fevereiro 02, 2026

OS SEGREDOS DO TEMPLO DE SALOMÃO, PRIMÓRDIOS DA MAÇONARIA LENDÁRIA - Igor Guedes de Carvalho




A Maçonaria é uma instituição de mais de 300 anos cuja tradição filosófica se assenta sobre 3000 anos de história. 

Partindo dessa premissa podemos dividir sua origem em duas versões: a origem lendária (que iremos abordar neste artigo) e a origem histórica. 

Entendemos como origem histórica o período de 1717, amparado por farta documentação, acerca da fundação da Grande Loja de Londres. 

É nesse ponto que podemos afirmar categoricamente que a Maçonaria passa a existir como instituição. 

No entanto, essa irmandade, fruto da Idade Moderna, baseia-se em conceitos, tradições e rituais que antecedem sua existência.

Poderíamos retroceder até 3000 anos de história para recompor essa tradição. 

Boa parte dela é de natureza essencialmente religiosa. 

É com base no cristianismo que diversas lendas ou alegorias maçônicas são tecidas. 

Dentre estas talvez a mais importante seja a história da construção do templo que abrigou a Arca da Aliança cujos principais personagens foram: o construtor Hiram Abiff e o próprio rei Salomão.

O Templo de Salomão em particular ocupa uma posição de destaque dentro da simbologia maçônica, tratando–se de uma das maiores fontes de símbolos, alegorias, lendas e ensinamentos da Maçonaria. 

Por se tratar de uma construção com mais de 3000 anos de idade, é natural que diversas dúvidas surjam no decorrer da busca das origens maçônicas. 

Podemos nos perguntar: o Templo de Salomão realmente existiu? 

Se existiu, quais eram suas dimensões? 

Hiram Abiff foi um personagem real

Antes de tudo, é preciso lembrar que não há qualquer registro extrabíblico a respeito da construção do Templo de Salomão. 

Dessa forma, contamos apenas com a Bíblia como documento. 

Partimos então de uma pergunta: “a Bíblia pode ser interpretada como fonte histórica?”

Para responder a essa pergunta, precisamos voltar a dezembro de 1892 quando George Smith apresentou uma notável descoberta à sociedade de arqueologia bíblica de Londres. 

Ele entregou a tradução de uma tábua mesopotâmica contendo o relato de um dilúvio. 

Talvez, o mesmo dilúvio que levou Noé a construir sua arca. 

Esse fato criou uma febre entre arqueólogos e historiadores que passaram a pesquisar a arqueologia bíblica como uma ciência.

A Bíblia, em particular o antigo testamento, formam um conjunto de histórias contadas através da tradição oral. 

Enquanto todas essas histórias circulavam, surgiam os primeiros sistemas de escrita do mundo.

Por volta de 3.200 a.C. o povo da mesopotâmia desenvolveu a escrita cuneiforme, na qual símbolos eram prensados em placas de argila ou em entalhos na pedra”.BEITZEL, Barry J. Bíblica – o Atlas da Bíblia, p. 16

Concomitantemente, o Egito desenvolveu o sistema de hieróglifos. 

Essas duas nações desempenharam papéis fundamentais na história bíblica e forneceram importantes ícones para a tradição maçônica.

Na época de Davi e Salomão, o sistema de escrita encontrava-se mais desenvolvido. 

Por volta de 1011 a.C. o jovem rei Davi iniciou um período de expansão literária. 

Atribui-se a ele muitos dos salmos da Bíblia. 

Durante seu reinado foram designados escribas para redigir e manter crônicas de seu reinado. 

Quando Salomão assumiu o trono, além de iniciar a construção do Templo encomendou diversos Salmos para serem celebrados al

Apesar das minuciosas descrições registradas na Bíblia, ainda não foi possível, contudo, ter certeza quanto ao primeiro templo de Jerusalém. 

A arqueologia bíblica ainda não apresentou nenhuma prova válida da existência de tal obra. 

Explica-se a ausência de vestígios arqueológicos à completa destruição que teria sido realizada por Nabucodonosor, ou à insuficiência de escavações no próprio sítio atribuído à localização do Templo. 

Esse lugar (sagrado para Judeus, Muçulmanos, Católicos e Protestantes) seria atualmente ocupado pela Mesquita de Omar, ou o Domo da Rocha, onde Abraão, obediente a Deus, quase sacrificou seu próprio filho, Isaac (Gen. 22.1-19) – onde, de modo significativo, a tradição islâmica localiza Maomé subindo ao Céu.

Por causa desses fatos torna-se quase impossível empreender uma busca arqueológica dos resquícios do templo de Salomão.

Alguns historiadores referem-se ao célebre “muro das lamentações” como tendo sido parte da grande alvenaria de arrimo na esplanada do Templo. 

Contudo as determinações científicas de datação conferem ao muro idade próxima à década anterior ao nascimento de Cristo. 

Dessa forma, essa obra seria mais adequada de ser atribuída ao terceiro templo destruído pelos romanos.

Por outro lado, não existem dúvidas quanto à existência do reinado de Salomão. 

Esse sábio rei foi um exímio administrador. 

Um de seus primeiros atos como rei foi dividir o reino em distritos administrativos enviando provisões e recursos para a corte. 

Através desse sistema Salomão pode empreender grandes obras arquitetônicas, entre as quais supostamente estaria incluído o Grande Templo.

Várias melhorias feitas por Salomão foram confirmadas por arqueólogos: “o israelense Yigael Yadin descreveu os imponentes muros e portões construídos durante o período salomônico, incluindo um portão com seis câmaras e um muro com casamatas.” BEITZEL, Barry J. Bíblica – o Atlas da Bíblia, p. 242.

Podemos ainda citar “Gezer localizada aos pés das colinas centrais, perto de Selefá, que ligava a via Maris (rodovia costeira internacional) a Jerusalém e foi parcialmente destruída pelo Faraó egípcio em torno de 950 a.C., foi dada a Salomão como dote por seu casamento com a filha do Faraó”. BEITZEL, Barry J. Bíblica – o Atlas da Bíblia, p. 243.

Além disso, a cidade de Jerusalém, escolhida como capital por Davi, cresceu em tamanho e importância política durante o reinado de Salomão. 

A eira da Araúna (também identificada como Monte Moriá), comprada por Davi e usada como local sagrado para oferecer sacrifícios tornou-se o local para a construção do Grande Templo.

O “livro de Reis” que integra a Bíblia e narra a trajetória do Rei Salomão e a construção do grande Templo encontra na arqueologia confirmação histórica. 

Diversos locais, nomes e acontecimentos são cientificamente comprovados. 

Dessa forma, podemos sim afirmar que o Templo de Salomão realmente existiu. 

Nada contraria o fato de que toda sua forma gloriosa tenha sim sido arquitetada pelo mestre de obras Hirão-Abi (2 Cr 2.13,14).

A tradição bíblica ainda orienta importantes aspectos dos templos modernos. 

Devemos lembrar que segundo o livro de Reis as janelas do Templo de Salomão deviam estar acima do telhado das câmaras, eram de grades, não podendo ser abertas (1 Rs 6.4). 

Os objetos mais proeminentes no vestíbulo eram dois grandes pilares, Jaquim e Boaz, que Hirão formou por ordem de Salomão (1 Rs 7.15 a 22). Jaquim (‘ele sustenta’) e Boaz (‘nele há força’), apontavam para Deus, em Quem se devia firmar, como sendo a Força e o Apoio por excelência, não só o Santuário, mas também todos aqueles que ali realmente entravam.

Essa simbologia bíblica alimenta defesas como do pesquisador maçônico Manly Hall. 

Para ele, a construção do Templo de Salomão não tem uma importância direta para a Maçonaria. 

Segundo ele, sua essência: “não é histórica nem arqueológica, mas uma linguagem simbólica divina perpetuando sob certos símbolos concretos, os sagrados mistérios dos antigos.

Apenas aqueles que veem nela um estudo cósmico, um trabalho de vida, uma inspiração divina de pensar melhor, sentir melhor e viver melhor com a intenção espiritual de iluminação como fim, e com a vida diária do verdadeiro maçom como meio, conseguiram um vislumbre dos verdadeiros mistérios dos ritos ancestrais”. HALL, Manly P. As chaves perdidas da Maçonaria, p. 36

É certo que, seja ela histórica ou filosófica, a origem lendária atribui à Maçonaria uma consistência incomparável frente às demais instituições modernas.

Bíblia Sagrada (tradução dos originais hebraico e grego feita pelos monges de Maredsous). São Paulo: Editora Ave Maria, 2001.

REFLEXÃO SOBRE A MAÇONARIA E OS MAÇONS NOS DIAS ATUAIS - Emanuel Belém



A Maçonaria, enquanto instituição iniciática, não envelheceu. 

Quem envelheceu foram muitos dos seus filhos. 

A Ordem permanece a mesma; os homens é que se apequenaram.

Na Antiguidade, o maçom — ainda que não portasse esse nome formal — era o construtor do mundo, não apenas de templos de pedra, mas de ideias perigosas. 

Perigosas porque libertavam. 

O maçom antigo incomodava o tirano, afrontava o dogma, rasgava a noite com a lâmpada da razão. 

Ele não pedia licença à ignorância, nem autorização ao medo coletivo.

Nas revoluções — sobretudo a Francesa — o maçom foi herege para os reis, subversivo para os tronos e criminoso para os privilégios. 

Lutou pela igualdade quando igualdade significava guilhotina. 

Falou em liberdade quando liberdade custava a cabeça. 

Não espalhava boatos: espalhava ideias. 

Não fazia política de estimação: fazia história.

Quando combateu a escravidão — no Brasil e no mundo — o maçom verdadeiro não perguntou se o escravo era “do seu partido”, “da sua religião” ou “do seu círculo social”. 

Viu um homem acorrentado e isso bastou. 

A causa não era ideológica; era humana. 

O maçom daquela época entendia algo simples e profundo: não existe liberdade individual possível em uma sociedade construída sobre a servidão coletiva.

Os filósofos, questionadores, opositores e garantistas das liberdades — muitos deles maçons — tinham um traço comum: odiavam a mentira, desprezavam o fanatismo e desconfiavam do poder. 

Não idolatravam políticos. 

Não se ajoelhavam diante de cargos. 

Não confundiam opinião com verdade. 

Eles sabiam que a primeira tirania nasce na mente que se recusa a pensar.

Agora compare isso com grande parte dos maçons atuais.

O que se vê, com raras exceções, é a degeneração do espírito iniciático.

Maçons que não constroem, apenas repetem.

Que não estudam, apenas compartilham.

Que não buscam a verdade, mas defendem narrativas.

Que não praticam a tolerância, mas espalham ódio político travestido de virtude moral.

São maçons que se comportam como na fábula do rato no celeiro:

• quando o aviso surge — a ratoeira da injustiça, da censura, da miséria, da perda das liberdades — eles dizem:

• “Não é comigo.”

• Até o dia em que é.

Esses maçons modernos gritam slogans, não princípios.

Defendem “políticos de estimação”, não a República.

Espalham fake news, fofocas e mentiras como se fossem verdades reveladas, esquecendo que a Maçonaria nasce justamente para combater a ignorância organizada.

Eles falam em Ordem, mas vivem no caos moral.

Falam em Liberdade, mas defendem censura quando lhes convém.

Falam em Igualdade, mas só para os seus.

Falam em Fraternidade, mas excluem, rotulam e atacam.

E ainda assim — aqui está a verdade incômoda — a Maçonaria não é culpada.

A Maçonaria permanece a mãe de todos os maçons, pura em seus princípios, firme em seus landmarks, clara em seus símbolos. 

Quem falhou foram os filhos que abandonaram o trabalho da pedra bruta e passaram a polir apenas o próprio ego.

O problema não é a Ordem. 

O problema é o maçom que trocou o avental pelo palanque, o silêncio reflexivo pelo grito histérico, o estudo pela corrente de WhatsApp.

A Maçonaria não foi feita para produzir militantes, fofoqueiros ou agitadores de ódio. 

Ela foi feita para formar homens livres em sociedades livres.

Quando o maçom esquece isso, ele pode continuar frequentando lojas — mas já não pertence ao Templo.



fevereiro 01, 2026

A SOMBRA DE SUA PRÓPRIA GRANDEZA - Jorge Antônio Vieira Gonçalves


 

A Maçonaria é um sistema de formação moral, ilustrado por símbolos e velado por alegorias, destinado a transformar o homem para que este, por sua vez, transforme a sociedade. Durante mais de três séculos, essa escola iniciática formou estadistas, cientistas, líderes mundiais e cidadãos comprometidos com a ética pública.

Ao ingressar no século XXI, a Ordem enfrenta um dos maiores desafios de sua história moderna: o envelhecimento de seus membros, a queda no número de obreiros e, sobretudo, a perda da função iniciática das Lojas. Em muitas jurisdições, a Maçonaria deixou de ser uma escola viva de virtude e transformou se em uma associação administrativa marcada por reuniões protocolares, rotinas burocráticas, leitura de atas e formalidades que preservam a forma, mas já não transmitem o conteúdo simbólico e transformador que sempre definiu a experiência maçônica.

As novas gerações, em busca de sentido, profundidade e autenticidade, não se satisfazem com encontros vazios de vivência simbólica. Quando encontram uma Ordem burocratizada, com ritual mecanizado, leituras mal conduzidas e educação superficial, afastam se naturalmente.

Paradoxalmente, a sociedade moderna precisa exatamente daquilo que a Maçonaria possui em sua essência: comunidade real, ética prática, formação do caráter e transcendência simbólica. O declínio não decorre da irrelevância da missão da Ordem, mas da ausência de um método organizado que traduza seus princípios imutáveis em práticas sistemáticas, mensuráveis e fiéis à tradição.

O exemplo da Maçonaria norte americana é claro e incontornável. Em 1959, a Ordem possuía cerca de 4 milhões de membros. Em 2023, restavam menos de 870 mil, o que representa uma redução aproximada de 80% em pouco mais de seis décadas. Essa queda acompanha o envelhecimento institucional, a baixa renovação geracional e, sobretudo, o enfraquecimento da formação simbólica profunda.

O ritual tornou se formalidade, a educação perdeu sua função pedagógica e a iniciação deixou de cumprir plenamente seu papel transformador.

Ao mesmo tempo, o mundo moderno vive o colapso das comunidades tradicionais. Os vínculos sociais baseados na convivência no mundo real, na confiança mútua e na participação cívica enfraqueceram diante do mundo virtual, do individualismo digital, do uso excessivo das telas, da privatização da vida social e da fragmentação das relações humanas. Esse processo atingiu todas as instituições, não apenas a Maçonaria.

Curiosamente, a Maçonaria foi criada exatamente para formar comunidade, virtude e sentido. O fracasso contemporâneo, portanto, não é de missão, mas de método.

Historicamente, sempre que a Ordem atravessou períodos de declínio, sua renovação ocorreu sem ruptura doutrinária, por meio do retorno disciplinado às suas fundações. A transição da Maçonaria operativa para a especulativa converteu ferramentas físicas em instrumentos morais. Em momentos críticos, a fidelidade ao ritual, a integridade ética e a caridade sustentaram a sobrevivência da instituição.

No período pós guerra, a integração familiar e comunitária promoveu o maior crescimento da história moderna da Maçonaria. Em todos esses ciclos, o renascimento resultou da organização consciente das boas práticas.

O processo de revitalização começa individualmente no maçom, por meio de formação simbólica sólida e contínua, educação estruturada e mentoria ativa, transformando símbolos em práticas.

A inclusão da família é fundamental. Ela não pode ocupar papel periférico, devendo tornar se parte ativa da vida maçônica, fortalecendo o pertencimento, a permanência dos membros e a continuidade geracional.

Nossas Lojas devem buscar incansavelmente esses pilares fundamentais: ritual executado com excelência simbólica, educação presente em todas as reuniões, mentoria ativa e caridade comunitária. Assim, a Loja deixa de ser meramente administrativa, não sendo um clube de serviços, e retoma sua vocação de centro de formação moral.

O futuro da Ordem não depende exclusivamente do número de iniciados, mas da qualidade da formação e da permanência consciente dos irmãos. Campanhas de filiação em massa e reformas superficiais não resolvem o problema.

O renascimento depende da qualidade da formação iniciática, da vivência simbólica autêntica, da integração familiar e da coerência ética praticada no cotidiano.

A Maçonaria sobreviverá não por quantos entram, mas por quão bem forma seus membros. Ou retorna às suas origens com método, profundidade e fidelidade histórica, ou continuará seu lento esvaziamento institucional, tornando se sombra de sua própria grandeza.

Bibliografia 

O presente texto constitui um resumo interpretativo do estudo de:

KASI, Arbab Naseebullah. Revitalizing Freemasonry in the Twenty First Century: The Universal Masonic Revival Model (UMRM) as a Lawful, Systematic, and Measurable Framework for Renewal. Academy of Masonic Knowledge, Grand Lodge of Pennsylvania, 2025.

OS PRIMEIROS PASSOS DA MODERNA MAÇONARIA - Michael Winetzki


 

     A maçonaria chamada de “especulativa” nasce na Inglaterra no início do século 18, mas ela própria ainda não sabia que o que era, e muito menos o que se tornaria. Eram apenas homens que se reuniam para conversar, beber e passar momentos agradáveis em meio a efervescência da reconstrução de Londres, que se tornava a capital econômica do mundo e de onde navios abarrotados de mercadorias entravam e saiam dos seus portos abastecendo um império onde o sol jamais de punha, da Australia e Oceania ao Canadá e as colônias americanas.

     O principal motivo das conversas era provavelmente a tentativa de retomada do poder pelo rei deposto, Jaime II, (Jacobus, em latim[1]) que se refugiara na França com a sua corte, e os conflitos com a Escócia, obrigada a aceitar a união com a Inglaterra, através do Ato de União estabelecido em 1707[2], depois dos enormes prejuízos causados pelos contínuos conflitos e aventuras ultramarinas que praticamente levaram a Escócia a falência, com parte de suas terras arrasadas.

     Em 1715 os apoiadores de Jaime II invadem a Inglaterra e avançam até Perth, mas são derrotados na batalha de Sheriffmuir pelas tropas do Duque de Argyll. Em 1719 a última frustrada tentativa jacobita foi a revolta ocorrida nas Terras Altas da Escócia.

     Em resposta ao Levante Jacobita de 1715, o Rei Jorge I, da Casa de Hanover, que havia assumido o trono no ano anterior com a morte da Rainha Ana Stuart, e preocupado com as consequências dos intermináveis conflitos com a Escócia, propõe e o Parlamento aprova em 1715 o Ato de Traição (Treason Act) que punia qualquer tentativa de revolta contra o Estado. As punições eram muito severas e incluíam enforcamento, arrastamento, esquartejamento e decapitação. Qualquer reunião com mais de dez pessoas poderia configurar um ato de traição.

      Enquanto isso, nas Clubes de Cavalheiros, muitos funcionando em tavernas[3] e nos alojamentos (lodges)[4] os londrinos confraternizavam. Os cinquenta anos decorridos da reconstrução depois do incêndio de 1666 haviam aproximado construtores, que haviam enriquecido com as obras e a gentry,[5] a elite econômica, composta de nobres e empresários que eram os fornecedores dos inúmeros materiais e serviços destinados as obras. Sob o comando de cientistas e intelectuais como o arquiteto Christopher Wren[6], Robert Hook[7] e John Evelyn[8].

     Em várias publicações Christopher Wren aparece citado como Grão Mestre da maçonaria em data anterior à fundação da Grande Loja, tendo sido destituído do cargo pela Rainha Mary em 1702. Efetivamente ele comandava as obras de reconstrução da cidade e neste caso era Grão Mestre dos pedreiros (the masons) e não de uma instituição de cunho filosófico. Com o término das principais obras na cidade, a construção perde intensidade e muitos trabalhadores retornam a suas cidades ou seus países, desfazendo as centenas de alojamentos (lodjes) que existiram desde o fatídico incêndio em 1666.

     Na Escócia, no século XVII, William Schaw[9], mestre de obras do Rei, organizou as lojas (Lodges) dispersas e as colocou sob um regulamento e a chefia de um Grão-mestre[10] e foi também quando começaram as adesões de homens alheios à profissão de pedreiro que se tornavam “maçons” especulativos e não operativos. Estes documentos determinavam as normas de funcionamento da profissão, um estatuto dos trabalhadores, estabelecendo métodos, horários, comportamento, remuneração etc.

     E como se tratava de uma atividade que necessitava de habilidades especiais e era uma das mais bem remuneradas da época, cujas obras podiam durar, meses, anos ou até mesmo séculos, como por exemplo a Catedral de Colônia, cuja construção durou 600 anos, era cercada de segredos, não filosóficos, porém operativos.

     A principal instituição que realizava as obras era a Honorável e Ancestral Companhia de Maçons da Cidade de Londres, uma Livery Company,[11] fundada em 1515 e que ainda existe, e que esclarece em suas publicações nada ter a ver com a Fraternidade dos Maçons Livres. Esta última é que iria-se tornar a nossa maçonaria.

     Nesta época, as classes mais esclarecidas discutiam os ensinamentos do médico e filosofo liberal inglês John Locke[12] que pregava o fim da monarquia absolutista e que, como muitos dos reconstrutores de Londres, também era membro da Royal Society. Suas ideias principais eram:

     a) tabula rasa - todos os homens nascem iguais, governantes e governados, cada um age livremente contanto que não prejudique seu semelhante;

     b)  estado da natureza - o direito natural à vida, liberdade e propriedade que deve ser garantido pelo governo, e

     c) tolerância – embora todos os homens nasçam iguais, sua cultura, competências, habilidades e experiências variam, portanto, a convivência só é possível através da tolerância.

     Esses conceitos tiveram grande influência na formação da maçonaria especulativa e na implantação da monarquia parlamentar na Inglaterra após a Revolução Gloriosa.

     A Royal Society é a mais antiga e prestigiada sociedade científica do mundo, fundada em 1660 através de uma Carta Régia concedida pelo Rei Carlos II. Sucedeu ao Invisible College, inspirado nos estudos de Francis Bacon[13], e com diversos cientistas reunidos em torno de Robert Moray[14] e Robert Boyle[15]. Cerca de 2000 das mais brilhantes mentes do planeta participam da Sociedade, sendo admitidos 73 novos membros a cada ano.

     Segundo João Anatalino Rodrigues:[16] “Esta sociedade contava entre os seus membros diversos cientistas como Robert Moray, Robert Boyle, John Evelyn, Robert Hooke, William Petty, John Wallis, John Wilkins, Thomas Willis, o arquiteto Christopher Wren e Isaac Newton, que viria a tornar-se seu presidente. Eram “cavalheiros” ingleses com títulos nobiliárquicos de grande expressão na sociedade inglesa, e a sua reunião numa espécie de “clube” de elite intelectual foi uma consequência do clima vivido na época, onde a Reforma protestante avançava em todos os países da Europa e a Igreja Católica atacava com a sua contrarreforma, numa luta sangrenta pelo controle dos espíritos. Assim, a proposta dos “cavalheiros” ingleses, que era o estudo e o desenvolvimento das ciências e das artes, com liberdade de consciência e sem a limitação que as religiões oficiais impunham, ganhou um importante núcleo de aplicação e disseminação nas Lojas maçónicas. E essa ideia, que estava limitada aos cavalheiros da Real Sociedade, e a pouquíssimos intelectuais que lograssem ingresso nesse fechadíssimo clube, espalhou-se pela sociedade inglesa, democratizando e popularizando uma prática que logo se iria tornar um dos mais influentes movimentos culturais do mundo. 

     Allende[17] diz: Antes da constituição da Royal Society, a ciência estava completamente dominada pela religião e amarrada a argumentos teológicos. Qualquer investigador que desafiasse a visão dos inquisidores era considerado herege e punido enquanto tal, pagando muitas vezes o preço da própria vida.

     Obviamente, esta miríade de mentes brilhantes não discutia apenas ciência, mas também e talvez principalmente política, numa época em que esta era um tema muito presente. Com a morte do Rei protestante Carlos II, que era o fundador formal da Academia e a entronização de seu irmão escocês, o católico Jaime II, surge o temor do retorno ao poder do malfadado catolicismo romano.

     Com a fuga do Rei católico para a França sua filha Ana e seu sobrinho e genro Guilherme de Orange-Nassau, protestantes, são convidados a assumir o trono. O Parlamento inglês, redige um documento que será conhecido como “Bill of Rights”, ou Declaração de Direitos, baseada nas ideias de John Locke e que estabelece a supremacia do Parlamento sobre a monarquia, veda o abuso de poder, garante a liberdade de expressão e os direitos individuais e muitas outras conquistas que fazem parte de muitas Constituições Modernas. O novo Rei e a Rainha o assinam em 1689 e está em vigor até os dias de hoje.

     Na Inglaterra, onde principia a Primeira Revolução Industrial, vigorava com poucas restrições a liberdade religiosa e a liberdade econômica, que espalhava por todo o planeta produção agrícola, tecidos, estradas de ferro, minas de diamantes, bancos, companhias de navegação e especialmente o comércio de escravos africanos. O Banco da Inglaterra, fundado em 1694 e controlado pela família Rothschild, judeus, se torna o mais importante do planeta

     Enquanto isso, nas centenas de alojamentos (lodjes) existentes na cidade de Londres, os maçons “aceitos”, que não eram pedreiros, mas fornecedores dos serviços e materiais, haviam se aproximado de quem realizava as obras, criavam laços de amizade e companheirismo (fellowship) com aqueles que haviam reconstruído a bela capital e muitos destes construtores haviam enriquecido com as obras, embora não ostentassem títulos de nobreza.

     Parte destas lodges apoiava o Rei protestante e outra parte, composta por escoceses e outros estrangeiros católicos trazidos para a reconstrução, ainda tinha a esperança do retorno ao trono de um Rei católico, e este conflito interreligioso, que já foi muito sangrento, ainda perdura na Grã-Bretanha embora com menos intensidade.

     Neste momento, a partir do início do século XVIII, as conversas nas lodjes, especialmente na  Lodje Red Horn Tavern, (que ficava na rua em que residia Desagulier) giravam em torno do risco para a economia e para o Estado vigente do retorno ao poder do catolicismo romano e quatro destes alojamentos, onde participavam não só pedreiros, mas também muitos “aceitos”, o Duque de Montagu, importantes políticos, diplomatas e aristocratas, e um clérigo anglicano chamado Jean Theophile Desaguliers, filósofo e brilhante cientista, assistente de Isaac Newton e membro da Royal Society, se reúnem para criar uma entidade central, que estabelecesse regras de reunião e propiciasse a defesa de seus interesses comuns, protestantes e econômicos, e criam a Premier Grand Lodge of England, depois Grande Loja de Londres e Westminster.

     Desaguliers participou da elaboração das “Old Charges” (Antigos Deveres), que estabelecem a ética e algumas regras da Maçonaria Especulativa e com o clérigo James Anderson, também membro da Royal Society, na elaboração das Constituições de Anderson de 1723, que criam os princípios da Ordem.

     Nestes trabalhos foram introduzidos na maçonaria princípios filosóficos do iluminismo, ainda novo, mas bastante corrente na época, como a busca pela verdade, a liberdade de pensamento, a tolerância e a fraternidade universal. Ele também introduziu nos trabalhos maçônicos elementos científicos, simbólicos e morais praticados até nossos dias.

     Desagulies era assistente e divulgador das obras de Isaac Newton, que era uma espécie de semideus da ciência, o mais importante cientista do mundo e presidente, enquanto viveu, da Royal Society, além de exercer cargo político de importância como chefe do tesouro de Sua Majestade.  Essa proximidade foi uma das razões pelas quais atraiu importantes figuras da corte que consolidaram a imagem da Maçonaria como uma instituição respeitável e progressista, que transcende religiões, nacionalidades e classes sociais, unindo homens livres e de bons costumes sob os princípios do amor fraterno e da construção interior.

      Organizações como a maçonaria eram consideradas subversivas desde Cromwell e ainda, devido ao Ato de Traição, era perigoso deixar registros por escrito e talvez por esta razão os documentos escritos dos primeiros anos da Grande Loja de Londres tenham sido queimados entre 1720 e 1721 por ordem de Desagulliers.

     O primeiro Grão-mestre, em 1717, foi o cavalheiro Anthony Sayer.[18] Naquele momento, provavelmente entre os vivas e as cervejas, ninguém imaginava a importância que aquela associação viria a ter no futuro, e entre aqueles presentes no dia da fundação, qualquer um deles poderia se tornar o chefe, intitulado Grão Mestre[19].

     Nos anos de 1718 e 1720 assumiu um funcionário público chamado George Payne, que reúne todos os escritos e documentos referentes à maçonaria para elaboração da futura Constituição e Regulamentos Gerais fornecendo parâmetros para a administração da Grande Loja que seriam posteriormente replicados em quase todas as entidades semelhantes no mundo. Em função da triste experiência dos últimos três séculos na ilha inglesa, e devido a necessidade de se estabelecer tolerância e convívio pacífico na instituição, surge a proibição de discussões de caráter político e religioso.

      Em 1719, entre os dois mandatos de Payne, assume Jean Theóphille Desagulliers, que esteve presente desde o primeiro momento, mas que em função de sua atividade de professor e contínuas viagens não teve condição de assumir o Grão Mestrado anteriormente. No entanto sua participação na Ordem é de fundamental importância.

      Em 1721 torna se Grão Mestre um nobre, Philip, Duque de Montagu, que abre um precedente para a participação da alta nobreza na Ordem. Mas o comando da Grande Loja continuava nas mãos de Desagulliers, que era seu adjunto. Desde então até os dias de hoje todos os Grão Mestres pertencem a alta nobreza

      No mesmo ano, por solicitação de Desagulliers, o Reverendo James Anderson[20], também membro da Royal Society, escreveu uma história de maçons, que foi publicada em 1723 como a Constituição dos Maçons Livres ou a Constituição de Anderson. Uma outra edição foi publicada em 1734 e desde então essa Constituição é o livro mestre da maçonaria. Embora cheia de lendas e metáforas ela é o condutor guia da maçonaria no mundo.

      Para o ano de 1722, foi eleito para Grão-mestre Filipe, Duque de Wharton Este é degradado como maçom em reunião aberta, pouco depois de deixar o cargo de G:M: por conspirar na facção que intentava restaurar a dinastia dos Stuart.

      Existem dúvidas e discussões entre os estudiosos da maçonaria a respeito da data real da fundação da Grande Loja de Londres e Westminster, se seria em 1717 ou 1721, com bons argumentos de cada lado. A própria Grande Loja Unida da Inglaterra e a Loja de Estudo e Pesquisa Quatuor Coronati consideram a data de 1717. Mas como ainda não foram encontrados outros documentos daquela época, que possam corroborar qualquer das opiniões, a polêmica continua.

      Esta é uma visão histórica dos primórdios da maçonaria especulativa na Grã-Bretanha. É impossível colocar num pequeno texto todas as informações relevantes deste período de mudança na sociedade, na Ilha Inglesa e no mundo. Em próximos artigos continuaremos a explorar o tema.

  

Referências Bibliográficas

Ene, Mirella - https://www.freemason.pt/william-schaw-pai-da-maconaria/

https://en.wikipedia.org/wiki/Bill_of_Rights_1689

Levantes Jacobitas - Wikipedia

Gonzales, Ethiel O. C. in Freemason. Pt - Cronologia Maçônica 2ª Parte – Desde 1717 até 1812

Preston, William in https://www.freemason.pt/ História-maçonaria-Inglaterra-

https://www.historiadomundo.com.br/idade-moderna/revolucao-gloriosa.htm

https://www.britannica.com/biography/Christopher-Wren/Construction-of-St-Pauls

https://www.freemason.pt/regulamento-geral-1720-general-regulations/

https://www.freemason.pt/anthony-sayer-o-ilustre-desconhecido-que-foi-o-primeiro-grao-mestre-da-maconaria/

https://academia-lab.com/enciclopedia/philip-wharton-primer-duque-de-wharton/

https://www.wikiwand.com/pt/articles/Charles_Montagu,__Duque_de_Montagu

https://www.masonica.com.br/l/o-que-sao-as-old-charges-e-o-que-elas-significam-para-os-macons-atuais/

Silva, Daniel Neves – Revolução Gloriosa

You Tube - The Great Fire of London: Impact and Reconstruction!

Winetzki, Michael – Maçonaria, de Isaac Newton à Internet

Winetzki, Michael – 1666 – O incêndio de Londres e a origem da maçonaria especulativa

 Notas

[1] (Jacobus, em latim) Por esta razão seus apoiadores se chamavam Jacobitas.

[2] Ato de União, de 01 de maio de 1707, que uniu Inglaterra e Escócia sob o nome de Grâ-Bretanha.

[3] Muitos Clubes de Cavalheiros, uma instituição típica da Inglaterra, funcionavam na época em tabernas, porém em andares ou salas separadas, não propiciando acesso a quem não fizesse parte do grupo. Uma boa razão para isso é que eventualmente se discutia política e esse tema poderia causar problemas com o Ato de Traição.

[4] Cabana ou pousada. Na época era aquela construção, geralmente no fundo de uma obra onde se guardava o material e onde os trabalhadores descansavam ao final da jornada. Na maçonaria francesa foi traduzida por “Loja”, mas na inglesa é “oficina”.

[5] “Gentry”, na Inglaterra, denominava uma classe econômica que não tinha títulos de nobreza, porém enriqueceu com atividades agrícolas ou fornecimento de serviços.

[6] Christopher Wren, (1632 – 1723). Membro da Royal Society, foi arquiteto, astrônomo, matemático e físico, um dos principais responsáveis pela reconstrução de Londres. Sua obra-prima é a Catedral de São Paulo. Foi Grão Mestre dos maçons operativos reconstrutores de Londres pós incêndio de 1666.

[7] Robert Hooke (1635-1703). Membro da Royal Society, foi astrônomo, geólogo, físico, meteorologista e arquiteto. Fez a maior parte dos levantamentos topográficos da cidade e auxiliou o grupo de Wren na reconstrução.

[8] John Evelyn, escritor, membro da Royal Society, funcionário do governo e especialista em jardinagem. Autor de um diário que cobre com detalhes a história da Inglaterra desde 1640 até 1706. Colaborou na reconstrução na parte do paisagismo.

[9] William Schaw (1550-1602) – Mestre de obras do Rei da Escócia cria regulamentos que organizam a profissão de pedreiro e os seus alojamentos.

[10] Grão-Mestre – Era um título honorífico. Só existiam na época os graus de aprendiz (entered apprentice) e companheiro (fellow), que tem origem nas antigas universidades inglesas e que foram adotados por todas as Livery Companies posteriores. O grau de Mestre só foi criado em 1725 e adotado a partir de 1738

[11] A Venerável Companhia dos Maçons é o número 30 na ordem de precedência das Ancient Livery Companies (Companhias de Libré) da City de Londres, conforme estabelecido pelos Vereadores da Cidade em 1515. São associações existentes desde o século XV, responsáveis pelo estabelecimento de regras de operação das atividades que representam.

[12] John Locke (1632-1704) foi filósofo inglês, um dos mais importantes filósofos do empirismo. Exerceu grande influência sobre vários filósofos de sua época, entre eles, George Berkeley e David Hume.

[13] Francis Bacon (1561-1626). Cientista, ensaísta, filósofo, político, alquimista e Rosacruz, é um dos fundadores da revolução científica. Sua obra vai criar a metodologia científica...

[14] Robert Moray (1608 ou 1609 – 1673) foi um soldado, estadista, diplomata, juiz, espião e filósofo natural escocês. . Foi um dos fundadores da Royal Society e seu primeiro presidente. Também foi um dos fundadores da maçonaria moderna na Grã-Bretanha.

[15] Robert Boyle (1627-1691) Um dos fundadores da química moderna. Também foi físico, filósofo, alquimista e inventor. Foi o criador do Invisible College que inspirou a criação da Royal Society.

[16] João Anatalino Rodrigues in FreeMason: https://www.freemason.pt/maconaria-uma-aventura-quixotesca/

[17] Allende, Salvador:

[18]  Anthony Sayer (1672 – 1741), chamado de “gentleman” foi eleito o primeiro Grão Mestre da recém fundada Premier Grand Lodge of England. Não havia ideia do que esta Loja viria a serr no futuro.

[20] Reverendo James Anderson (1679 – 1739), doutor em filosofia, pastor presbiteriano e Venerável de Loja. Seu trabalho foi revisto por uma comissão de “experts” e publicado em 1723.

TEMPLO, SALA DE REUNIÕES - Adilson Zotovici



Na sacra “Sala de Reuniões”

Que de “Templo” aqui é conhecida

Volitam ideias e conotações

De religiões à nossa lida


Diversos ritos, diversas versões

De mesma Ordem reconhecida

E cada qual fazendo alusões

Criando mitos, que aturdida


Basilar esquecer comparações

Inda que a prática cumprida

Seja enfática como orações


Bom canteiro, qual tudo na vida

Enseja ao pedreiro as visões

De igreja, que a ambiência envida !



MAÇONARIA DE OFÍCIO OU OPERATIVA - Paulo Roberto Pinto



É a temática onde são lembradas as associações de artesãos que foram criadas na Idade Média, sendo instituídas para a preservação da Arte Real, entre os mestres construtores do continente europeu.

Associações de artesãos voltados à arte de construir, já existiam templos mais antigos, particularmente no Egito faraônico e na Mesopotâmia (exemplo, a Babilônia). Careciam, elas, todavia, de organização e do senso de coletividade e de fraternidade, que seriam o elixir dos agrupamentos medievais.

A primeira associação organizada e orientada por sólidos estatutos foi a dos “Collegia Fabrorum” romanos, criados no século VI a.C., provavelmente pelo imperador Numa Pompílio. Essas organizações, que apresentavam forte caráter religioso, fornecendo, ao trabalho, o cunho sagrado de um culto às divindades, eram, a princípio, politeístas, tornando-se, posteriormente, monoteístas. Os “collegiati” atuavam em todo o vasto império romano, acompanhando, inclusive, os legionários conquistadores, para reconstruir as cidades arrasadas pelas guerras. Com a queda do Império Romano do Ocidente, elas entraram em decadência, subsistindo pequenos grupos, em algumas províncias, como os “magister comacini” – Mestres de Como.

Sucedendo aos “collegiati”, apareceram, no século VII da era cristã, as Associações Monásticas, formadas, exclusivamente por clérigos. Construtoras de Igrejas e de conventos, essas associações eram originárias, principalmente, do reino dos godos (de onde se originou o estilo gótico, característico de muitas construções medievais).

No século XI surgiram as Confrarias, organizações que, embora constituídas por mestres leigos, sofriam uma enorme influência do clero, do qual aprenderam (através das associações monásticas) a arte da arquitetura e o cunho religioso atribuído aos trabalhos.

Quase na mesma época, no século XII, começaram a florescer as Guildas, características principalmente dos germânicos; elas eram, originalmente, entidades simplesmente religiosas, passando, a partir do século XII, a formar corpos profissionais. Às guildas deve-se o uso da palavra Loja, para designar uma corporação maçônica; a palavra surgiu à primeira vez em um documento das guildas, no ano de 1292.

Depois do século XII, iriam aparecer os Ofícios Francos (também denominados de franca-Maçonaria), formados por grupos privilegiados de artesãos, desligados dos feudos, das obrigações e imposições do poder real e com liberdade de movimentação; esses grupos, dedicados, principalmente, à arte de construir, tinham os seus privilégios concedidos pelo clero (muito forte, na época), sendo totalmente submissos à Igreja e apegados a princípios religiosos.

Na Idade Média, a palavra “franco” designava não só o que era livre, em oposição ao que era servil, mas também, todos os indivíduos ou todos os bens que escapavam à servidão e aos direitos senhoriais.

Essa Maçonaria de Ofício foi o germe inicial da moderna Maçonaria, onde os homens não são construtores por profissão, mas construtores, simbolicamente, do templo moral e social da humanidade, segundo a própria definição de Maçonaria.



janeiro 31, 2026

UMA ERA DE MODERNISMO COM CRITÉRIO, MAS, PROGRESSISTA




Artigo de Bruno Bezerra de Macedo


“Tudo me é permitido, mas, nem tudo me convém”, esclarece Paulo em sua primeira carta aos Coríntios, como que a admoestar a Saulo de Tarso, que ainda em si habita com sua irreverência, sua euforia e, principalmente, com seu proativo stalking sempre direcionado ao que lhe é contrário. Saulo é para Paulo o que o lado negro é para a lua: obscuro, tenebroso e, indiscutivelmente, imprevisível. Todos nós temos um lado escuro, cuja força indelével é domada pelos limites que lhe impomos, pois, ainda que reine licitude, todo feito tem consequências, sendo sábio e sadio aferir se seus efeitos trazem bonança e protagonismo à coletividade da qual se é parte.

Responsáveis socialmente, ao invés de uma imagem idealizada do Brasil, os modernistas traziam uma visão antropofágica retratada numa arte comprometida com a realidade nacional – crítica e, por vezes, "grotesca" da identidade nacional –, “afastando-se da mera cópia dos modelos europeus” – frase que define o cerne da independência cultural brasileira. Proposta por Oswald de Andrade, a antropofagia não significava rejeitar a cultura europeia, mas sim "devorá-la", absorvendo suas técnicas vanguardistas e reprocessando-as com elementos nativos (indígenas, africanos e populares) para o ciese do (i)novo – autêntico e original – permanente desde então no Brasil.

Os modernistas revolucionam a literatura brasileira, permitindo que ela passasse de uma "mera herança cultural" para uma "composição cultural" autônoma. Liderado por figuras como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, o movimento buscou romper com o academicismo, o parnasianismo e a dependência estética de Portugal e da França. Houve uma forte valorização da identidade brasileira, da língua coloquial (o "português falado no Brasil" em vez do padrão lusitano), das lendas, da fauna, da flora e da temática social brasileira. Especialmente com a Geração de 30, a literatura mergulhou nos problemas sociais do Nordeste e de outras regiões.

O Estado Novo (de Vargas) auroresceu os anos 30, valorizando o modernismo, mas, depurado de suas experiências mais radicais, transformando-o em símbolo oficial do nacionalismo cívico. Aproveitou-se do conceito de miscigenação (influenciado por Gilberto Freyre) e fomentou a ideia de união nacional, transformando elementos da cultura popular, como o samba e o futebol, em símbolos oficiais do país. O modernismo é (desde sempre) uma ferramenta cultural que dialoga com as estruturas autoritárias e nacionalistas, não só da Era Vargas, e agindo constantemente como mediador, apoiando desde o nacionalismo varguista, enquanto a arte oficial focada na ordem, pátria e no trabalho, até a construção da identidade brasileira como a temos hoje.

Justiça seja feita, o positivismo, forte na maçonaria brasileira e no Exército, influencia a busca por uma nova ordem social e cultural, alinhando-se com o desejo de renovação dos modernistas, a pleno vapor na Era Vargas. A Maçonaria, no Estado Novo, atuou no bastidor político e educacional para a "modernização educativa" do Brasil, através da defesa da educação laica e racional. Embora não haja um registro unânime sobre quais modernistas eram maçons ativos, a influência do liberalismo maçônico preparou o terreno intelectual para a aceitação de novas ideias estéticas e filosóficas propostas pelos modernistas, sendo parte da história intelectual brasileira. Ainda assim, cabe destacar entes humanos magníficos como Benjamim Constant – capital intelectual maçônico cativante – que deixaram seu legado glorioso a disposição dos Brasileiros

Embora a Maçonaria seja uma instituição tradicionalmente masculina, muitos maçons apoiaram as causas sufragistas do início do século XX, vendo o voto feminino como uma extensão natural da liberdade civil e da cidadania. Sob este auspício, o Brasil instituiu o voto feminino em 24 de fevereiro de 1932 – a exemplo do Equador que o fez primeiro – por meio do Código Eleitoral promulgado por Getúlio Vargas, que não foi Maçom, porém, era virilmente influenciado por seu pai, Manoel do Nascimento Vargas (Loja Vigilância Fé) e pelos irmãos, Coronel Manoel Viriato Dornelles Vargas (Loja Brasil) e o Coronel Protásio Vargas (Loja Brasil). Quem sai aos seus, não degenera!

Decididamente, a relevância do voto feminino vai muito além do simples ato de depositar uma cédula na urna; ele é o alicerce da democracia moderna e o ponto de partida para a conquista de direitos civis básicos para as mulheres. Antes do sufrágio, as mulheres eram frequentemente consideradas juridicamente incapazes, subordinadas a pais ou maridos e impedidas de participar de decisões públicas. O direito ao voto simbolizou o reconhecimento da mulher como cidadã plena, com voz própria e capacidade de influenciar os rumos da nação, como deve ser! Atualmente, as mulheres são a maioria do eleitorado (cerca de 52,4%), o que as torna a força decisiva na escolha de representantes em todos os níveis.

Uma democracia só é plena quando todos os grupos da sociedade estão representados. O voto feminino permitiu que pautas específicas (saúde da mulher, proteção à infância, equidade no trabalho) entrassem na agenda política. A legislação evoluiu para garantir que pelo menos 30% das candidaturas sejam de um dos gêneros, além de exigir que recursos públicos de campanha e tempo de TV sejam distribuídos proporcionalmente às candidatas. A entrada das mulheres na política pressionou por legislações que antes eram ignoradas. Conquistas como o direito à educação superior e igualdade salarial, dentre outras, são exemplos de leis que foram impulsionadas por essa maior participação e representatividade.

Getúlio Vargas, embora tenha suspendido atividades de maçonaria durante o Estado Novo, promulgou a CLT, concluindo a semeadura de Washington Luiz, que abrira caminho para isto com a criação de Câmara de Mediação. Muitos juristas e políticos influentes na época, maçons ou influenciados por seus ideais de "fraternidade", defendiam a regularização do trabalho para evitar conflitos de classe. Cabendo destacar, Joaquim Pedro Salgado Filho, Primeiro Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio (1932-1934), responsável pela criação da Carteira de Trabalho e das regulamentações sobre férias e jornada. Salgado Filho, maçom dedicado, teve grande participação na Loja Capitular Harmonia, sendo considerado ícone da maçonaria paraense e sustentáculo do jornal maçônico "O Pelicano”.

Orgulhosamente, desde 1943, o Brasil é referência na proteção ao trabalhador devido à robustez de sua legislação trabalhista, especialmente a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que consolidou direitos fundamentais e continua sendo um dos conjuntos de leis mais extensos do mundo.  Sob a regência do nível e do prumo, o direito do trabalho brasileiro é guiado pelo "princípio da proteção" (norma mais favorável ao trabalhador), que visa equilibrar a relação de desigualdade entre patrão e empregado. Plenamente absorvida pela Constituição Federal de 1988, que colocou o trabalho como direito fundamental e fortalecendo a proteção social, as garantias já existentes na CLT foram ampliadas.

A participação da maçonaria na elaboração técnica do direito brasileiro não só é incontestável, como formidável são seus produtos. E no Estado Novo de Vargas isso não foi diferente. O Código de 1940 refletia o caráter técnico e secular, consolidando a autoridade do Estado na aplicação da norma penal, um princípio caro à visão positivista compartilhada por muitos maçons da elite política. Roberto Lyra, renomado jurista brasileiro conhecido como o "Príncipe do Ministério Público" e Grande Orador do Grande Oriente do Brasil (Loja Liberdade e União) foi o principal responsável pela parte do Código Penal que trata das medidas de segurança.

Sendo o terceiro e mais longevo código da história do Brasil, O Código Penal Brasileiro demonstra prodigiosa capacidade de adaptação através de reformas pontuais, mantendo sua Parte Geral técnica, enquanto a Parte Especial evolui sempre que pertinente para acompanhar as mudanças sociais. Funciona hoje como uma "tríade" junto ao Código de Processo Penal e à Lei de Execução Penal, garantindo que o convívio em sociedade seja regido por normas claras e previsíveis. Com o advento da Lei de Execução Penal (1984), o sistema buscou ir além do castigo, focando na reeducação do condenado. Absorvido pela Constituição Federal de 1988, O Código firmou-se como instrumento que operacionaliza princípios constitucionais como a Legalidade (não há crime sem lei anterior) e a Humanidade das penas (proibição de tortura ou penas cruéis).

Sob a tutela modernista avança o Brasil sempre progressista. Além da arte, o ideário modernista influenciou o urbanismo e a arquitetura, culminando em projetos como a construção de Brasília, que ainda hoje estimula a busca por um Brasil moderno, funcional e com identidade própria. tendo “voz” a partir da liberdade de expressão, livre dos condicionamentos trazidos por quem não tem em si a brasilidade nativa, vetores que impulsionam a nação a superar-se diuturnamente, valorizando a língua falada pelo povo, os temas nacionais, o folclore, a cultura popular. ao contestar o tradicional e abraçar a liberdade de estilo, o Modernismo forçou o Brasil a olhar para suas próprias peculiaridades com mais consciência, senso de humor, ironia e, sobretudo, discernimento crítico.   

Discernir me lembra que “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" (1 Coríntios 6:12), significa que, embora o ser humano tenha livre arbítrio para realizar qualquer ação, nem todas as escolhas são benéficas, construtivas ou saudáveis para si, para a família ou para a comunidade. Traz como conceito central a liberdade com responsabilidade, pois, embora o ser humano possua o livre-arbítrio para agir como desejar, a maturidade reside em filtrar essas ações através de dois critérios: Edificação - ação que constrói algo positivo para si ou para o próximo - e Domínio Próprio - A capacidade de não se tornar escravo de seus próprios desejos ou hábitos. É um "choque" de realidade que nos leva à reflexão sobre a "brasilidade".





DEBATE: A SUBLIME.ORDEM EM DECLÍNIO? PARA ONDE VAMOS?

Debate realizado no dia 25 de janeiro na ARLS LUX in TENEBRIS com a mediação do irmão Márcio Gomes e os debatedores Roberto Zardo e Michael Winetzki. Imperdível.



 

PARA ONDE VAMOS ? - Adilson Zotovici




Partida por tirocínio

Até aqui hoje marchamos

Tentaram até seu extermínio

As investidas rechaçamos


Fez valer o predomínio

Por aquilo que lutamos

Que causou até fascínio

Onde quer que labutamos


Artesãos com o domínio

Em destras mãos que exaltamos

Que de outrora o vaticínio

E que agora especulamos 


Do Grande Arquiteto Patrocínio

Na filosofia baseamos

Simbologia,  raciocínio...

Com afeto compartilhamos


Prime agora bom escrutínio

Donde chegamos, indagamos:

A Sublime Ordem em declínio ?...

Para onde vamos ?


PRAZO DE VALIDADE - Newton Agrella



Desnecessário ser tão astuto para perceber que somos contemporâneos de  uma geração tão impermeável que sente falta, mas não procura;

Discute mas não estuda;

Gosta, mas não demonstra;

Tem nas mãos, mas não valoriza; 

Erra demais, mas não se desculpa

E na grande maioria das vezes, perde por deixar a ignorância e a arrogância falarem mais alto

E não adianta sair por aí procurando os culpados.

Essa impermeabilidade que tanto prejudica as relações humanas e acaba por impedir a fluidez do entendimento e o espírito conciliador entre as pessoas, em praticamente todos os segmentos da sociedade, tornou-se um instrumento bélico, onde a luta irrepresável pela sustentação de um ponto de vista, virou "questão de honra" ou uma "piéce de resistance" diante de um objeto de discussão, mesmo que a inteligência, o bom senso e o discernimento sejam solenemente relegados a um segundo plano

Na onda desta nossa geração contemporânea, o que  vale é o que ostenta mais atenção e rende mais discussões, inobstante o fundamento e a consistência de seu significado

Debate-se para vencer, e não para criar novas ideias.

Discute-se para mostrar algum tipo de superioridade e não com o propósito de encontrar solução

Teima-se e persiste-se na manutenção de um argumento, por mais  improcedente que possa ser, sem permitir ou abrir espaço para uma contra-argumentação.

Sejamos justos. 

Na própria maçonaria brasileira a frequente inconsistência e inversão de valores se manifestam neste nosso fragmento de tempo, independente da diversidade de faixa etária ou até mesmo do grau maçônico e sobretudo do nível intelectual de seus membros.

O tão decantado caráter universal da Maçonaria, a cada pouco, sofre alguns atentados ideológicos que ganham singelos codinomes, tais como; Disruptiva,  Executiva, Política, Religiosa, Desmistificada ou seja lá o adjetivo que for, mas que a rigor, constituem-se em  tentativas de descaracterizar a essência filosófica e dialética da Sublime Ordem, sempre em nome de uma ação de modernidade, vanguardismo e transformação.

Mudar é bom, novos ares oxigenam o cérebro, evoluir é a missão, porém antes de tudo isso, aprimorar o nível de consciência humana é o que de mais  valor a Maçonaria nos oferece.

Nada mais eficaz do que, a cada pouco, revisitarmos a nossa Câmara de Reflexão e revermos os nossos conceitos.



janeiro 30, 2026

DO NUMERAL - Heitor Rodrigues Freire


O meu objetivo com esta série de artigos sobre a gramática e seus componentes é lançar um novo olhar sobre as peculiaridades do nosso idioma, o que, para muitos, é algo indigesto.

Desta vez trataremos dos numerais, uma classe gramatical relacionada com os números e as formas como eles contabilizam os elementos numa frase. Os numerais são uma classe de palavras variáveis que expressam quantidade, ordem, multiplicação ou fração de seres e objetos, sendo classificados em cardinais – que indicam uma quantidade exata  (um, cem, mil) – , ordinais –  que indicam ordem ou posição, (primeiro, terceiro, centésimo) –, multiplicativos – que indicam um múltiplo (dobro, triplo, quádruplo) –, fracionários – que indicam divisão ou parte de um todo (meio, terço, quarto) e coletivos – que indicam um conjunto de seres (dúzia, centena). Os numerais podem ser escritos por extenso (um, dois) ou em algarismos (1, 2), e indicam um valor numérico ou posição em uma série.  

Há uma diferença entre número, a ideia abstrata de quantidade, e numeral, que é a palavra ou símbolo que representa o número, a sua representação gráfica. E há também o algarismo, que é o símbolo de um numeral decimal.

Mas o que nos interessa mesmo é a abordagem filosófica, ou seja, quando o numeral transcende a mera contagem, sendo visto como princípio estruturante do universo.

Esse tema mereceu atenção especial de grandes pensadores como Pitágoras, Platão, e, mais recentemente, Carl Jung. 

Para Pitágoras, o número é a arché, o princípio fundamental de tudo: “O cosmos é ordem numérica, harmonia e proporção”.

Já Platão distingue o número sensível (matemático) da ideia numérica (realidade superior e espiritual). O neoplatonismo diz que o número organiza o caos primitivo, sendo um princípio espiritual que tece a ordem cósmica.

Já Jung entende que o número é o arquétipo da ordem e a ponte entre psique e matéria, organizando o caos e ligando o mundo interior ao exterior. 

A filosofia investiga se os números são invenções (abstratos) ou descobertas (reais), e sua relação com a experiência humana e a verdade. 

Na Índia antiga, o súnia (zero/vazio) era um conceito filosófico e numérico, um ponto inicial ou o todo, fundamental para o sistema decimal. 

Filosoficamente, o numeral é muito mais do que um símbolo: é a chave para entender a estrutura do universo, a natureza da realidade e a própria consciência, sendo um conceito que permeia desde a matemática pura até os arquétipos mais profundos da psique humana. 

Assim, fica clara a importância da abordagem filosófica como meio de um entendimento melhor de tudo.

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

A PRÓXIMA CURVA DA VIDA

 


Esta imagem foi feita em 1898, em algum ponto da Rua da Alfândega, no coração do Rio de Janeiro.

O menino se chamava Benício. Tinha uns seis anos, talvez sete, ninguém sabia ao certo — a mãe dizia uma idade, o batistério dizia outra.

O cachorro, todo ossudo e ligeiro, era chamado de Pintado. Por causa das manchas escuras no lombo claro.

A fotografia foi feita por um francês que passava pela cidade com um tripé de madeira e uma daquelas máquinas grandes, de pano preto e pose demorada.

Quis registrar “o espírito popular da capital do império”, segundo ele.

Mas naquele dia, o que ele viu foi só um menino sentado na calçada com um cachorro magrelo dormindo ao lado.

Benício não morava em casa. Dormia embaixo do balcão da quitanda da Dona Assunção, que deixava ele ficar ali contanto que ajudasse a espantar pombo e carregar sacola.

Era rápido, esperto, bom de conversa e ruim de escola — porque nunca tinha entrado numa.

Mas sabia de cor os nomes dos navios no cais, o preço da farinha e o som que o bonde fazia ao virar a esquina da rua do Ouvidor.

Pintado apareceu certo dia, tropeçando entre as rodas de uma carroça.

Tinha só três patas boas, a outra virada pra dentro. Um olho lacrimejava o tempo todo.

Mas abanava o rabo com uma teimosia que só quem já passou fome entende.

Benício dividiu o pão dormido. Depois o osso. Depois a coberta velha.

E pronto. Eram dois.

Andavam juntos, dormiam juntos, mendigavam sombra nos mesmos cantos.

Pintado era pequeno, mas valente. Latia pra qualquer um que se aproximasse de Benício enquanto ele dormia.

E quando o menino tossia à noite, era ele quem lambia seu rosto pra acordá-lo.

O francês tirou a foto e prometeu mandar uma cópia revelada. Nunca mandou.

Mas Dona Assunção, que viu a cena, pediu outra cópia, pagou com uns trocados, e colou a imagem na parede do balcão.

Ficou lá por décadas.

Gente entrava, comprava laranja, olhava a foto e perguntava:

“Quem são?”

E ela respondia:

“São dois que se amavam com fome e silêncio.”

Anos depois, ninguém soube direito pra onde Benício foi.

Dizem que entrou como ajudante num navio estrangeiro.

Dizem que virou estivador no cais de Santos.

Dizem que morreu de febre em Belém.

Pintado ficou um tempo pela rua. Voltava toda noite pra frente da quitanda.

Depois sumiu.

Talvez tenha ido atrás do dono. Talvez tenha cansado.

Ou talvez tenha sido levado por aquele amor que nem a morte separa, só desloca de tempo.

Hoje, a fotografia está guardada num acervo esquecido de imagens antigas.

Amarelada, com fungo nas bordas.

Mas se alguém olhar com calma, ainda vai ver:

o sorriso torto de um menino de rua

e a orelha em pé de um cachorro remendado,

esperando, pra sempre, a próxima curva da vida.

Fonte: Facebook

janeiro 29, 2026

QUANDO A AUSÊNCIA É PRESENÇA E CAMINHO - Rui Calado



Que motivação pode ter um homem de sessenta anos para percorrer centenas de quilómetros e estar apenas duas horas numa reunião maçónica? 

Vista de fora, a pergunta parece legítima, quase prática. 

Vista de dentro, porém, revela outra coisa: a dificuldade de medir o valor do que não é imediato, do que não se traduz em conforto ou descanso.

Aos sessenta anos, o tempo já não se oferece com a generosidade distraída da juventude. 

Cada viagem pesa no corpo, cada ausência se faz sentir em casa. 

Ficam a família, a mesa que se adia, os silêncios partilhados que não se repetem. 

Um homem dessa idade sabe bem o que deixa para trás quando fecha a porta. 

E é precisamente por saber isso que a decisão de partir nunca é leviana.

Ele não vai por fuga, nem por desinteresse pelos seus. 

Vai, muitas vezes, com o consentimento silencioso de quem fica, sustentado por uma compreensão feita de anos, de rotinas partilhadas e de respeito mútuo. 

Há, nesse gesto, uma forma discreta de confiança: a família sabe que aquela ausência tem sentido, mesmo que não precise de ser explicada.

A Maçonaria, para quem a percorreu ao longo de uma vida, deixa de ser um espaço exterior à existência quotidiana. 

Integra-se nela. 

Torna-se parte daquilo que moldou o homem que regressa a casa: mais atento, mais sereno, mais consciente dos seus limites e deveres. 

A viagem não o afasta da família; paradoxalmente, ajuda-o a voltar mais inteiro para ela.

Na Loja, essas duas horas não são apenas tempo ritual. 

São um reencontro com uma fidelidade antiga, com Irmãos que também deixaram algo para trás para ali estar. 

Cada presença é, nesse sentido, um acto de respeito mútuo: ninguém ignora o custo que aquele encontro teve na vida privada de cada um.

Percorrer centenas de quilómetros é, assim, um gesto simples e profundo. 

Não é heroico, nem exibido. 

É um compromisso assumido com lucidez, onde o dever não se opõe ao afecto, mas dialoga com ele. 

O homem que parte sabe que a família é o seu primeiro templo — e talvez por isso trate o segundo com igual reverência.

No regresso, traz consigo o cansaço do corpo e uma quietude diferente no olhar. 

Regressa a casa não como alguém que se ausentou, mas como alguém que cumpriu. 

E nesse equilíbrio frágil entre partir e voltar, entre estar fora e estar presente, constrói-se uma forma madura de fidelidade — à Ordem, à família e a si próprio.