agosto 06, 2021

GRÃO-MESTRE e PRONOMES DE TRATAMENTO - Newton Agrella



Newton Agrella é escritor, tradutor e palestrante. Um dos mais destacados intelectuais maçônicos do pais.

A liturgia e o tom solene são características marcantes da Sublime Ordem, que se refletem  na sua própria configuração linguística e vocabular.

As Formas de Tratamento ou pronomes de tratamento de que a Maçonaria se vale para se referir ou se dirigir especificamente a um "Grão-Mestre" estão ligadas à linguagem da Corte e da Nobreza européia em sí.

Não cabe contudo, determinar o que é certo ou errado, posto que as diferenças são atribuídas às próprias  influências históricas e culturais e de que forma a Maçonaria adotou-as.

Especialmente em nosso país, o Grande Oriente do Brasil e a maioria dos Grandes Orientes Independentes adotaram o termo "Soberano". 

Por outro lado, as Grandes Lojas brasileiras optaram pelo pronome de tratamento "Sereníssimo".

Não havendo portanto um consenso nesse sentido.

Historicamente, o termo advindo da Maçonaria Inglesa é "Most Worshipful"  (Mui Venerável) que para a língua portuguesa assumiu a tradução e versão de "SOBERANO".

O verbo "to worship" significa, venerar, adorar, cultuar, admirar...

Outrossim, SERENÍSSIMO, de acordo com registros históricos, foi o termo utilizado  na França em 1743.

Louis de Bourbon, Conde de Clermont, havia sido eleito primeiro Grão-Mestre da Grande Loja da França. 

Por tratar-se de um príncipe de sangue real, ele tinha o direto de receber o tratamento de "SERENÍSSIMO".  

Fato é, que por uma questão de circunstâncias e especialmente em face do carisma e preciosismo que ambos pronomes representam, bem como em razão da importância de que o cargo se reveste, os dois termos acabaram sendo adotados pelas Obediências brasileiras, ao critério de cada uma.

Cabe ainda destacar que de acordo com alguns historiadores maçons brasileiros, o pronome de tratamento originalmente utilizado pelo Grande Oriente do Brasil ao referir-se ao Grão-Mestre era "SAPIENTÍSSIMO", que acabou caindo em desuso.

Sob o ponto de vista semântico,  "sereníssimo", como superlativo do adjetivo sereno, remete à ideia daquele que possui serenidade de espírito, calma e tranquilidade, ou seja; atributos importantes a um Grão-Mestre.

O Grande Oriente de São Paulo, após sua desfederalização do Grande Oriente do Brasil em 15 de Setembro de 2018, acabou adotando, em razão das circunstâncias históricas, o termo SERENÍSSIMO para se referir ao seu Grão-Mestre.

Ao final das contas, tratam-se de dois títulos de distinção que concomitantemente traduzem o respeito que os maçons prestam a autoridade maior da Obediência a que fizeram seu juramento ou compromisso.


Referências:

Castellani - Fragmentos da Pedra Bruta

Cumming I. - Freemasonry and Education 

Dicionário Oxford

agosto 05, 2021

DEÍSMO, TEÍSMO E ATEÍSMO - Rui Bandeira







Em peças anteriores, procurei chegar às definições de deísmo e teísmo, resultando, por contraste, também a de ateísmo. Hoje, pretendo relacionar estes conceitos.

Recordemos primeiro as definições que se utilizarão, para que se saiba sempre do que se está a falar:

Deísmo – posição filosófica que pretende enfrentar a questão da existência de Deus, através da razão, em lugar dos elementos comuns das religiões teístas tais como a “revelação divina”, os dogmas e a tradição.

Teísmo – posição que resulta da crença na existência de Deus através da fé, designadamente por via da crença na Revelação em textos sagrados e ou nas profecias de portadores de mensagens tidas como oriundas da Divindade.

Ateísmo – posição que postula a inexistência de Deus.

Em termos de oposição polarizada, ateísmo opõe-se a teísmo e deísmo. Quem postula a inexistência de Deus insanavelmente se opõe a quem postula a sua existência, seja pela fé, seja pela razão.

Entre teísmo e deísmo não existe uma relação de género – espécie, segundo o qual aquele contém este e este é uma das modalidades daquele.

Partilhando um elemento fundamental – a crença em Deus – teísmo e deísmo não são opostos entre si. Também não se relacionam em termos de um conter o outro. São, no entanto, conceitos manifestamente diferentes. Como se relacionam então entre si? E algumas destas posições partilha algo com o ateísmo? O quê?

Na minha opinião, existe uma relação de derivação, de acrescento, de evolução. A questão coloca-se entre crença (fé) e razão. Entre acreditar para além de ou sem evidência e acreditar em resultado de evidência. Entre instinto e raciocínio.

Quer em termos de Humanidade, quer em termos individuais, o instinto é um elemento básico de sobrevivência. Há muitas coisas que fazemos porque estamos geneticamente programados para o fazer. Não se pensa nisso.


Desde os primórdios dos tempos que a Humanidade se confrontou com o mistério da existência do Universo e da Vida. E não o consegue decifrar. Se hoje a Ciência nos esclarece sobre a forma como a Vida evoluiu e evolui, se nos fornece uma teoria sobre como evoluiu o Universo, desde o que se costuma designar por Big Bang, ainda não nos consegue elucidar sobre a Força que causou esse Big Bang e, portanto, esclarecer-nos como de nada se fez tudo. Relativamente à origem do Universo, hoje a ciência pode dizer-nos, com razoável acerto, o que e o quando, mas não consegue (ainda?) elucidar-nos sobre o como e muito menos sequer arranhar o porquê nem o para quê…

No entanto, este mistério primordial sempre preocupou e estimulou a curiosidade da Humanidade. Que, não podendo saber, inventou e acreditou, mas também especulou, analisou e racionalmente concluiu. Uns que não existia Divindade, porque nenhuma prova da sua existência descortinam. Outros concluindo que o próprio problema é a prova da existência de algo superior, de uma Força Criadora, em suma, de Deus.

Deísmo e ateísmo partilham entre si a Razão. Só que, pela Razão, chegam a conclusões opostas…

Deísmo e teísmo partilham entre si a Crença. Só que o teísmo prescinde da Razão para obter a Crença e aquele obtém esta em resultado daquela.

Deístas e ateus utilizam o mesmo meio de se transportarem, mas chegam a destinos diferentes.

Deístas e teístas usam diferentes meios para viajarem, mas chegam ao mesmo destino.

O teísta crê e, porque crê, racionaliza essa crença.

O deísta usa a razão e chega à crença.

Historicamente, ouso dizê-lo, primeiro a Humanidade, as sociedades, os indivíduos foram teístas. Depois, alguns dos indivíduos, partes das sociedades e da Humanidade, evoluíram para o deísmo, não se conformando em só acreditar, procurando e obtendo fundamento racional para a crença.

Embora em termos lógicos, para o deísta a razão preceda a fé, em termos cronológicos, a fé precedeu a razão.

Daí a minha afirmação de que o deísmo é uma evolução do teísmo. Daí que, na minha maneira de ver, não exista uma oposição entre teísmo e deísmo, mas uma evolução de teísmo para deísmo.

No teísmo existe fé. No deísmo existe fé e razão. Aquela criando a necessidade da intervenção desta. Esta fundamentando a existência daquela.

É com base nestas considerações que, finalmente, poderei chegar onde, desde o princípio queria chegar: procurar definir e relacionar entre si Maçonaria Deísta e Maçonaria Teísta, sem esquecer que existem também aqueles que se reclamam de integrarem uma Maçonaria que não será nem deísta, nem teísta, nem ateia, antes a reclamam de ser universal (ou liberal). Mas isso ficará para um próximo escrito.


Rui Bandeira - publicado no Blog “A partir pedra” em 30 de Outubro de 2008.