Desde o dia inesquecível de nossa iniciação, aprendemos que devemos combater a idolatria. Sempre que lemos ou ouvimos isso, um certo desconforto surge, pois imediatamente começam a orbitar em nossa mente imagens de santos, de padroeiras, de deuses, de entidades espirituais que, desde pequenos, aprendemos a venerar com respeito e fé, pois, com certeza, de uma forma ou de outra, nós ou nossas famílias já foram agraciados pela generosidade de seus poderes.
Combater a idolatria, em uma análise mais superficial, talvez gere conflitos íntimos, pois o grau de aprimoramento intelectual progressivo que a Maçonaria nos oferece, talvez nos distancie de nossas crenças mais íntimas, arraigadas em nossos corações e em nossas mentes.
Porém, se pesquisarmos um pouco, talvez o significado de idolatria seja menos raso, mais abrangente e mais esclarecedor. Em 1620, Francis Bacon, buscando avidamente uma ampla reforma do conhecimento humano, publica, em sua obra Novum Organum, a Teoria dos Ídolos.
Segundo Bacon, “ídolos” são agentes comuns, sistemáticos e eficientes em causar distorções, erros e preconceitos na mente humana, dificultando a busca pelo verdadeiro entendimento da natureza.
Bacon os classifica em:
a) Ídolos da Tribo
Esses ídolos provêm da própria natureza humana e, como tal, possuem uma abrangência universal. Surgem e se multiplicam facilmente, pois o intelecto humano tende a não ser o espelho fiel da realidade. Os Ídolos da Tribo levam-nos a enxergar ordem onde ela não existe; a buscar explicações distorcidas para verdades incontestáveis; a acreditar em boatos e inverdades; a generalizar situações a partir de poucos exemplos; a projetar sentimentos humanos nas leis da natureza. Em resumo, tentamos entender a natureza sob forte influência de usos e costumes gerais.
b) Ídolos da Caverna
, esses provêm do íntimo de cada pessoa, com intensa carga psicológica, educacional e comportamental, advinda de experiências pessoais de vida.
c) Ídolos do Foro ou do Mercado
Esses ídolos provêm da linguagem, das tendências e das comunicações sociais. Possuem um forte âmbito coletivo, cultural, religioso e político. Surgem de ideias pouco claras, de palavras ambíguas, de cargas emocionais e de intenções mal definidas. Debates filosóficos e políticos são terrenos férteis para esse tipo de ídolo.
d) Ídolos do Teatro
São os ídolos herdados de grandes sistemas políticos, religiosos e culturais, aceitos sem crítica e sem análise, como se tivéssemos que simplesmente encenar repetidamente uma peça teatral centenas de vezes ao longo de nossas vidas. Para Bacon, enquadram-se nesse grupo os dogmas religiosos e metafísicos e a figura de autoridades intelectuais incontestáveis.
Ao decifrarmos o REAA, constatamos que a luta contra a idolatria é muito mais próxima da concepção de Francis Bacon do que um simples alerta contra a idolatria religiosa. Combater a idolatria no REAA é evitar a submissão do intelecto e da vontade humana; impedir a inoperância sistemática da consciência individual e coletiva; promover, a qualquer custo, a justiça, a equidade e a ética.
Ao combater a idolatria religiosa, o REAA não se torna antirreligioso, pois reconhece a existência de Deus na crença do Grande Arquiteto do Universo. Em seus ensinamentos, há, inequivocamente, uma respeitosa valorização da dimensão espiritual, abrangendo todas as religiões.
O REAA combate, sim, em seus símbolos, alegorias e filosofia, todas as formas de fanatismo que deformam as crenças e a consciência humana pela manipulação do medo e pela obediência cega.
As teorias de Francis Bacon possuem grande aplicabilidade na contemporaneidade, opondo-se à idolatria das ideologias; ao uso da ciência sem ética; à massificação da informação; aos falsos profetas e aos políticos desonestos e à falta de senso crítico que assola a humanidade em geral.
A Teoria dos Ídolos de Bacon mantém-se viva por ser essencialmente ética, exigindo humildade e honestidade intelectual. Ela nos ajuda a lembrar que o maior inimigo do conhecimento é a convicção.
Enquanto o idólatra simplesmente entrega sua consciência, o iniciado trabalha e responde por seus atos diante da LUZ.

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