janeiro 29, 2026

QUANDO A AUSÊNCIA É PRESENÇA E CAMINHO - Rui Calado



Que motivação pode ter um homem de sessenta anos para percorrer centenas de quilómetros e estar apenas duas horas numa reunião maçónica? 

Vista de fora, a pergunta parece legítima, quase prática. 

Vista de dentro, porém, revela outra coisa: a dificuldade de medir o valor do que não é imediato, do que não se traduz em conforto ou descanso.

Aos sessenta anos, o tempo já não se oferece com a generosidade distraída da juventude. 

Cada viagem pesa no corpo, cada ausência se faz sentir em casa. 

Ficam a família, a mesa que se adia, os silêncios partilhados que não se repetem. 

Um homem dessa idade sabe bem o que deixa para trás quando fecha a porta. 

E é precisamente por saber isso que a decisão de partir nunca é leviana.

Ele não vai por fuga, nem por desinteresse pelos seus. 

Vai, muitas vezes, com o consentimento silencioso de quem fica, sustentado por uma compreensão feita de anos, de rotinas partilhadas e de respeito mútuo. 

Há, nesse gesto, uma forma discreta de confiança: a família sabe que aquela ausência tem sentido, mesmo que não precise de ser explicada.

A Maçonaria, para quem a percorreu ao longo de uma vida, deixa de ser um espaço exterior à existência quotidiana. 

Integra-se nela. 

Torna-se parte daquilo que moldou o homem que regressa a casa: mais atento, mais sereno, mais consciente dos seus limites e deveres. 

A viagem não o afasta da família; paradoxalmente, ajuda-o a voltar mais inteiro para ela.

Na Loja, essas duas horas não são apenas tempo ritual. 

São um reencontro com uma fidelidade antiga, com Irmãos que também deixaram algo para trás para ali estar. 

Cada presença é, nesse sentido, um acto de respeito mútuo: ninguém ignora o custo que aquele encontro teve na vida privada de cada um.

Percorrer centenas de quilómetros é, assim, um gesto simples e profundo. 

Não é heroico, nem exibido. 

É um compromisso assumido com lucidez, onde o dever não se opõe ao afecto, mas dialoga com ele. 

O homem que parte sabe que a família é o seu primeiro templo — e talvez por isso trate o segundo com igual reverência.

No regresso, traz consigo o cansaço do corpo e uma quietude diferente no olhar. 

Regressa a casa não como alguém que se ausentou, mas como alguém que cumpriu. 

E nesse equilíbrio frágil entre partir e voltar, entre estar fora e estar presente, constrói-se uma forma madura de fidelidade — à Ordem, à família e a si próprio.


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