junho 27, 2021

A GENTE VAI EMBORA...- Heitor Rodrigues Freire





Heitor Rodrigues Freire é ensaísta, advogado, corretor de imóveis, past GM da GLEMS e atual presidente da Santa Casa de Campo Grande. Colabora frequentemente com este blog.

Nestes momentos, todos estamos sendo confrontados com a realidade da morte, da transição, da mudança de estado da materialidade para a espiritualidade. O que nos causa, naturalmente, grande desconforto e sofrimento pelo desconhecimento de sua aceitação. Mas a morte é um fato. Inexorável! 

Quantos amigos e parentes que não víamos há muito tempo estão partindo. E isso nos provoca a saudade da ausência e também, de certa forma, nos cobra a consciência da distância em que vivíamos. Quantas vezes dissemos “Puxa, faz tanto tempo que não vejo o Fulano e agora ele se foi. Nunca mais vou vê-lo”. Mas no fundo, sabemos que não é assim. 

Pois é. Ele se foi. E nós também iremos. A separação entre os que se amam nunca acontece. A vida no plano físico é apenas um dos muitos estágios que o espírito vive em sua caminhada para Deus.

“Não somos humanos passando por uma experiência espiritual. Somos espíritos passando por uma experiência humana.”

Na realidade, todos continuamos a existir. Em outra dimensão. Ou como dizia Santo Agostinho, em seu poema A morte não é nada:

“A morte não é nada. 

Eu somente passei 

para o outro lado do Caminho.

...

Eu não estou longe,

apenas estou

do outro lado do Caminho.

Você que aí ficou, siga em frente, 

a vida continua, linda e bela

como sempre foi”. 

Circula pela internet um vídeo apresentado por Celso Portiolli, com sua bela voz de barítono, com o título deste artigo, demonstrando de forma muito clara o que vai acontecer com cada um de nós. 

Toda importância que nos damos vai embora. A vida continua sem a nossa presença, e se vai num estalo, pois seremos substituídos rapidamente. Todos estamos na fila. Mais cedo ou mais tarde, “A gente vai embora...”

Então a questão que se apresenta é a oportunidade representada pelo momento presente, no aqui e agora. Não dá mais para deixar para depois. O perdão que devemos pedir, o perdão que devemos dar, o abraço e o sorriso que ficaram pelo caminho.

O  livro Vigiai e Orai, do Irmão José, psicografado por Carlos A. Bacelli, também trata desse assunto:

“Ecoará para sempre

Terás uma vida brilhante, mas passarás – passarás como aqueles que viveram na obscuridade.

Como tantos outros, serás esquecido pelo que foste e o teu nome será apenas um a mais na galeria dos que nada fizeram que os imortalizasse no mundo.

Sim, porquanto após a morte do corpo, os homens continuam a viver na Terra somente através daquilo que concretizaram no bem dos semelhantes.

O que fizeres de bom ecoará para sempre.

Mesmo que te desconheçam, as futuras gerações te abençoarão o esforço.

E, onde estiveres, experimentarás indefinível sensação de paz, oriunda do dever cumprido no anonimato.

As tuas boas obras hão de sobreviver contigo, nas vibrações de simpatia e de fraternidade que espalharão, eternidade afora, o sinal de tua passagem pela Terra”.

Assim, da aceitação e do entendimento dessa condição verdadeira da morte, que não é definitiva, alcançaremos a paz que decorre disso e teremos uma visão verdadeira da realidade e da dimensão da eternidade. Depende de cada um buscar essa condição que concorrerá para a nossa libertação. 

Aprendi que a encarnação é uma oportunidade. Quem puder, que aproveite. Muitos dizem, depois de alguns anos, que estão realizados, que fizeram tudo, etc. etc. No meu entendimento essa é uma visão equivocada. Temos, na realidade, muito a aprender sempre. E a disposição e vontade, aliada à consciência, fazem a diferença.

“Se compreendes, as coisas são como são; se não compreendes, as coisas são como são”.


JOÂO GUIMARÃES ROSA - A VOZ UNIVERSALIZANTE DO SERTÃO - Adriana de Paula










 João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908. 

Quando menino, ouvia os muitos “causos” contados por vaqueiros que passavam pelo armazém de seu pai e que, certamente, lhe serviram de inspiração para a composição de sua obra. Aos 10 anos, mudou-se para Belo Horizonte para estudar, formando-se médico, em 1930, na Universidade de Minas Gerais. Poliglota, falava alemão, francês, inglês, espanhol, italiano e russo, além de ler em sueco, holandês, latim e grego.

 Após um concurso para o Itamaraty, tornou-se cônsul e viajou pelo mundo exercendo essa profissão. Durante a Segunda Guerra Mundial, juntamente com sua segunda esposa, D. Aracy, protegeu e facilitou a fuga de diversos judeus perseguidos pelo nazismo.

 Publicou seus primeiros contos em 1929, para um concurso literário da revista “O Cruzeiro”, mas foi em 1946, com a publicação de “Sagarana”, que alcançou o sucesso literário. Publicando, em seguida, obras como: “Corpo de baile”, “Grande sertão: veredas”, “Primeiras estórias” e “Tutameia”, as quais o consagraram como um dos grandes nomes da literatura brasileira. Em sua obra, Guimarães Rosa deu uma perspectiva universal ao sertão, refletindo sobre questões que vão além de uma fronteira regional e recriando a língua portuguesa, através de muitos neologismos e de uma linguagem fortemente poética. Para ele, “o sertão é o mundo”, desse modo, sua obra pode ser um caminho fecundo para compreender esse mundo, através das histórias dos homens simples que compõem os caminhos por que passam seus personagens.

 Ele morreu aos 59 anos de idade, em 19 de novembro de 1967, vítima de um infarto fulminante. Sua morte aconteceu três dias depois de ter tomado posse da Cadeira 2 da Academia Brasileira de Letras, quatro anos após ter sido nomeado. Segundo ele, a demora para assumir a vaga, devia-se justamente ao medo de morrer diante de uma emoção tão forte. Mas, como o próprio autor afirma em seu discurso de posse, “As pessoas não morrem, ficam encantadas… a gente morre é para provar que viveu.”, sendo assim, embora tenha partido fisicamente, Guimarães Rosa continua vivo através da grandiosidade da obra que deixou e da vida plena que teve ao longo de seus 59 anos.

 É difícil definir quem foi Guimarães Rosa e qual o legado de sua obra, tamanha a complexidade de tudo que viveu e dos textos que construiu. Em um poema em sua homenagem, Carlos Drummond de Andrade questiona: “João era tudo?/ tudo escondido, florindo/ como flor é flor, mesmo não semeada?”. Como médico, segundo sua filha Vilma, ele era extremamente emotivo e humano, escolhendo trabalhar no interior de Minas Gerais justamente em uma cidade que não tinha médicos. Como diplomata, era meticuloso e dedicado, além de muito solidário. 

 Mas, foi com a literatura que o escritor mineiro deixou seu nome registrado na história. Através de sua obra, ele produziu uma interpretação original do Brasil, inventando uma linguagem que fazia a ponte entre a tradição letrada e a tradição popular do sertão brasileiro, que, segundo ele, “era o mundo”.

 Retratando um país marcado por “mil-e-tantas-misérias”, conforme suas palavras, Guimarães Rosa mostrou a beleza do sertão, seu misticismo, seus muitos homens e mulheres com histórias de miséria, mas também de muita luta. Mesclando prosa e poesia, ele leva seus leitores a atravessarem com ele esse sertão que rompe com fronteiras geográficas e caminha pelo mundo, alcançando a “terceira margem do rio”, embarcando com Riobaldo em sua busca pela decifração “das coisas que são importantes”, descobrindo com Miguilim o que é enxergar de verdade depois de passar a vida vivendo com miopia, acompanhando com Augusto Matraga o processo de transformação de um homem e seu caminho em busca da redenção, enfim, com cada personagem de Guimarães Rosa percebemos que a vida é marcada por desafios, decifrações, desejos, acasos, razão, encantamentos e que, como ele dizia, “o correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.