Alexandre de Gusmão
Uma tradição invisível da política externa nacional
Um artigo de Helio P. Leite
Durante mais de dois séculos, a diplomacia brasileira foi conduzida por homens, que além de estadistas, juristas e políticos, partilhavam uma mesma formação simbólica, ética e intelectual: a Maçonaria. Essa presença, pouco explorada pela historiografia tradicional, revela a existência de uma tradição invisível que atravessa o período joanino, o Império, a República e o sistema internacional do século XX.
Não se trata de sugerir uma diplomacia secreta ou conspiratória. Trata-se de reconhecer que a Maçonaria funcionou, no Brasil, como uma escola informal de formação de elites, fornecendo linguagem comum, redes de confiança e uma ética no serviço público que moldaram profundamente o ethos do Itamaraty.
Desde antes da Independência, essa influência é perceptível. Alexandre de Gusmão, formulador do princípio do uti possidetis, lançou as bases da diplomacia territorial portuguesa na América. Poucas décadas depois, José Bonifácio de Andrada e Silva, patrono da Independência e maçom ativo, estruturou simultaneamente o novo Estado e sua política externa.
No primeiro reinado e no período regencial, figuras como Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes, Marquês de Abrantes; José Clemente Pereira; Pedro de Araújo Lima, Marquês de Olinda; Honório Hermeto Carneiro Leão, Marquês de Paraná; e Paulino José Soares de Souza, Visconde de Uruguai, consolidaram uma diplomacia de Estado fundada no legalismo, na centralização institucional e na defesa da soberania.
No Segundo Reinado, a presença maçônica na alta diplomacia tornou-se particularmente densa. O Livro Maçônico do Centenário, publicado pelo Grande Oriente do Brasil em 1922,lista diversos diplomatas maçons que ocuparam os principais postos europeus:
Francisco Gê de Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, ministro em Londres e Lisboa;
Marcos Antônio de Araújo, Marquês de Itajubá, ministro em Paris, Londres e Roma:
Antônio de Menezes de Vasconcelos Drummond, enviado em missões do Prata;
José Francisco de Paula Cavalcanti, diploma e senador liberal;
Antônio Carlos Ribeiro de Andrada;
Pedro Manoel de Toledo;
E José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, um dos pilares da diplomacia Imperial.
Essa lista demonstra que a presença maçônica não foi episódica, mas estrutural e institucional, sobretudo nos grandes centros diplomáticos europeus do século XIX.
Com a transição para a República, essa tradição não se rompeu – transformou-se.
Quintino Bocaiuva, primeiro ministro das Relações Exteriores da República, inaugurou a chancelaria republicana. Ao seu lado, Américo de Campos, Lopes Trovão e Lauro Müller garantiram a continuidade institucional em meio à mudança de regime.
Pouco depois, Joaquim Nabuco, lançou as bases da relação estratégica com os Estados Unidos, inaugurando a diplomacia moderna em Washington. Rui Barbosa, na Conferência de Haia de 1907, projetou o Brasil como potência jurídica ao defender a igualdade soberana dos Estados.
No início do século XX, o Barão do Rio Branco, talvez o maior chanceler da história nacional, consolidou as fronteiras brasileiras exclusivamente por meios pacíficos, transformando o Itamaraty em uma instituição permanente de Estado.
A linhagem prosseguiu com figuras como Arthur Jaceguai, Alberto Gracie, Alexandre Manoel Vieira de Carvalho e, sobretudo, Osvaldo Aranha, responsável por inserir o Brasil no núcleo decisório do pós – guerra e por presidir a sessão histórica da ONU que aprovou a criação do Estado de Israel.
Em todos esse nomes, ao longo de mais de duzentos anos, reaparece um mesmo padrão: formação jurídica; defesa do direito internacional: valorização da negociação pacífica: busca da autonomia nacional: continuidade institucional; e universalismo moderado.
São princípios que coincidem, de modo notável, com os valores clássicos da Maçonaria: liberdade, igualdade, fraternidade, tolerância, legalismo e progresso moral.
A Maçonaria não controlou a política externa do Brasil, mas ajudou a formar os homens que a conduziram.
Ao funcionar como ambiente duradouro de sociabilidade e formação de elites, contribuiu para moldar não apenas quadros técnicos, mas um ethos diplomático: uma maneira própria de pensar o Brasil no mundo.
Por isso, a história da diplomacia brasileira não pode ser plenamente compreendida sem considerar essa tradição invisível. Não por conspiração. Por formação.

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