O meu objetivo com esta série de artigos sobre a gramática e seus componentes é lançar um novo olhar sobre as peculiaridades do nosso idioma, o que, para muitos, é algo indigesto.
Desta vez trataremos dos numerais, uma classe gramatical relacionada com os números e as formas como eles contabilizam os elementos numa frase. Os numerais são uma classe de palavras variáveis que expressam quantidade, ordem, multiplicação ou fração de seres e objetos, sendo classificados em cardinais – que indicam uma quantidade exata (um, cem, mil) – , ordinais – que indicam ordem ou posição, (primeiro, terceiro, centésimo) –, multiplicativos – que indicam um múltiplo (dobro, triplo, quádruplo) –, fracionários – que indicam divisão ou parte de um todo (meio, terço, quarto) e coletivos – que indicam um conjunto de seres (dúzia, centena). Os numerais podem ser escritos por extenso (um, dois) ou em algarismos (1, 2), e indicam um valor numérico ou posição em uma série.
Há uma diferença entre número, a ideia abstrata de quantidade, e numeral, que é a palavra ou símbolo que representa o número, a sua representação gráfica. E há também o algarismo, que é o símbolo de um numeral decimal.
Mas o que nos interessa mesmo é a abordagem filosófica, ou seja, quando o numeral transcende a mera contagem, sendo visto como princípio estruturante do universo.
Esse tema mereceu atenção especial de grandes pensadores como Pitágoras, Platão, e, mais recentemente, Carl Jung.
Para Pitágoras, o número é a arché, o princípio fundamental de tudo: “O cosmos é ordem numérica, harmonia e proporção”.
Já Platão distingue o número sensível (matemático) da ideia numérica (realidade superior e espiritual). O neoplatonismo diz que o número organiza o caos primitivo, sendo um princípio espiritual que tece a ordem cósmica.
Já Jung entende que o número é o arquétipo da ordem e a ponte entre psique e matéria, organizando o caos e ligando o mundo interior ao exterior.
A filosofia investiga se os números são invenções (abstratos) ou descobertas (reais), e sua relação com a experiência humana e a verdade.
Na Índia antiga, o súnia (zero/vazio) era um conceito filosófico e numérico, um ponto inicial ou o todo, fundamental para o sistema decimal.
Filosoficamente, o numeral é muito mais do que um símbolo: é a chave para entender a estrutura do universo, a natureza da realidade e a própria consciência, sendo um conceito que permeia desde a matemática pura até os arquétipos mais profundos da psique humana.
Assim, fica clara a importância da abordagem filosófica como meio de um entendimento melhor de tudo.
Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

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