setembro 07, 2021

O 07 DE SETEMBRO E A MAÇONARIA - Revisão Sidnei Godinho M.'.M.'.



O ano  de  1821  começara  para  D. João  VI  como  principiara  o  de 1808. 

O  Grande Oriente  Lusitano  levara-o,  treze  anos  antes,  a  transferir  a  sede do  governo  monárquico  da  Nação  Portuguesa  de  Lisboa  para  o  Rio  de  Janeiro.

Mais tarde,  esse  mesmo  grande  Oriente  obrigá-lo-ia  a  retransferir  a sede  do  seu  governo  do  Rio  de  Janeiro  para  Lisboa.  

Com  receio  de  perder  o  trono  e  sem  alternativa,  face  às  exigências  da Corte  (Parlamento  português),  D.João  VI  regressa  a  Lisboa  (Portugal)  em  26  de abril  de  1821,  deixando  como  Príncipe  Herdeiro,  nomeado  Regente  do  Brasil pelo  Decreto  de  22  de  abril  de  1821,  o  primogênito  com  então  21  anos  de  idade –  PEDRO  DE  ALCANTARA  FRANCISCO  ANTÔNIO  JOÃO  CARLOS  XAVIER DE  PAULA  MIGUEL  RAFAEL  JOAQUIM  JOSÉ  GONZAGA  PASCOAL CIPRIANO  SERAFIM  DE  BRAGANÇA E  BOURBON.  

O  Príncipe  Dom  Pedro,  jovem  e  voluntarioso,  aqui  permanece, não  sozinho,  pois  logo  se  viu  envolvido  por  todos  os  lados  de  homens  de  bem, Maçons,  que  constituíam  a  elite  pensante  e  econômica  da  época.

Apesar  de  ver  ser  aceitas  suas  reivindicações,  os revolucionários  portugueses  não  estavam  satisfeitos. 

As  cortes  de  Portugal estavam  preocupadas  com  as  perdas  das  riquezas  naturais  do  Brasil  e  previam sua  emancipação,  como  ocorria  em  outros  países  sul-americanos. 

Dois decretos,  em  29  de  setembro  de  1821,  de  números  124  e  125  emanados  das Cortes  Gerais  portuguesas  são  editados  na  tentativa  de  submeter  e  inibir  os movimentos  no  Brasil.  

Um  reduzia  o  Brasil  da  posição  de  Reino  Unido  à  antiga condição  de  colônia,  com  a  dissolução  da  união  brasílico-lusa,  o  que  seria  um retrocesso,  o  outro,  considerando  a  permanência  de  D.  Pedro  desnecessária  em nossa  terra,  decretava  a  sua  volta  imediata.  

Os  brasileiros  reagiram  contra  os  decretos  através  de  um  forte discurso  do  Maçom  Cipriano  José  Barata,  denunciando  a  trama  contra  o  Brasil.

O  Maçom,  José  Joaquim  da  Rocha,  funda  em  sua  própria  casa  o  Clube  da Resistência,  depois  transformado  no  Clube  da  Independência.  

Verdadeiras  reuniões  maçônicas  ocorrem  na  casa  de  Rocha  ou na  cela  de  Francisco  de  Santa  Tereza  de  Jesus  Sampaio,  Frei  Sampaio,  no convento  de  Santo  Antônio,  evitando  a  vigilância  da  polícia. 

Várias  providências foram  tomadas,  dentre  elas:  consultar  D.  Pedro;  convidar  o  Irmão,  Maçom,  José Clemente  Pereira,  Presidente  do  Senado  a  aderir  ao  movimento  e  enviar emissários  aos  maçons  de  São Paulo e  Minas  Gerais.

Surge o  jornal,  “Revérbero Constitucional  Fluminense”,  redigido  por  Gonçalves  Ledo  e  pelo  Cônego Januário,  que  circulou  de  11  de  setembro  de  1821  a  08  de  Outubro  de  1822,  e que  teve  a mais extraordinária  influência  no  movimento  libertador,  pois  contribuiu para  a  formação  de  uma  consciência  brasileira,  despertando  a  alma  da nacionalidade.

Na  representação  dos  paulistas,  de  24  de  dezembro  de  1821,  redigida pelo  Maçom  José  Bonifácio  de  Andrada  e  Silva,  pode-se  ler  o  seguinte  registro:

... “É  impossível  que  os  habitantes  do  Brasil,  que  forem  honrados e  se  prezarem  de  ser  homens,  possam  consentir  em  tais  absurdos  e despotismo.

V.  Alteza  Real  deve  ficar  no  Brasil,  quaisquer  que  sejam  os projetos  das  Cortes  Constituintes,  não  só  para  o  nosso  bem  geral,  mas  até  para a  independência  e  prosperidade  futura  do  mesmo. 

Se  V.  Alteza  Real  estiver  (o que  não  é  crível)  deslumbrado  pelo  indecoroso  decreto  de  29  de  setembro,  além de  perder  para  o  mundo  a  dignidade  de  homem  e  de  príncipe,  tornando-se escravo  de  um  pequeno  grupo  de  desorganizadores,  terá  que  responder, perante  o  céu,  pelo  rio  de  sangue  que,  decerto,  vai  correr  pelo  Brasil  com  a  sua ausência...”.

Nessa  época,  funcionavam  no  Rio  de  Janeiro,  a  Loja  Maçônica “Comércio  e  Artes”,  da  qual  eram  membros vários  homens  ilustres  da  corte  como o  Cônego  Januário  da  Cunha  Barbosa,  Joaquim  Gonçalves  Ledo  e  José Clemente  Pereira  entre  outros.  

Esses  maçons  reunidos  e  após  terem  obtido  a  adesão  dos irmãos  de  São  Paulo,  Minas  Gerais  e  Bahia,  resolveram  fazer  um  apelo  a  D. Pedro  para  que  permanecesse  no  Brasil.

Em  09  de  janeiro  de  1822,  na  sala  do  trono  e  interpretando  o pensamento  geral,  cristalizando  nos  manifestos  dos  fluminenses  e  dos  paulistas e  no  trabalho  de  aliciamento  dos  mineiros,  o  Maçom  José  Clemente  Pereira, presidente  do  Senado  da  Câmara,  antes  de  ler  a  representação,  pronunciou inflamado  e  contundente  discurso  pedindo  para  que  o  Príncipe  Regente Permanecesse  no  Brasil.  

Após  ouvir  atentamente,  o  Príncipe  responde:  “Como  é  para  o bem  de  todos  e  felicidade  geral  da  nação,  estou  pronto,  diga  ao  povo  que  fico”.

A  alusão  às  hostes  maçônicas  era  explícita  e  D.  Pedro conheceu-lhe  a  força  e  a  influência,  entendendo  o  recado  e  permanecendo  no Brasil. 

Este  episódio,  conhecido  como  o  Dia  do  Fico,  marcou  a  primeira  adesão pública  de  D.  Pedro  a  uma  causa  brasileira.

Em  13  de  maio  de  1822,  os  Maçons  fluminenses,  sob  a  liderança  de Joaquim  Gonçalves  Ledo,  e  por  proposta  do  brigadeiro  Domingos  Alves  Branco, da  loja  “Comércio  e  Artes”,  resolvem  outorgar  ao  Príncipe  Regente  o  título  de “Príncipe  Regente  Constitucional  e  Defensor Perpétuo  do  Reino  Unido  do  Brasil”, oferecido  pela  Maçonaria  e  pelo  Senado,  que  acabou  por  acirrar  ainda  mais  os ânimos  entre  os  portugueses  e  nativistas.

Ainda  em  maio  de  1822,  aconselhado  pelo  então  seu  primeiro ministro  das  pastas  do  Reino  e  de  Estrangeiros,  o  Maçom  José  Bonifácio  de Andrada  e  Silva,  D.  Pedro  assina  o  Decreto  do  Cumpra-se,  segundo  o  que  só vigorariam  no  Brasil  as  Leis  das  Cortes  portuguesas  que  recebessem  o  cumprase  do  príncipe  regente.

A 21 de maio, em plena sessão das Cortes, em  Lisboa,  o Maçom Monsenhor  Muniz  Tavares  diz  que  talvez  os  brasileiros  se  vissem  obrigados  a declarar  sua  independência  de  uma  vez.

Em  02  de  junho  de  1822,  em  audiência  com  D.  Pedro,  o  Irmão José  Clemente  Pereira  leu  o  discurso  redigido  pelos  Maçons  Joaquim  Gonçalves Ledo  e  Januário  Barbosa,  que  explanavam  da  necessidade  de  uma  Constituinte.  

D.  Pedro  comunica  a  D.  João  VI  que  o  Brasil  deveria  ter  suas Cortes.  Desta  forma,  convoca  a  Assembleia  Constituinte  para  elaborar  uma Constituição  mais  adequada  ao  Brasil. 

Era  outro  passo  importante  em  direção  à independência.

A  02  de  junho,  José  Bonifácio,  com  outros  maçons,  funda  a sociedade  secreta  "Nobre  Ordem  dos  Cavaleiros  de  Santa  Cruz",  melhor conhecida  com  o  nome  de  "Apostolado",  da  qual  fez  parte  D.  Pedro,  com  o  título de  Arconte-Rei.

Em 17 de junho  de 1822,  a  Loja  Maçônica,  “Comércio  e  Artes”  em  sessão memorável,  resolve  criar  mais  duas  Lojas  pelo  desdobramento  de  seu  quadro  de Obreiros,  através  de  sorteio,  surgindo  assim  as  Lojas  “Esperança  de  Niterói”  e “União  e  Tranqüilidade”,  se  constituindo  nas  três  Lojas  Metropolitanas  e possibilitando  a  criação  do  “Grande  Oriente  Brasílico  ou  Brasiliano”,  que  depois viria  a  ser  denominado  de  “Grande  Oriente  do  Brasil”.

José  Bonifácio  de  Andrada  e  Silva  (O  Patriarca  da Independência)  é  eleito  primeiro  Grão-Mestre,  tendo  Joaquim  Gonçalves  Ledo como  1º  Vigilante  e  o  Padre  Januário  da  Cunha  Barbosa  como  Grande  Orador.  

 O objetivo principal da criação do GOB foi de engajar a Maçonaria como Instituição, na luta pela independência política do Brasil, conforme consta de forma explícita das primeiras atas das primeiras reuniões, onde só se admitia para iniciação e filiação em suas Lojas, pessoas que se comprometessem com o ideal da independência do Brasil.

No dia 02 de agosto (13º do 5º mês maçônico, conforme o historiador Hélio Viana), por proposta do Grão-Mestre da Maçonaria, José Bonifácio, foi D.Pedro, o Príncipe Regente, aprovado e recebido maçom, no primeiro grau na forma regular e prescrita pela liturgia, adotando o nome histórico de Guatimozim (último imperador Asteca morto em 1522), e passa a fazer parte do Quadro de Obreiros da Loja Comércio e Artes. 

No dia 05 de agosto, por proposta de Joaquim Gonçalves Ledo, que ocupava a presidência dos trabalhos, foi aprovada a exaltação ao grau de Mestre Maçom, com a dispensa do interstício, que possibilitou, posteriormente, em 04 de outubro de 1822, numa jogada política de Ledo, o Imperador ser eleito e empossado no cargo de Grão-Mestre, do GOB.

Porém, foi no mês de agosto de 1822 que o Príncipe, agora Maçom, tomou a medida mais dura em relação a Portugal, declarou inimigas as tropas portuguesas que desembarcassem no Brasil sem o seu consentimento.

Em 14 de agosto parte em viagem, com o propósito de apaziguar os descontentes em São Paulo, acompanhado de seu confidente Padre Belchior Pinheiro de Oliveira e de uma pequena comitiva. 

Faz a viagem pausadamente, percorrendo em 10 dias, 96 léguas entre Rio e São Paulo. 

Em Lorena, a 19 de agosto, expede o decreto dissolvendo o governo provisório de São Paulo. 

No dia 25 de agosto chega a São Paulo sob salva de artilharia, repiques de sino, girândolas e foguetes, se hospedando no Colégio dos Jesuítas. 

De São Paulo se dirige para Santos em 5 de setembro de 1822, de onde regressou na madrugada de 7 de setembro. 

Encontrava-se na colina do Ipiranga, às margens de um riacho, quando foi surpreendido, pelo Major Antônio Ramos Cordeiro e por Paulo Bregaro, correio da corte, que lhes traziam noticias enviadas com urgência pelo seu primeiro ministro José Bonifácio.

D. Pedro, após tomar conhecimento dos conteúdos das cartas e das notícias trazidas pelos emissários, pronunciou as seguintes palavras: 

... “As Cortes me perseguem, chamam-me com desprezo de rapazinho e de brasileiro.

Verão agora quanto vale o rapazinho. 

De hoje em diante estão quebradas as nossas relações; nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal. 

Independência ou Morte!”...

A independência do Brasil foi realizada à sombra da acácia, cujas raízes prepararam o terreno para isto. 

A Maçonaria teve a maior parte das responsabilidades nos acontecimentos literários. 

Não há como negar o papel preponderante desta instituição maçônica na emancipação política do Brasil.

Desde 1815, com a fundação da Loja Maçônica “Comércio e Artes”, que daria origem as Lojas União e Tranquilidade e Esperança de Niterói e a posterior constituição do Grande Oriente do Brasil em 17 de Junho de 1822, o ideário de independência se fazia presente entre seus membros e contagiava os brasileiros.

À frente do movimento, enérgica e vivaz, achavam-se a Maçonaria e os Maçons. 

Entre seus principais Obreiros, pedreiros livres, de primeira hora podemos destacar: Joaquim Gonçalves Ledo, José Bonifácio da Andrada e Silva, José Clemente Pereira, Cônego Januário da Cunha Barbosa, José Joaquim da Rocha, Padre Belchior Pinheiro de Oliveira, Felisberto Caldeira Brant, o Bispo Silva Coutinho, Jacinto Furtado de Mendonça, Martim Francisco, Monsenhor Muniz Tavares, Evaristo da Veiga dentre muitos outros.

Faz-se necessário também alçar a figura do personagem que se destacou durante todo o movimento articulado e trabalhado pela Maçonaria, o Príncipe Regente, Dom Pedro.

Iniciado Maçom na forma regular prescrita na liturgia e nos rituais maçônicos, e nesta condição de pedreiro livre no grau de Mestre Maçom, aos 24 anos de idade, proclama no 07 de setembro a nossa INDEPENDÊNCIA.

Posteriormente, no dia 04 de Outubro de 1822, D. Pedro comparece ao Grande Oriente do Brasil e toma posse no cargo de Grão-Mestre (havia sido investido no cargo de Grão Mestre no dia 14 de setembro), sendo na oportunidade aclamado Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil.

Neste mesmo dia, D. Pedro oferece a Gonçalves Ledo o título de marquês da Praia Grande que é por este recusado, com a declaração de ser muito mais honroso o de brasileiro patriota e de homem de bem.

No mesmo dia, Joaquim Gonçalves Ledo, redigiu uma nota patriótica ao povo Brasileiro, a primeira divulgação, depois da independência, que dizia: 

... “Cidadãos! A Liberdade identificou-se com o terreno; a natureza nos grita Independência; a razão nos insinua; a justiça o determina; a glória o pede; resistir-lhe é crime, hesitar é dos covardes, somos homens, somos Brasileiros. Independência ou Morte! Eis o grito de honra, eis o brado nacional...”.

E assim se fez a Independência do Brasil com a Maçonaria sendo o cérebro atuante por trás do então Príncipe Regente.

LIBERDADE E IGUALDADE para todos meus irmãos neste dia 07 de setembro.


Bibliografia:

- FILHO, Theobaldo Varoli. Curso Maçonaria Simbólica 1º Tômo (Aprendiz) 2ª edição, São Paulo, SP – Brasil, Editora A Gazeta Maçônica S.A.

- CASTELLANI, José - Os Maçons na Independência do Brasil 

- FAGUNDES, Morivalde Calvet - A Maçonaria e as Forças Secretas da Revolução

-PINTO, Teixeira - A Maçonaria na independência do Brasil

- FERREIRA, Tito L. e Manoel Rodrigues - A Maçonaria e a independência Brasileira - Livro Constituição do Grande Oriente do Brasil - Capítulo II – Art. 3º (página 3)

DISCURSO PROFERIDO POR JOAQUIM GONÇALVES LEDO

 


*DISCURSO PROFERIDO POR JOAQUIM GONÇALVES LEDO, NA LOJA MAÇÔNICA “COMÉRCIO E ARTES”, NO RIO DE JANEIRO, EM 20/AGOSTO/1822*


Joaquim Gonçalves Ledo foi um dos maiores autores da Independência, se não o maior. A peça de arquitetura que a seguir transcrevemos do Boletim do GOB (julho/agosto de 1963), é dirigida ao hesitante Príncipe D. Pedro e entre seus arrojados conceitos lá está a antecipação da Doutrina de Monroe.

SENHOR! A natureza, a razão e a humanidade, este feixe indissolúvel e sagrado, que nenhuma força humana pode quebrar, gravaram no coração do homem uma propensão irresistível para, por todos os meios e com todas as forças em todas as épocas e em todos os lugares, buscarem ou melhorarem o seu bem-estar. Este principio tão santo como a sua origem, e de centuplicada força quando aplicado às nações, era de sobra para o Brasil, esta porção preciosa do globo habitado, não acedesse a inerte expectação de sua futura sorte, tal qual fosse decretada longe de seus lugares e no meio de uma potência (Portugal) que deveria reconhecer inimiga de sua glória, zelosa de sua grandeza, e que bastante deixava ver pelo seu Manifesto às nações que queria firmar a sua ressurreição política sobre a morte do nascente Império Luso-Brasileiro, pois baseava as razões de sua decadência sobre a elevação gloriosa deste filho da América – o Brasil.

Se a esta tão óbvia e justa consideração quisesse juntar a sua dolorosa experiência de trezentos e oito anos, em que o Brasil só existira para Portugal para pagar tributos que motivos não encontraria na cadeia tenebrosa de seus males para chamar a atenção e vigilância de todos os seus filhos a usar da soberania que lhe compete, e dos mesmo direitos de que usara Portugal e por si mesmo tratar de sua existência e representação política, da sua prosperidade e da sua constituição? Sim, o Brasil podia dizer a Portugal: “Desde que o sol abriu o seu túmulo e dele me fez saltar para apresentar-se ao ditoso Cabral a minha fertilidade, a minha riqueza, a minha prosperidade, tudo te sacrifiquei, tudo te dei, e tu que me deste? Escravidão e só escravidão. Cavavam o seio das montanhas, penetravam o centro do meu solo para te mandarem o ouro, com que pagavas as nações estrangeiras a tua conservação e as obras com que decoras a tua majestosa capital; e tu quando a sôfrega ambição devorou os tesouros, que sob mão se achavam nos meus terrenos, quisestes impor-me o mais odioso dos tributos, a “capitação”. Mudavam o curso dos meus caudalosos rios para arrancarem de seus leitos os diamantes que brilham na coroa do monarca; despiam as minhas florestas para enriquecerem a tua grandeza, que, todavia, deixava cair das enfraquecidas mãos … E tu que deste? Opressão e vilipêndio! Mandavas queimar os filatórios e teares, onde minha nascente indústria beneficiava o algodão para vestir os meus filhos; negavas-me a luz das ciências para que não pudesse conhecer os meus direitos nem figurar entre os povos cultos; acanhavas a minha indústria para me conservares na mais triste dependência da tua; desejavas até diminuir as fontes da minha natural grandeza e não querias que eu conhecesse o Universo senão o pequeno terreno que tu ocupas. Eu acolhi no meu seio os teus filhos a que doirava a existência e tu me mandavas em paga tiranos indomáveis que me laceravam.

Agora é tempo de reempossar-me de minha Liberdade; basta de oferecer-me em sacrifício as tuas interessadas vistas. Assaz te conheci, demasiando te servi… – os povos não são propriedade de ninguém.

Talvez o Congresso de Lisboa no devaneio de sua fúria (e será uma nova inconseqüência) dê o nome rebelião ao passo heróico das províncias do Brasil a reassunção de sua soberania desprezada; mas se o fizer, deverá primeiro declarar rebelde a Razão, que prescreve aos homens não se deixarem esmagar pelos outros homens, deverá declarar rebelde a Natureza, que ensinou aos filhos a separarem-se dos seus pais, quando tocam a época de sua virilidade; é mister declarar rebelde a Justiça, que não autoriza usurpação, nem perfídias; é mister declarar rebelde o próprio Portugal, que encetou a macha de sua monarquia, separando-se de Castela; é mister declarar-se rebelde a si mesmo (esse Congresso), porque se a força irresistível das coisas prometia a futura desunião dos dois Reinos os seus procedimentos aceleraram esta época, sem dúvida fatal para outra parte da nação que se queira engrandecer.

O Brasil, elevado à categoria de Reino, reconhecido por todas as potencias e com todas as formalidades que fazem o direito público na Europa, tem inquestionavelmente jus a reempossar-se da porção de soberania que lhe compete, porque o estabelecimento da ordem constitucional é negócio privativo de cada povo.

A independência, Senhor, no sentido dos mais abalizados políticos, é inata nas colônias, como a separação das famílias o é na Humanidade.

A natureza não formou satélites maiores que os seus planetas. A América deve pertencer à America, e Europa à Europa, porque não debalde o Grande Arquiteto do Universo meteu entre elas o espaço imenso que as separa. O momento para estabelecer-se um perdurável sistema, e ligar todas as partes do nosso grande todo, é este…

O Brasil, no meio das nações independentes, e que falam com exemplo de felicidade, não pode conservar-se colonialmente sujeito a uma nação remota e pequena, sem forças para defendê-lo e ainda para conquistá-lo. As nações do Universo têm os olhos sobre nós, brasileiros, e sobre ti, Príncipe!

Cumpre aparecer entre elas como rebeldes ou como homens livres e dignos de o ser. Tu já conheces os bens e os males que te esperam e à tua posteridade. Queres ou não queres?

Resolve, Senhor!