que até hoje todas as pessoas de minha idade sabem de cor. “Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar, um bom sono prá você e um alegre despertar”.

Ele foi de trem, era o famoso trem de prata que fazia a linha São Paulo-Rio de Janeiro. Chegou de manhãzinha em S.J. dos Campos e apresentou-se à portaria da enorme fábrica, com seu terrível sotaque, querendo falar com o dono. Claro que não foi recebido. Sentou-se então, contava, na calçada em frente, pensando que em algum momento o dono deveria passar por ali. Papai era simpático e comunicativo e alguém da recepção levou a informação daquele estrangeiro com sotaque esquisito e do que ele estava fazendo e por incrível que pareça, um dos donos, Severo Gomes, que viria a ser um político famoso anos depois, foi até lá para ver a história. Não imagino como foi a conversa, mas conhecendo meu pai ele deve ter dito ao industrial que tinha força para trabalhar e juízo para não fazer besteira. Eram outros tempos. Sem ter que provar nada ele ganhou uma linha de crédito da fábrica e se tornou um dos maiores revendedores de cobertores da região, que ajudou bastante a formar o seu fundo de comércio e o progresso financeiro decorrente disso. Anos depois, ao ver o então ministro Severo Gomes na TV, comentava – foi este o homem que me ajudou sem me conhecer.

Como ele já não está mais entre nós e de qualquer forma a esta altura já não importa mais, há que destacar o assédio que meu pai sofria de suas clientes, encantadas com aquele europeu bonito, de bons modos, gentil e sempre disposto a galanteios. Eu sei que ele fez grande sucesso entre as mulheres, mas sempre foi provedor e respeitoso em casa e meus pais acabaram por ter mais dois filhos, Arkádio César, 15 anos mais jovem do que eu, e Raquel, 18 anos mais jovem, o que faz supor que papai sempre esteve em boa forma.

Sentindo o crescimento e o progresso da cidade e do estado de São Paulo de maneira geral, ele passou a investir em imóveis. Comprou dois apartamentos que mandou emendar em um só em frente ao Parque Trianon, na Alameda Casa Branca, uma travessa da Avenida Paulista, comprou um apartamento de frente para o mar em Santos, no Embaré, onde eu, garoto, tive a oportunidade de brincar uma bolinha na praia com os jogadores do ataque do Santos, Dorval, Coutinho, Mengalvio, Pelé e Pepe. Naquele tempo os jogadores de futebol não usavam brinco e nem tatuagens, não tinham “frescuras” e ficavam na praia batendo bola como qualquer mortal. Comprou ainda uma casa bem maior em uma esquina da Rua Gustavo Teixeira, em frente ao Colégio Salesiano para onde a família se mudou. Foi a nossa última residência em Sorocaba. Papai havia adquirido um enorme terreno em Itu, em uma área elevada atrás da rodoviária daquela cidade e lá construiu a mansão com que sempre sonhou. Meus irmãos Arkádio e Raquel foram criados em Itu. Ele foi estudar e morar na África do Sul, passou cinco anos no Egito e é um diretor de arte publicitário com dezenas de prêmios. Rachel mora em Israel