junho 11, 2021

O MAÇOM MOZART




Wolfgang Amadeus Mozart é talvez o maçom mais famoso. Para se ter uma ideia, se se fizer uma busca no Google utilizando a palavra chave Mozart, encontra-se nada mais nada menos do que 42 milhões de páginas referenciadas; pesquisando nestes resultados com a palavra chave maçom, obtém-se, para o conjunto Mozart maçom o número de 213.000 páginas referenciadas; se, em vez de maçom, efetuarmos, nos resultados obtidos com a pesquisa Mozart, outra pesquisa, agora com a palavra chave mason, em inglês, para este conjunto Mozart mason o número de páginas referenciadas sobe para 1.030.000!

Em resumo, não é segredo para ninguém que Mozart foi maçom e mesmo os mais distraídos podem facilmente tropeçar com essa informação na Rede. É assim evidente que uma galeria de Maçons célebres não pode deixar de conter um texto sobre o mais célebre dos célebres maçons! Eis então um breve retrato do maçom W. A. Mozart.

Mozart tinha onze anos quando, atingido pela varíola, foi tratado por um médico vienense de apelido Wolff, que era um conhecido maçom. Em agradecimento pela sua cura, Mozart compôs uma melodia que ofereceu ao Dr. Wolff, que intitulou An die Freude (À alegria). O texto musicado era claramente de inspiração maçônica e o jovem Mozart não poderia ter composto a melodia sem conhecer o seu sentido.

Um ano mais tarde, Mozart travou conhecimento com o célebre Dr. Messmer, também maçom.

Aos dezasseis anos de idade, Mozart compôs O heiliges Band (Ó Sagrada Escritura), sobre um texto de Lens existente num conjunto de textos maçônicos, reservado apenas aos maçons e a que, naturalmente, era suposto nenhum profano ter acesso...

Um ano mais tarde, um maçom importante, von Gebler, encomendou a Mozart dois coros e cinco entreatos para acompanhar um drama heróico, Thamos, rei do Egipto (prefigurando o que mais tarde virá a ser uma ópera intitulada A Flauta Mágica).

Ou seja, entre os 11 e os 17 anos o contato de Mozart com maçons e a sua forma de pensar e ver o Mundo foi frequente.

Em 1783, tinha então Mozart 27 anos de idade, o famoso Gemmingen, que conhecia o compositor, instala a sua própria Loja Maçônica em Viena e convida Mozart para se juntar a ela e aí exercer o ofício de Mestre da Harmonia. Mozart reflete. Em Novembro do ano seguinte, apresenta a sua candidatura à Loja Zur Wohlthätigkeit (Beneficência). Foi aí iniciado em 14 de Dezembro de 1784.

A 7 de Janeiro de 1785 (apenas 24 dias depois da sua iniciação!), Mozart é, na Loja Zur wahren Eintracht (Verdadeira Concórdia), passado ao grau de Companheiro. A 10 de Janeiro, termina o Quarteto de Cordas em Lá Maior (K 464), no qual o movimento Andante se refere ao ritual de Iniciação Maçônica. A 13 de Janeiro (6 dias depois da passagem a Companheiro, 30 dias depois da sua Iniciação!), Mozart é elevado ao grau de Mestre. Quatro dias mais tarde, compõe um Quarteto de cordas em Dó Maior (K 465), que se refere ao grau de Companheiro. Em Março de 1785, termina o Concerto em Dó Maior (K 467), cujo Andante faz claramente alusão ao terceiro grau, o de Mestre.

A 6 de Abril de 1785, participa na cerimônia de Iniciação do seu próprio pai, Leopold Mozart.

Mozart participa em inúmeras reuniões de Loja e compõe numerosas obras destinadas a serem tocadas em sessão. Visita as Lojas Zu den drei Adlern (Três Águias) e Zur gekrönten Hoffnung (Esperança Coroada).

Entretanto, a doença que lhe virá a ser fatal (o síndroma de Schönlein-Henoch) progride. Mozart compõe as suas três grandes obras com simbologia maçônica: A Clemência de Tito, a Flauta Mágica e o Requiem.

A morte de Mozart origina uma reunião de exéquias fúnebres de seus Irmãos. Uma oração fúnebre proferida na ocasião foi impressa. Hoje, dela resta apenas um exemplar. Eis a sua tradução:

O Grande Arquitecto do Universo acaba de retirar à nossa Cadeia Fraternal um dos elos que nos era mais caro e mais valioso. Quem não o conhecia? Quem não amou o nosso tão notável Irmão Mozart? Há poucas semanas ainda, ele encontrava-se entre nós, glorificando com a sua encantadora música a inauguração deste Templo. Quem de nós imaginaria que seria tão rapidamente arrancado do nosso seio? Quem poderia saber que três semanas depois choraríamos a sua morte? É o triste destino imposto ao homem, de deixar a vida deixando a sua obra inacabada, e tão excelente ela é. Mesmo os réis morrem deixando à posteridade as suas intenções inacabadas. Os artistas morrem depois de terem devotado as suas vidas a melhorar a sua arte para atingirem a perfeição. A admiração de todos acompanha-os ao túmulo.No entanto, se os povos choram, os seus admiradores não tardam, muito frequentemente, a esquecer-se deles. Os seus admiradores talvez, mas não nós, seus Irmãos! A morte de Mozart é para a arte uma perda irreparável. Os seus dons, reconhecidos desde a infância, tinham feito dele uma das maravilhas deste tempo. A Europa soube-o e admirou-o. Os príncipes gostaram dele e nós, nós poderíamos chamá-lo: “meu irmão”. Mas se é óbvio honrar o seu gênio, não nos devemos esquecer de comemorar a nobreza do seu coração. Foi um membro assíduo da nossa Ordem. O seu amor fraternal, a sua natureza inteira e devotada, a sua caridade, a alegria que mostrava quando beneficiava um de seus irmãos com a sua bondade e o seu talento, tais eram as suas imensas qualidades, que nós louvamos neste dia de luto. Era simultaneamente um marido, um pai, o amigo de seus amigos e o irmão de seus irmãos. Se tivesse tido fortuna, faria todos tão felizes como ele desejaria.

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Fonte A Partir da Pedra

RITO ESCOCÊS DO BRASIL, A ORIGEM - Ailton Pinto de Trindade Branco




              O Rito Escocês do Brasil aparece pela primeira vez nos rituais dos três graus simbólicos criados em 1927 pelo Supremo Conselho do Grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceito da Maçonaria para a República Federativa do Brasil, presidido por Mário Behring, e transmitidos à Grande Loja do Rio de Janeiro através de tratado entre as duas Obediências. Foram colocados em execução em 1928 nas Grandes Lojas brasileiras fundadas após a separação entre Supremo Conselho e Grande Oriente do Brasil. Substituíram os rituais do REAA das Lojas Simbólicas do GOB.

              O Rito Escocês do Brasil foi uma invenção ritualística circunstancial. Não é o mesmo que Rito Escocês Antigo e Aceito, embora as Grandes Lojas brasileiras, por imposição do Supremo Conselho, empreguem indevidamente essa denominação para o seu ritual escocês. Indevidamente porque os procedimentos que constituem os primeiros rituais do REAA, a partir de 1804, na França, são diferentes do que se faz no Brasil. O REAA praticado no século 19 nos graus simbólicos das Lojas Capitulares do Grande Oriente do Brasil, portanto antes do surgimento das Grandes Lojas, é semelhante ao que consta nos primeiros rituais franceses e diferente do Rito Escocês do Brasil.

              Em 1927, as chamadas Lojas Capitulares do REAA abrangiam os graus 1 ao 18 e eram comandadas pelo Grande Oriente do Brasil. O Supremo Conselho jurisdicionava os graus 19 ao 33.    

              Na nova estrutura jurisdicional do REAA do começo dos anos 1900, decidida em convenção mundial dos Supremos Conselhos, as Lojas Capitulares desapareciam; os três primeiros graus ficavam sob responsabilidade de uma Obediência que pode ser uma Grande Loja ou Grande Oriente e os 30 graus restantes sob o comando de outra Obediência, o Supremo Conselho do Grau 33. Essa reformulação na divisão jurisdicional dos 33 graus do REAA não teve receptividade pacífica no Brasil. O Grande Oriente inicialmente aceitou, depois recuou e rejeitou o acordo. O conflito provocou desdobramentos político-administrativos, culminando com a ruptura das relações entre as Potências Maçônicas GOB e Supremo Conselho.

              O Supremo Conselho, tendo se separado do Grande Oriente do Brasil, precisou de novas Lojas Simbólicas para os três primeiros graus dos 33 do REAA. Por isso, criou as Grandes Lojas. Sobre os rituais a ser adotados, tudo levava a crer que seriam os mesmos, conhecidos do Supremo Conselho desde a época da convivência amistosa com o Grande Oriente. Bastava recomendar às Grandes Lojas por ele criadas os mesmos rituais para as suas Lojas Simbólicas.  

              Mas o Supremo Conselho não prestigiou a lógica operacional e nem a ética com os maçons do Rito. Elaborou um ritual novo que gerou um rito diferente nos três primeiros graus, constituído de procedimentos misturados do Rito Moderno, do Rito de Heredom, do Rito de York e de alguns graus superiores do próprio REAA. Deve ter tido suas razões para desprezar rituais consagrados. O Supremo Conselho como qualquer outra Potência Maçônica pode criar um rito novo. O que não deve fazer é criar um rito novo e dar a ele o nome de um rito antigo, tradicional, cujos rituais são conhecidos no mundo inteiro. O ritual criado pelo Supremo Conselho para os graus simbólicos das Grandes Lojas brasileiras é muito diferente do REAA original trazido para o Brasil pela primeira vez. Mesmo assim, premeditadamente, foi dado ao conjunto de novos cerimoniais o mesmo nome do rito Escocês Antigo e Aceito criado em 1801 nos Estados Unidos da América. O Supremo Conselho rasgou parte do seu passado ritualístico obrigando as Grandes Lojas a adotarem o nome do REAA embora seus rituais do simbolismo não contenham os procedimentos desse Rito. O Supremo Conselho nunca explicou porque agiu dessa forma. Presentemente, sabe-se que as pesquisas realizadas pela Oficina de Restauração do REAA sobre os rituais originais de 1804 e a comparação com os rituais designados pelo Supremo Conselho, desencadearam surpresa em todo o Brasil e alguns constrangimentos. Maçons tidos como conhecedores do REAA, palestrantes convictos e aplaudidos, passaram a ser questionados sobre afirmativas produzidas a respeito de procedimentos mostrados e interpretados como sendo do REAA e que agora se sabe que não são.

              Assim nasceu o Rito Escocês do Brasil, sistema ritualístico que apenas os maçons brasileiros conhecem.

              A obra da maçonaria celebra a repetição de si mesma e do seu próprio destino à luz dos sucessivos elementos que são adicionados a cada nova descoberta de acontecimentos históricos desenterrados do passado. Cada um desses fatos clareia a visão para interpretações sobre condutas da coletividade maçônica, as quais têm oscilado entre grandes feitos solidários com elevados humanitarismos e atitudes como alterar rituais apenas para alimentar disputas políticas internas. Embora recomendado nos trabalhos em Loja o respeito à inalterabilidade do desenvolvimento dos rituais em vigor, os caciques das diferentes administrações modificam os rituais de suas Obediências sem muito pudor. O exemplo na prática dos rituais brasileiros não recomenda a teoria dos princípios maçônicos.


Texto: Ailton Pinto de Trindade Branco - Presidente da Oficina de Restauração do REAA - Novembro/2014