Entre a nostalgia do passado e os desafios institucionais do presente
Artigo de Helio P. Leite
Há um jargão repetido com frequência, inclusive por maçons, segundo o qual a Maçonaria no Brasil “vive das glórias do passado”, não produz mais líderes ou estadistas e deixou de integrar a elite estratégica do país. A afirmação embora contenha elementos de verdade, é simplificadora e, em certa medida, injusta com a própria história e com a função contemporânea da Ordem.
É inegável que a Maçonaria não ocupa hoje o espaço político-institucional que exerceu no século XIX e nas primeiras décadas da República. Naquele período, ela foi um dos raros ambientes de formação intelectual, filosófica e política disponíveis às elites dirigentes. Foi ali que se articularam projetos de Independência, de organização do Estado, da abolição e da República. Esse ciclo histórico, contudo, pertence a um Brasil em formação.
O erro começa quando se exige da Maçonaria do século XXI o mesmo papel da Maçonaria do século XIX. As sociedades modernas são estruturalmente diferentes. Hoje, a formação das lideranças é distribuída entre universidades, partidos políticos, instituições jurídicas, centros de pesquisa, igrejas, imprensa e organizações civis. Nenhuma ordem iniciática, por mais respeitável que seja, detém mais o monopólio da formação das elites.
Dizer que a Maçonaria “não produz mais líderes” é confundir ausência de heróis míticos com ausência de influência social. A Ordem continua formando magistrados, professores, militares, diplomatas, gestores públicos, empresários e líderes comunitários. A diferença é que essa influência tornou-se mais silenciosa, difusa e descentralizada – característica típica das sociedades maduras.
Também é preciso distinguir poder visível de influência duradoura. A Maçonaria não é mais uma elite hegemônica de governo. Mas continua sendo uma elite associativa, moral e histórica, com capacidade de formar redes de confiança, promover filantropia, educação e valores cívicos. Seu capital simbólico permanece relevante em muitas regiões do país.
Outro equívoco recorrente está em supor que a missão da Maçonaria seja fabricar estadistas. Nunca foi. Sua vocação essencial é formar homens melhores, mais conscientes de seus deveres, mais preparados para servir à sociedade – seja como governantes, juízes, professores, pais de família ou cidadãos. Quando cumpre essa função, ela já realiza sua finalidade mais profunda.
Há ainda um aspecto pouco debatido, mas recorrente nos bastidores da Ordem. Muitos maçons dirigem críticas severas aos seus Grão-Mestres pelo fato de não se manifestarem publicamente, em nome da Maçonaria, contra os desmandos políticos, os escândalos de corrupção e abusos de poder que afligem o país. Espera-se deles uma postura semelhante à dos líderes maçônicos do século XIX, quando a Ordem atuava como força política organizada.
Essas críticas, contudo, partem muitas vezes de uma percepção anacrônica da realidade. São maçons saudosistas, que acreditam que a Maçonaria ainda detém, no Brasil contemporâneo, o mesmo poder político que exerceu nos tempos da Independência, da Abolição ou da Primeira República. Ignoram que o sistema político atual é regido por outras lógicas institucionais, jurídicas e midiáticas, nas quais uma potência maçônica já não possui legitimidade formal nem espaço institucional para agir como ator político direto.
Mais do que omissão, o silêncio dos Grão-Mestres costuma ser expressão de prudência institucional. Em um Estado democrático de direito, cabe às instituições maçônicas respeitar a separação entre sociedade civil organizada e poder constituído, evitando comprometer a Ordem em disputas partidárias ou ideológicas que poderiam fragmentá-la internamente.
Talvez caiba, neste ponto, uma responsabilidade pedagógica aos próprios Grão-Mestres. Não para assumir um protagonismo político que já não lhes pertence, mas para esclarecer, com franqueza, aos Veneráveis Mestres e às Lojas de suas jurisdições em que patamar político efetivo hoje se encontram as potências maçônicas no campo do poder. Menos do que alimentar expectativas irreais, é preciso educar para a compreensão do novo lugar institucional da Maçonaria na sociedade brasileira.
Há ainda um dado incontornável: instituições irrelevantes não sobrevivem por mais de dois séculos. A Maçonaria brasileira atravessou Império, República, ditaduras e democracias. Sobreviveu a perseguições, divisões e crises internas. Essa longevidade não se explica apenas por nostalgia, mas por uma capacidade real de adaptação e renovação.
O problema, portanto, não é a existência de um passado glorioso. O problema seria transformar esse passado em refúgio, em vez de responsabilidade. A grande questão contemporânea não é se a Maçonaria teve importância histórica – isso é um fato -, mas como ela traduz esse legado em missão presente.
Talvez não seja mais forjadora de heróis nacionais. Mas ainda pode – e deve – ser escola permanente de ética, civismo e compromisso social. Se não governa mais a nação, ainda pode ajudar a formar melhores cidadãos para governá-la.
Ness sentido, a crítica que afirma que a Maçonaria vive apenas das glórias do passado revela menos sobre a instituição e mais sobre a necessidade de redefinir, com lucidez e coragem, o seu papel no Brasil do nosso tempo.

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