fevereiro 10, 2021

SEMENTES DE CABALA: Luz e Trevas


        
A fala é a ferramenta mais eficaz  para curar os males psicológicos de alguém. Mas há situações nas quais o silêncio é mais conveniente. A fala traz sentimentos e emoções, que de outra forma permaneceriam enterrados no subconsciente, à luz da mente consciente. Entretanto, não é fácil fazer o subconsciente falar, e um cuidado especial deve ser tomado ao persuadi-lo a revelar seus segredos. Caso contrário, os efeitos de fazê-lo podem ser prejudiciais ao invés de salutares.

         No simbolismo da Torá, a mente subconsciente é considerada trevas - e a mente consciente, luz. Dessa maneira, aprendemos que no início, a terra não estava formada, havia um vácuo, e escuridão estava sobre a face do abismo. O espírito de D'us pairou sobre as águas. "E D'us disse: Que haja luz! E houve a luz" (Bereshit 1:2-3). A terra simboliza a alma do homem ao descer para penetrar e dar vida ao corpo. (Em sua forma incorpórea, pura, é simbolizada pelo céu.) As três descrições da terra primordial, amorfa, vazia e escura simbolizam os três componentes da mente subconsciente: fé, deleite e vontade.
 
        O espírito de D'us pairando sobre as águas simboliza o nível intermediário de consciência entre a mente subconsciente e consciente (no jargão da psicologia, a pré-consciência), que paira entre a obscuridade do subconsciente e a revelação da mente consciente. A revelação dos segredos da mente subconsciente são revelados pela fala "E D'us disse: Que haja luz." 

        O propósito do serviço Divino em terapia geral, e psicológica em particular, é possibilitar que a luz da consciência brilhe mais e mais sobre as trevas do Subconsciente. E quanto mais os segredos ocultos das regiões escuras da mente forem trazidos à luz, mais poderão ser elevados à esfera da santidade.     

          Quanto maior o sucesso que a pessoa tiver em expor e retificar seu lado mais tenebroso, menos será incomodada por pensamentos evasivos e ânsias que emergem involuntariamente. Esse estado de liberdade do eu não retificado e inferior é o verdadeiro bem-estar espiritual buscado pelas técnicas terapêuticas prescritas pelo pensamento chassídico. Libertado pelo mal, o bem criativo no homem pode brilhar e imprimir sua expressão singular de Divindade sobre a realidade, com perfeita eficácia. 

       No simbolismo da Torá, as ânsias primitivas da mente subconsciente que temporariamente atrasam a psique são simbolizados pelas sete nações pagãs canaanitas que ocupavam a terra de Israel antes que o povo hebreu lá chegasse. A nação hebraica recebe ordens de desenraizar estas nações e suas culturas idólatras da Terra Santa; isso simboliza a erradicação do mal da psique através dos meios terapêuticos.

      No conflito entre luz e trevas, a luz, por sua própria natureza, sai vencedora.Um pouco de luz dispersa muito da escuridão. Uma grande quantidade de luz consegue muito mais; dispersa completamente as trevas e toma seu lugar, como o sucessor de direito na mente da pessoa. A dualidade da luz e das trevas na psique do homem é mencionada na visão profética da carruagem Divina, como foi testemunhada pelo profeta Ezequiel. Esta visão, que compreende o primeiro capítulo do livro escrito pelo profeta, é considerada a passagem maisobscura e mística da Torá. Nele, Ezequiel (1:4) descreve como os céus se abriram, e "tive visões de D'us." E eu vi, e veja, um vento tempestuoso veio do norte, uma grande nuvem, e um fogo chamejante, e um brilho ao seu redor, e do meio disso, fora do meio do fogo, havia algo como o "chashmal." 

     A palavra chashmal aparece na Torá apenas no contexto desta visão e é tradicionalmente entendida como um tipo de luz ou energia, que é também personificada como um tipo especial de anjo. A palavra é tomada como sendo uma composição das palavras para silente (chash) e falar (mal); estes anjos, portanto,são descritos como silentes, falando às vezes. Dessa maneira, esta interação dinâmica entre silêncio e fala é parte integral do processo da revelação Divina, e o correto uso da fala é essencial para a cura das partes enfermas da alma.

 Fonte: Academia de Cabala

fevereiro 09, 2021

O Triunfo dos Relógios - uma história do tempo contado

 

O triunfo do tempo

A partir do século XIV a Igreja deixou de controlar o tempo de seus campanários. A incipiente sociedade industrial necessitava de novas pautas horárias não associadas ao Sol.

A Igreja e a Burguesia Mercantil

Os céus da Europa todavia são testemunhos daquela guerra. A força com que a igreja rivalizava com a sociedade. Hoje já quase ninguém levanta a cabeça para ver as horas. Os relógios de pulso ou os celulares tiram essas dúvidas. Porém, durante a Idade Média os relógios das torres eram as únicas referências temporais das pessoas. A partir do século XIV a burguesia mercantil, motor da atividade econômica do momento, propôs tirar da Igreja o monopólio do tempo. A nova realidade laboral exigia um método mais rigoroso das horas.

As divisões do tempo para a Igreja, as vigílias

A Igreja havia herdado parte do sistema horário do mundo romano, onde as doze horas que marcavam os relógios solares dividiam-se em quatro partes iguais. A “prima” era a primeira hora desde o amanhecer (que, dependendo da estação, poderia ocorrer as 4:30 ou as 7:30) até a terceira, ao meio da manhã; a “tertia”, até o meio-dia; a “sexta”, até o meio da tarde (coincidia com a hora mais quente, onde se aproveitava para fazer a “siesta”); e a “nona”, até o pôr do Sol (em inglês, a palavra “afternoon remete a uma antiga faixa horária). As doze horas da noite também eram divididas em quatro períodos conhecidos como “vigiliae”, igualmente variáveis em função da estação. Recebiam os nomes de “prima vigilia”, “secunda vigilia, “tertia vigilia” e “quarta vigilia”.

Horas canônicas ou Instantes de Deus

Os monges da Idade Média adaptaram esta divisão de tempo em suas ocupações espirituais. O resultado foram as sete horas canônicas destinadas a oração, e conhecidas por eles como “instantes de D’us”. Eram as “matines”, pouco depois da meia-noite; as “laudes”, na aurora, momento em que se rezava um salmo que continha de maneira constante o imperativo “laudate” (load), de onde vem o nome; a “prima”, a “tertia”, a “sexta” e a “nona”, de tradição romana; e as vésperas, ao meio da tarde, depois do pôr do Sol. O italiano São Bento (480-547), fundador da vida monástica no Ocidente, foi o promotor desta divisão. Baseou-se no Salmo V do Antigo Testamento, que diz: “Ore sete vezes ao dia”. Com o tempo, surgiria uma oitava hora, para dar graças a Deus antes de ir para a cama.

Relógios primitivos: solar, vela, clepsidra e areia.

Relógio a vela

Em noites e dias nublados, quando o relógio solar não tinha nenhuma utilidade, recorria-se a diversos sistemas para calcular as horas canônicas. No relógio de vela o tempo era marcado pelo consumo de uma delas. Também poderia ser utilizada a clepsidra (ladrão de água, em grego). Este relógio, conhecido também dos egípcios, era formado por dois recipientes: um deles tinha água que caía de um orifício a outro. O nível da água que escorria indicava as horas, o qual trazia um problema. A velocidade do fluxo dependia da pressão da água, e esta pressão variava em função da quantidade de líquido que estava no recipiente. Igualmente impreciso era o relógio de areia, um recipiente de vidro formado por duas ampolas unidas a dois vértices. Através dessa parte central passava certa quantidade de areia de um a outro bulbo. Uma vez acabado a passagem, era necessário virar o recipiente para continuar a contagem do tempo.

São Bento: “O ócio é inimigo da alma” – Surgia o Negócio.

Na medida em que a Igreja foi se consolidando como a instituição mais poderosa da Europa medieval, o controle do tempo ficou sob seu domínio. Tinha-se muito presente a máxima de São Bento: “O ócio é o inimigo da alma”. Os trabalhos dos monges serviam para anunciar as horas canônicas, e também para marcar as rotinas diárias das pessoas. A partir do século XIII, com a aparição dos relógios mecânicos, a Igreja assegurou-se de que a população pudesse cumprir de uma maneira mais estrita seus deveres com Deus. Difundia-se assim a regra beneditina “ora et labora” (reze e trabalhe).

Primeiro relógio mecânico

Abadia de DunstableO primeiro relógio mecânico conhecido foi instalado em 1283 na abadia de Dunstable, na cidade inglesa de Bedfordshire. Constava de duas rodas dentadas que se enroscavam uma com a outra graças a um mecanismo chamado “escape”, impulsionado por um peso. O movimento constante do “escape” é a fonte do famoso “tic-tac”, que converteu-se desde então na voz do tempo. Estes primeiros relógios, instalados em torres, não mostravam as horas, só soavam.

Relógio com ponteiro e astronômico

Relógio AstronômicoNo século XIV, a hora começou a ser visualizada graças a introdução de uma agulha no centro de uma esfera numerada. Seu inventor, o astrônomo italiano Jacopo Dondi, popularizaria este sistema ao fabricar em 1344, em Pádua, o primeiro relógio astronômico, que além de marcar as horas, ainda marcava os movimentos do Sol, da Lua e dos planetas. De todo modo, os primeiros relógios mecânicos eram caros e imprecisos. A temperatura afetava na dilatação de suas peças metálicas, fazendo-lhe sofrer variações entre 15 e 30 minutos por dia, sendo necessário regulá-los diariamente. E, os relógios solares continuaram desempenhando um papel notável.

O relógio regendo o trabalho dos agricultores

Na Espanha, o primeiro relógio mecânico foi o da catedral de Barcelona. Conhecido como “el seny de les hores” (em catalão antigo “seny” significava tanto “torre” como “sinal”), data de 1393. Com a propagação deste tipo de relógio, pouco a pouco a vida cotidiana das cidades do Ocidente foi sendo modificada. A jornada laboral de um agricultor sempre variava muito ao longo do ano, já que estava sujeita a luz solar, que dependia da estação. Em geral, trabalhava de sol a sol. Os campanários das igrejas tinham certos estandartes horários, mas não eram muito regulares: os toques da “prima” e “vésperas” coincidiam com o amanhecer e o crepúsculo, e a partir destes estabeleciam-se outros toques, com os quais só no equinócio obtinha-se períodos homogêneos. Além disso, os toques dos sinos podiam variar de uma igreja a outra, o qual causava uma grande confusão.

O relógio e a sociedade industrial

Com a incipiente sociedade industrial da Baixa Idade Média (séculos XI-XV), as oito horas canônicas perderam sentido. O trabalho já não podia ser regulado pelo tempo das Igrejas, mas por horas concretas. Não em vão, descobriu-se que o tempo de produção de um produto poderia ser adicionado a seu preço, assim como também o pagamento dos trabalhadores. Iniciou-se então uma guerra não declarada entre a Igreja e a burguesia por seu controle. Uma data chave nesta disputa foi o dia 24 de abril de 1355. Nesse dia, o rei francês Felipe VI concedeu a Amiens a faculdade de indicar, através do toque de um sino, as diferentes ocupações do dia: o momento de ir trabalhar, do descanso para comer, do retorno aos trabalhos e de sua finalização. Dado que estes primeiros relógios davam as horas através do som de um sino, não é estranho que a palavra francesa “cloche” (torre) seja a raiz da palavra relógio em inglês (clock) e alemão (Glocke). O nosso, deriva do grego “horologion” (indicador de horas, “horologium” em latim), o relógio solar. A variedade cuja sombra, projetada sobre uma escala gradual, indica a hora denominada “gnomon”. Dela procede a palavra gnomônica, disciplina relacionada com a elaboração de relógios solares.

Carpe Diem

Os avanços tecnológicos não tardaram em catapultar o ofício de relojoeiro. Seus serviços eram muito procurados. Não paravam de viajar de cidade em cidade construindo grandes relógios mecânicos que instalavam nas torres dos edifícios civis. Todos os grêmios tinham claro os toques que marcavam sua jornada de trabalho. Assim, pouco a pouco, o tempo não só tornou-se independente do Sol, como também secularizou-se, ou seja, separou-se da Igreja. Foram muitos os pensadores do momento interessados na construção de relógios. Com o homem como centro do universo no lugar de Deus, tratava-se de um instrumento muito em sintonia com a máxima latina “carpe diem” (aproveite o dia), que viveu um momento de glória no Renascimento. Desta época, um dos relógios laicos mais famosos é o astronômico de Praga, criado no século XV.

Relógios portáteis

A partir desse século, os relógios perderam peso e surgiram os primeiros dispositivos portáteis. Não existia mais só aquele ponto fixo para ver as horas. Para este avanço, foi necessário substituir o pendulo por uma mola, muito mais rápida. Os progressos tecnológicos levaram em 1509 Peter Henlein, um alemão de Nuremberg, a fabricar os primeiros relógios de bolso que se tem notícia, apelidados de “ovos de Nuremberg” por seu formato. Funcionavam somente por 40 minutos, alguns deles foram autênticas obras de arte. Os relógios, acabaram sendo objetos de luxo, assim com o tempo só as classes privilegiadas os possuíam. Enquanto isso, as outras pessoas dependiam do quadrado das fachadas onde era projetada as sombras dos relógios solares (que por isso são conhecidos também como quadrantes solares). Haviam sido aperfeiçoados graças as contribuições dos astrônomos e matemáticos árabes.

O relógio de pêndulo

Christiaan HuygensNo século XVII foi dado um grande passo na contagem de tempo. O matemático e físico holandês Christiaan Huygens construiu em 1657 o primeiro relógio de pêndulo. Este invento, muito mais preciso que os anteriores, foi possível graças aos princípios de movimentos oscilatórios estudados anos antes pelo astrônomo Galileu Galilei. Huygens dividiu a hora em 60 minutos e estes em 60 segundos. Recuperava com isso o sistema de numeração sexagesimal dos antigos sumérios fazendo derivar para o duodecimal. Cada vez que o homem contava com o polegar da mão esquerda a dezena de falanges dos dedos restantes (de onde procede a divisão do dia e da noite em doze horas respectivas), levantava um dedo da mão direita, o que só era possível cinco vezes. Assim, a contagem total era de 12×5=60. Enquanto a palavra minuto, era uma simplificação da expressão latina “pars minuta prima” (primeira parte pequena), enquanto que segundo derivava de “partes minutae secundae” (pequenas segundas partes).

O relógio cuco

Primeiro cucoA criação do pêndulo aumentou a demanda de relógios, e ainda por cima também deu lugar a sua integração nos móveis das casas. Isto começou a partir do século XVIII com os relógios de cuco. Desenvolvidos pelos carpinteiros da Floresta Negra alemã, estes relógios com pêndulos tinham como peculiaridade um pássaro automático que a cada meia hora aparecia pela abertura emitindo um “cuco” pelo quais ficaram conhecidos.

O despertador

Em meados do século na Inglaterra, com a Revolução Industrial, culminaria o processo de apropriação do tempo que havia sido iniciado pela burguesia na Baixa Idade Média. O proletariado, que trabalhava tanto em turnos diurnos como noturnos, estaria dependente dos minutos e segundos marcados pelos relógios que pendiam das paredes das fábricas. Então generalizou-se os despertadores domésticos, que asseguravam a chegada pontual aos postos de trabalho. Da ótica capitalista, as horas eram fonte de benefícios. Não havia, pois, tempo a perder. De fato, algumas expressões ficaram famosas como “o tempo vale ouro”, atribuída ao escritor britânico Edward Bulwer-Lytton.

O relógio de pulso

Os relógios de pulso mecânicos apareceram no final do século XIX, mas inicialmente tiveram menos êxito que os de bolso, pois os homens achavam similares as joias que as damas utilizavam. Popularizou-se somente após a Primeira Guerra Mundial. No conflito, os atiradores optaram por enrolar os relógios de bolso nos braços, para ter as mãos livres durante as operações. Depois da guerra continuou os avanços tecnológicos através da invenção de sistemas cada vez mais precisos.

O relógio a quartzo

Desde o final do século XIX descobriu se que o quartzo tinha propriedades piezoelétricas. Em 1920 foi utilizado pela primeira vez em um relógio, mas só ficaria popular após os anos 1960. Graças a eletricidade proporcionada por uma pilha, um cristal deste mineral gera vibrações em intervalos regulares que permitem uma medição altamente precisa do tempo.

O relógio atômico

Relógio atômicoNo final dos anos quarenta chegamos a exatidão horária com a aparição dos primeiros relógios atômicos, baseados na vibração dos átomos de determinados elementos como o Césio, o Hidrogênio ou o Estrôncio. Os sinais acústicos das transmissões radiofônicas são coordenados através deste tipo de relógio, até agora os mais precisos. Atrasam um segundo a cada 20 milhões de anos. O progresso, nos levou a busca do segundo exato. Após uma longa jornada através das horas ditadas pelos “relógios de Deus”. Agora, somos escravos da sofisticação horária.

Imitamos muitas vezes o coelho branco de “Alice no País das Maravilhas”, o personagem de Lewis Carroll que olha sem parar seu relógio, atormentado pela falta de tempo. Isto já foi objeto de reflexão para incontáveis filósofos. Kant dizia que “o tempo não é mais que um meio que utilizam nossas mentes para organizar as experiências que vivemos”. Para Einstein, “o tempo é o que você vê no relógio“. Contava o sociólogo e antropólogo francês Pierre Bourdieu que, nos anos cinquenta, os camponeses berberes da região argelina de Cabília chamavam o relógio de “moinho do demônio”. Naquela região, falar a hora exata é inclusive falta de educação.

BIBLIOGRAFIA

DOHRN-VAN ROSSUM, Gerhard. History of the Hour: Clocks and Modern Temporal Orders. Chicago (EUA): Univ. of Chicago Press, 1996.
GIMPEL, Jean. La revolución industrial em la Edad Media. Madri: Taurus, 1982.
LANDES, David S. Revolución em el tempo. Barcelona: Crítica, 2007.

Deivid Miranda, Historiador