janeiro 16, 2026

A GRANDE FARSA DO REAA - Almir Sant’Anna Cruz



Ao contrário do que induz o nome, o REAA não surgiu na Escócia e, quando de seu aparecimento, todos os Estados da Grã-Bretanha trabalhavam com Rituais ingleses.

Apesar de se intitular Escocês, o REAA surgiu na França, a partir de modificações realizadas nos Rituais ingleses.

Atribui-se ao ano de 1725 a introdução da Maçonaria na França, por iniciativa de alguns Maçons ingleses da maior distinção, seguindo o Ritual, as práticas e os costumes adotados pela Grande Loja da Inglaterra. Não havia mais do que os três Graus Simbólicos, suas reuniões eram celebradas em tavernas, como em Londres, e não se discutia política, filosofia e tampouco se ocupavam de assuntos polêmicos.

As tavernas de então eram ricas cervejarias providas de quartos, cabeleireiros, salões de leitura e salas de reuniões. Depois da Sessão Ritualística, realizada em uma das salas de reuniões, os Maçons realizavam seu banquete, igualmente ritualístico. 

Em 01/06/1726 dois lordes britânicos, Irmãos Derwentwater e Hanouester, fundaram a primeira Loja em solo francês de que se tem registro, na Adega Au Louis D’Argent, de propriedade do inglês Hure, situada na Rua dos Açougueiros (Rue de Bucherie).

Na França, provavelmente em razão de uma crescente avidez por novidades, de uma maior politização dos Maçons franceses, da necessidade de se dar maior destaque às classes governantes, enfim, pelas conhecidas características latinas de seu povo, os Rituais ingleses foram sofrendo alterações, novas práticas foram incorporadas, novos conceitos foram introduzidos, surgindo então uma infinidade de novos Ritos, a maioria com mais do que os três Graus tradicionais da Maçonaria inglesa.

Em 1758, um grupo de Maçons conhecedores de várias tradições místicas, gnósticas, templárias, egípcias e rosacrucianas, fundaram em Paris o Conselho de Imperadores do Oriente e do Ocidente e, quatro anos depois, em 21/09/1762, foi elaborada a Constituição de Bordeaux, que introduzia um Rito de 25 Graus, o Rito de Perfeição ou Heredon.

As Grandes Constituições de 01/05/1786 cuja elaboração foi atribuída falsamente a Frederico II – O Grande, Rei da Prússia, acrescentou mais 8 Graus, totalizando assim 33 Graus e fixando definitivamente as bases do R.’.E.’.A.’.A.’. 

Ficam agora 3 grandes questões para a nossa análise:

1) E por que se diz que essa Constituição foi atribuída falsamente a Frederico II, rei da Prússia? No preâmbulo da Constituição consta que ela teria sido instituída em Berlim em 1/5/1786, com a presença de “Sua Augusta Majestade Frederico II, Rei da Prússia e Soberano Grande Comendador ...”

Ocorre que na época Frederico II, que era Maçom desde pelo menos 1740, estava seriamente doente, entrevado e semi-inconsciente durante os 7 meses que antecederam o seu falecimento em 17/8/1786, três meses depois da data em que se disse estar ele presente na sessão em que se instituiu a Constituição.  

Ora, atribuir-se essa nova Constituição, totalmente desconhecida no Novo Mundo, ao Rei da Prússia, lhe conferira um caráter de nobreza, relevância e “autenticidade”.  

2) E quem levou para a América esse REAA, com os 25 graus franceses do Rito de Heredon ou Perfeição com o acréscimo de 8 graus atribuídos falsamente, como já dissemos, a Frederico II Rei da Prússia?

Dois Maçons franceses residentes na colônia francesa de São Domingos e Antilhas, o Conde Alexandre François de GRASSE-TILLY e seu sogro Jean Baptiste Marie DELAHOGUE, que se mudaram em 1793 para Charleston, na Carolina do Sul, chegando a fundar nessa cidade, em 1795, a Loja La Candeur, trabalhando em francês e com Delahogue como Venerável Mestre.

3) E quem foram os fundadores, em 31/05/1801, do primeiro SC do REAA, sediado em Charleston, na Carolina do Sul?

Cinco dias antes da fundação, Grasse-Tilly, se intitulando Grau 33 de um pseudo SC das Índias Ocidentais Francesas conferiu o Grau 33 aos nove fundadores do SC de Charleston. 

Embora Grasse-Tilly não apareça na relação dos 9 fundadores, como foi ele o idealizador desse SC e quem conferiu o Grau 33 aos fundadores, vamos aqui considerá-lo como o décimo fundador.

O interessante nessa fundação do primeiro SC do REAA nos Estados Unidos é que somente um dos fundadores era americano e os outros 9 eram europeus, a saber:

2 franceses, 2 ingleses, 2 irlandeses, 1 polonês, 1 dinamarquês, 1 tchecoslovaco, sendo que 4 deles eram judeus.

Três anos depois de Grasse-Tilly ter fundado o primeiro SC do REAA nos Estados Unidos, o mesmo Grasse-Tilly fundou o segundo, em Paris, na França, em 22/9/1804.

Em seguida vieram o SC jurisdição norte dos Estados Unidos em 5/8/1813, o dos Países Baixos em 11 ou 12/3/1817, o da Irlanda em 11/6/1826 e o do Brasil fundado em 12/11/1832, através de Carta Patente do SC dos Países Baixos emitida em 12/3/1829, autorizando Montezuma a fundar um SC no Brasil.

O SC do Brasil por muito tempo esteve ligado ao GOB, com o GM acumulando o de Soberano Grande Comendador do Rito.

Em 1927, Mário Behring, seguindo normas internacionais, separou o SC do GOB e provocou a secessão que deu origem às Grandes Lojas estaduais.

Modernamente, dois SCs se dizem sucessores do SC fundado por Montezuma, um sediado na Praça Seca em Jacarepaguá e outro no Campo de São Cristóvão. Rios de tinta já se derramou sobre o assunto, com historiadores maçônicos assumindo um ou outro lado, mas o fato é que o de Jacarepaguá é o reconhecido internacionalmente.

Com a fundação das GGLL, o REAA no Brasil, nos seus 3 gruas simbólicos, passaram a ter duas distintas vertentes: 

1) A do GOB, seguindo práticas originárias da França; e 

2) A das GGLL, misturando práticas francesas com anglo-saxônicas. 

Desde a sua introdução no Brasil, o REAA sofreu fortes influências dos Ritos Adonhiramita e Moderno, seus antecessores, e posteriormente, com a fundação das GGLL, também do Ritual de Emulação inglês e do Rito de York americano.

Pode-se dizer que no Brasil pratica-se o Rito Escocês Antigo e Aceito Brasileiro.

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