Esta imagem foi feita em 1898, em algum ponto da Rua da Alfândega, no coração do Rio de Janeiro.
O menino se chamava Benício. Tinha uns seis anos, talvez sete, ninguém sabia ao certo — a mãe dizia uma idade, o batistério dizia outra.
O cachorro, todo ossudo e ligeiro, era chamado de Pintado. Por causa das manchas escuras no lombo claro.
A fotografia foi feita por um francês que passava pela cidade com um tripé de madeira e uma daquelas máquinas grandes, de pano preto e pose demorada.
Quis registrar “o espírito popular da capital do império”, segundo ele.
Mas naquele dia, o que ele viu foi só um menino sentado na calçada com um cachorro magrelo dormindo ao lado.
Benício não morava em casa. Dormia embaixo do balcão da quitanda da Dona Assunção, que deixava ele ficar ali contanto que ajudasse a espantar pombo e carregar sacola.
Era rápido, esperto, bom de conversa e ruim de escola — porque nunca tinha entrado numa.
Mas sabia de cor os nomes dos navios no cais, o preço da farinha e o som que o bonde fazia ao virar a esquina da rua do Ouvidor.
Pintado apareceu certo dia, tropeçando entre as rodas de uma carroça.
Tinha só três patas boas, a outra virada pra dentro. Um olho lacrimejava o tempo todo.
Mas abanava o rabo com uma teimosia que só quem já passou fome entende.
Benício dividiu o pão dormido. Depois o osso. Depois a coberta velha.
E pronto. Eram dois.
Andavam juntos, dormiam juntos, mendigavam sombra nos mesmos cantos.
Pintado era pequeno, mas valente. Latia pra qualquer um que se aproximasse de Benício enquanto ele dormia.
E quando o menino tossia à noite, era ele quem lambia seu rosto pra acordá-lo.
O francês tirou a foto e prometeu mandar uma cópia revelada. Nunca mandou.
Mas Dona Assunção, que viu a cena, pediu outra cópia, pagou com uns trocados, e colou a imagem na parede do balcão.
Ficou lá por décadas.
Gente entrava, comprava laranja, olhava a foto e perguntava:
“Quem são?”
E ela respondia:
“São dois que se amavam com fome e silêncio.”
Anos depois, ninguém soube direito pra onde Benício foi.
Dizem que entrou como ajudante num navio estrangeiro.
Dizem que virou estivador no cais de Santos.
Dizem que morreu de febre em Belém.
Pintado ficou um tempo pela rua. Voltava toda noite pra frente da quitanda.
Depois sumiu.
Talvez tenha ido atrás do dono. Talvez tenha cansado.
Ou talvez tenha sido levado por aquele amor que nem a morte separa, só desloca de tempo.
Hoje, a fotografia está guardada num acervo esquecido de imagens antigas.
Amarelada, com fungo nas bordas.
Mas se alguém olhar com calma, ainda vai ver:
o sorriso torto de um menino de rua
e a orelha em pé de um cachorro remendado,
esperando, pra sempre, a próxima curva da vida.
Fonte: Facebook

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