janeiro 21, 2026

O SIMBOLISMO DA IMAGEM E DO SENTIDO - Newton Agrella



Vamos construindo nossa imagem, conforme nossa atuação ao longo de nossa existência.

Somos atores circunstantes da vida, que dia após dia, protagonizamos um personagem, diante de cada cenário que nos envolve.

Por isso, somos dotados de tantos talentos e de uma generosa carga de criatividade que nos permitem interpretar os mais diferentes papéis de acordo com os acontecimentos que surgem diante de nós.

Nossas reações se traduzem ao sabor do que nossas emoções exprimem e de algum modo, como a nossa razão impõe.

Porém nem sempre nossas atuações merecem aplausos.

Muito pelo contrário, na grande maioria das vezes elas são motivos de críticas pesadas e de eloquente desaprovação.

Isso tudo, porque pela própria dinâmica da vida,  é muito mais fácil justificar nossos erros e inconformidades do que simplesmente acertar e ficar calado.

Erros e Acertos, ainda que sejam produtos de um código de convenções, duramente padronizados  pela maioria da sociedade humana, acabaram se tornando uma base minimamente plausível para uma convivência civilizada.

Voltando ao palco da vida, fica nítido que no processo de construção de nossa imagem, o que mais nos preocupa como atores, não é saber se estamos desempenhando uma grande performance, mas sim, como os outros estão nos vendo e avaliando.

Conforme densa e amplamente aceita narrativa filosófica, o "mundo das aparências" diz respeito a uma realidade concentrada no superficial, no externo e naquilo que é visível e socialmente valorizado, em contraste com a essência, a verdade ou sentimentos profundos, em que a autenticidade se torna propriedade rara e valiosa. 

O palco segue intacto.

As cortinas são os obstáculos que ocultam e que desvendam tudo o que Universo nos reserva.

Cumpre-nos então, dar sustentação e sentido ao nosso trabalho, pois o tempo não espera, e a vontade de acertar tem que ser manifestada.



janeiro 20, 2026

O TEATRO NO REAA -



Segundo a Encyclopædia Britannica, a palavra “teatro” deriva do grego theaomai (θεάομαι) – que significa “olhar com atenção, perceber, contemplar” (1990, vol. 28:515). 

Theaomai não se refere apenas ao ato de ver no sentido comum, mas envolve uma experiência intensa, envolvente, meditativa e inquiridora, buscando descobrir um significado mais profundo. 

É uma visão cuidadosa e deliberada que interpreta o seu objeto, uma busca por uma compreensão mais completa e rica daquilo que é observado.

No Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA), o teatro desempenha um papel crucial e distintivo na prática maçónica. 

É por meio do teatro que muitos dos ensinamentos esotéricos e morais do rito são transmitidos. 

Diferente de uma simples exposição didática, o uso do teatro proporciona uma experiência vivencial, que facilita a interiorização e reflexão sobre os valores e princípios apresentados. 

O teatro maçónico não é apenas uma representação dramática; é uma ferramenta pedagógica poderosa, capaz de evocar emoções e insights profundos nos participantes.

A Importância do Teatro no REAA

O teatro, no contexto do REAA, é mais do que uma simples encenação; é uma manifestação ritualística que envolve símbolos, alegorias e dramas que têm como objectivo elevar a consciência dos maçons e conectá-los a verdades universais. 

Cada grau do REAA é acompanhado por uma cerimónia teatral que apresenta uma narrativa específica, cheia de simbolismos que refletem a busca pelo conhecimento, a luta contra as trevas da ignorância e a aspiração pela luz do entendimento.

As peças teatrais encenadas durante as cerimónias são meticulosamente elaboradas para provocar uma resposta emocional e intelectual. 

Esta abordagem dramatúrgica cria um ambiente contemplativo que é essencial para a transferência e fixação do conhecimento. 

Através da representação simbólica de histórias e lendas, o Maçom é incentivado a refletir sobre a sua própria vida, as suas ações e o seu papel na sociedade.

As lições morais e éticas são assim transmitidas de uma maneira que transcende o simples intelecto, alcançando o coração e a alma.

O Papel do Mestre Maçom

Compreender e utilizar o teatro é uma responsabilidade fundamental do Mestre Maçom no REAA. 

Ao assumir o papel de personagem nas encenações, seja na Loja Simbólica ou nos Altos Graus, o Maçom não apenas desempenha um papel teatral, mas encarna as virtudes e ensinamentos representados pelo personagem. 

Esta atuação dá vida às lendas contadas, criando uma experiência envolvente e significativa para todos os presentes. 

Através desta personificação, o Mestre Maçom facilita a criação de um espaço mental e emocional propício para a aprendizagem e internalização dos ensinamentos transmitidos.

O envolvimento do Mestre Maçom no teatro ritualístico também serve como um exercício de autoconhecimento e autodescoberta. 

Ao se envolver profundamente com o simbolismo e as lições do rito, o Maçom é levado a uma reflexão interna sobre as suas próprias crenças, valores e propósito na vida. 

Esta introspecção é essencial para o crescimento pessoal e espiritual que o REAA busca promover.

A Evolução do Teatro no REAA

Ao longo dos anos, o REAA tem-se destacado pela sua rica tradição teatral e a sua capacidade de se adaptar e evoluir. 

Desde as suas origens, o rito tem incorporado elementos teatrais que reflectem as preocupações e aspirações de cada época. 

As cerimónias de iniciação, elevação e exaltação foram sendo refinadas e enriquecidas, mantendo-se sempre fiéis ao objetivo de proporcionar uma experiência transformadora.

Além disso, o teatro no REAA não se limita às cerimónias formais. 

Muitas lojas e corpos maçónicos têm desenvolvido atividades culturais e artísticas que incluem apresentações teatrais, recitais de poesia e outras formas de expressão artística. 

Estas atividades complementam a formação maçónica e oferecem aos membros oportunidades de aprofundar o seu entendimento dos símbolos e ensinamentos do rito.

O teatro no Rito Escocês Antigo e Aceito é uma parte integral e indispensável da prática maçónica. 

Ele oferece uma maneira única de transmitir conhecimento, despertar emoções e promover a reflexã

Ao envolver os participantes de maneira profunda e significativa, o teatro maçónico cria uma ponte entre o intelecto e a intuição, facilitando uma compreensão mais completa e duradoura dos ensinamentos maçónicos. 

Através do teatro, o REAA continua a cumprir a sua missão de promover a sabedoria, a virtude e o progresso espiritual.


O PONTO DE VIRAGEM DA MAÇONARIA - Martin Bogardus



Gostaria de dedicar um momento para falar sobre um assunto que todos nós já refletimos ou discutimos em algum momento das nossas trajetórias maçónicas.

Como Venerável Mestre, testemunhei o surgimento e o declínio de muitas carreiras maçónicas e questionei-me frequentemente se existe um momento decisivo, um ponto de viragem que determina a permanência ou a rejeição.

Porque é que os irmãos perdem o interesse pela Maçonaria e o que podemos fazer para reacender essa chama?

Em que momento os nossos próprios pensamentos começaram a vacilar?

Existe um ponto de viragem na vida de cada Maçom; um momento em que a alegria de ser membro da nossa nobre Ordem começa a diminuir. 

Um momento em que nos esquecemos do propósito da nossa existência.

É neste ponto que perdemos a perspectiva do candidato que um dia fomos e nos tornamos meros espectadores da Maçonaria, em vez de participantes.

Quando isto acontece, perdemos a perspectiva do candidato e deixamos de procurar novas luzes

No início, a Maçonaria era excitante e nova. 

Chegámos à Ordem como candidatos ávidos dos seus mistérios e, a cada novo grau conquistado, sentíamos orgulho e realização ao desvendar os véus dos seus mistérios para revelar os seus antigos segredos, cada revelação impulsionando-nos ainda mais a procurar mais luz.

Mas, por vezes, depois de atingirmos o sublime grau de Mestre Maçom, muitos de nós atingimos um patamar e tornamo-nos complacentes nas nossas viagens maçónicas

Um participante é ativo; engajado. 

A sua mente é influenciada pela soma de tudo o que experiencia, processando-o; refina o seu carácter em direção ao louvável objetivo de se tornar um homem melhor.

Ele exprime a própria quinta-essência da Maçonaria no pensamento e na ação pela retidão da sua conduta e pelo aperfeiçoamento do seu caráter, tornando-se o Aparelho Perfeito.

Um espectador, por outro lado, é passivo; desinteressado, a sua mente distraída por mil impulsos errantes que o afastam do caminho de platina. 

Perdido no caminho para a iluminação maçónica e já não um candidato adequado aos seus mistérios, é incapaz de se aperfeiçoar porque lhe falta a capacidade de subjugar as suas paixões e de interiorizar as lições que lhe são oferecidas, fazendo com que o seu interesse diminua.

Começamos fortes, envolvidos pela euforia de aprender os princípios fundamentais da Arte, apenas para nos vermos sobrecarregados e demasiado comprometidos pelas obrigações combinadas da família e da fraternidade.

Para uns, isto acontece logo após a iniciação, para outros, depois de servir como Venerável Mestre da sua Loja. 

O nosso cabo de reboque fica tenso e esticado, tornando-se uma coleira apertada à volta do pescoço, sufocando os nossos desejos por mais luz se não for mantido sob controlo e devidamente equilibrado.

Como aprendemos nas Ferramentas de Trabalho de um Aprendiz Maçom:

• 8 horas para o serviço de Deus e de um irmão digno e aflito

• 8 horas para as nossas vocações habituais

• 8 horas para descanso e sono

Nunca devemos deixar de nos aperfeiçoar na nossa busca da Iluminação Maçónica, esforçando-nos sempre pela equanimidade e procurando tornar-nos aprendizes da Ordem durante toda a vida, pontuando as nossas experiências com circunspecção e reflexão silenciosa.

Para reacender a nossa paixão pela Maçonaria, devemos testemunhar continuamente a outorga de cada grau pelos olhos de alguém que acaba de bater à porta da Maçonaria, e cada palavra deve tocar uma corda ressonante nos nossos corações.

Devemos resgatar aquele momento transformador em que, diante do altar sagrado da Maçonaria, nos unimos perante Deus Todo-Poderoso em fraternidade e amizade místicas, para nos tornarmos irmãos.

Só assim podemos esperar progredir na Maçonaria e reacender a inspiração que recebemos quando éramos realmente os candidatos.

Qualquer Maçom que procure verdadeiramente a luz encontrará algo de novo na Maçonaria de cada vez que um grau for confirmado; MAS DEVE SER O CANDIDATO.

Deve possuir a frescura de mente e de espírito, o anseio de um iniciado em busca de uma nova luz, que o possuía quando ingressou na fraternidade.

Se encararmos os graus da Maçonaria de forma impessoal e considerarmos as cerimónias apenas como uma repetição fria, então nada poderemos ganhar com elas. 

E se alcançarmos uma pequena percepção espiritual e nos recusarmos a nutri-la e a deixá-la crescer em visão e sabedoria, então até essa primeira luz se extingue. 

Deixamos de crescer quando já não procuramos a fonte que nos inspirou desde o início.

Este é o ponto de viragem; aquele momento crítico em que devemos assumir o controlo dos nossos destinos e decidir que tipo de Maçom desejamos ser.

Como o ramo é dobrado, assim cresce a árvore. 

Para crescer na Maçonaria, devemos ter uma mente aberta, a coragem das nossas convicções, o desejo de progredir e a ânsia por mais luz. 

Tudo o que tínhamos quando nos oferecemos pela primeira vez como candidatos aos Mistérios da Maçonaria.

A Maçonaria exige mais do que apenas tempo; ela quer os seus melhores momentos e o melhor de si. 

Este é o verdadeiro desafio de subjugar as nossas paixões e de nos aperfeiçoarmos através da Maçonaria.

(Tradução de António Jorge)

janeiro 19, 2026

VOCÊ MUDOU? - Todd Creason




Todos nós batemos à porta por um motivo diferente. 

Todos nós estamos à procura de algo — é isso que nos leva à porta da Loja, para começar. 

Alguns de nós estamos lá porque é uma tradição familiar. 

Os nossos pais, tios e avós eram todos maçons. 

Há muitos motivos diferentes. 

Estamos à procura de uma conexão na comunidade. 

Procuramos novos amigos. 

Procuramos oportunidades para servir a nossa comunidade e sabemos que os maçons desempenham um papel importante nisso.

Mas, às vezes, não vemos a floresta por causa das árvores. 

Não vemos o objetivo principal da fraternidade, que é dar-nos orientação e instrução sobre como nos tornarmos homens melhores. 

Na verdade, diria que a maioria dos membros da nossa fraternidade hoje em dia raramente explora e aplica o que a Maçonaria realmente nos ensina sobre o carácter. 

Sobre encontrar o nosso propósito. 

Não usamos os recursos que temos na fraternidade para explorar verdadeiramente as questões que todos temos sobre por que estamos aqui e o que devemos fazer com estes poucos anos que temos nesta terra.

Tenho de admitir que foi por isso que me juntei há vinte anos. 

Eu estava à procura de um sentido para a minha vida. 

Eu estava na casa dos trinta. 

Tinha um bom emprego, uma esposa que me amava, bons amigos e uma bela casa. 

Mas não estava satisfeito. 

Não sentia que tinha descoberto o sentido da vida. 

Ainda não tinha encontrado aquilo que unisse tudo para mim.

Então, bati à porta. 

E não fiquei desapontado com o que descobri. 

Encontrei centenas de anos de sabedoria sobre como me reconstruir de dentro para fora. 

E a minha vida mudou quase imediatamente. 

Li algumas centenas de livros e escrevi alguns livros. 

Não consigo estimar quantos artigos escrevi e quantas publicações fiz no blog. 

Partilhei muito do que descobri ao longo dos anos aqui mesmo – The Midnight Freemasons.

Mas a minha jornada não parou por aí. 

Ela levou-me de volta à fé e a outra experiência transformadora, quando Deus me chamou para um caminho de vida muito diferente daquele que eu vinha trilhando. 

Nem todos os caminhos levam ao púlpito, mas o meu certamente levou, e esse caminho começou na porta da Loja. 

Foi aí que o meu rumo na vida mudou.

A Maçonaria é mais do que amizades, serviço, atividades e reuniões. 

É sobre crescimento. 

E recitamos essas palavras e ouvimos esses conceitos nas nossas reuniões e graus, mas poucos de nós percebemos que é disso que se trata. 

É sobre construir caráter. 

É sobre encontrar a nossa maneira de tornar este mundo um lugar melhor. 

Trata-se de descobrir para que fomos criados e encontrar maneiras de o fazer! 

Trata-se de nos deixarmos ser transformados em algo que o criador possa usar para o Seu propósito.

Portanto, a minha pergunta para si é esta:

Mudou? 

É um Maçom que “entende” e aplica esses princípios que ensinamos à sua vida, ou está praticamente igual agora ao que era quando se juntou a nós? 

Encorajo-o a aprofundar-se mais. 

Aplique essas lições e veja o que acontece. 

Você foi colocado aqui com um propósito. 

Comece a trabalhar nessa pedra e veja aonde esse caminho que começou na porta da Loja pode levá-lo.


OS SINAIS DE RECONHECIMENTO -



Um dos segredos que os maçons devem guardar consiste nos sinais, palavras e toques próprios de cada um dos graus. A sua origem – os sinais pelos quais um artesão da maçonaria operativa identificava as suas aptidões perante mestres que o não conhecessem – já foi aqui sobejamente explicada. Mas quais a sua utilidade e significado atuais? 

Desde o século XVIII que há exposés, ou revelações, de rituais maçônicos. Como seria de esperar, uma vez que cada Grande Loja tem autonomia para alterar os seus rituais – o que costumam fazer com alguma regularidade – rapidamente os sinais de reconhecimento estabelecidos nos rituais terão sido alterados em reação a essas “inconfidências”. Também não surpreenderá que, em função dessas alterações, os sinais de reconhecimento não sejam, hoje em dia, os mesmos nem em todo o mundo, nem em todos os ritos, nem em todas as obediências. Há variações, pelo que os maçons são delas instruídos para que possam reconhecer irmãos apesar das diferenças. 

Entenda-se, por outro lado, que estes “meios de reconhecimento” são meramente rituais. O que é que isto significa? Significa que, em primeiro lugar, são usados no contexto das sessões rituais, e do acesso às mesmas. Assim, se um maçom se dirigir a um templo onde se vão reunir irmãos de outra Loja na qual não seja conhecido, e pretender assistir à sessão, é quase certo que o farão identifica-se através dos sinais rituais de reconhecimento. No entanto, quase certo é também que não se fiquem por aí. Nos nossos dias a maioria das Obediências emite cartões em nome e para uso dos seus obreiros que atestam estarem os mesmos com a sua situação regularizada. 

É também costume as Obediências emitirem, a pedido, o chamado “Passaporte Maçônico”, que permite a identificação do seu portador perante Obediências estrangeiras. Sem qualquer destes documentos, e sem que sejamos conhecidos, é não só possível como quase inevitável vermos a nossa entrada negada numa sessão de Loja. E fora de uma sessão de Loja? Espero que ninguém imagine os maçons a fazer macaquices e “sinais secretos” a estranhos, não vá dar-se o caso de eles serem maçons também... Fora de Loja os maçons, ou já se conhecem previamente, ou reconhecem-se pela sua postura, forma de estar na vida e princípios que defendem. 

Dados os modernos meios de identificação (cartões, passaporte maçônico, etc.), a utilidade original dos sinais de reconhecimento é reduzida. Por que se mantêm então, e qual a razão do seu secretismo? Não nos esqueçamos de que a Maçonaria se socorre de símbolos e alegorias para transmitir os seus ensinamentos. Assim, os segredos de grau recordam a cada maçom que deve ser um homem honrado, de bons costumes, capaz de guardar para si um segredo que lhe tenha sido confiado. Por outras palavras, os maçons guardam segredo desses sinais de reconhecimento, uma vez mais, por uma razão muito simples: porque juraram fazê-lo. 

Fonte “A Partir Pedra”

QUANDO FOI QUE COMEÇAMOS A NOS PERDER - Hugo Studart



A Revolução Iraniana, em 1978, significou a ascensão de um dos mais controvertidos –e ao mesmo tempo influentes-- teólogos em 14 séculos de islamismo, Ruhollah Khomeini. Em farsi, a língua majoritária do Irã, Ruhollah significa “inspirado por Allah”. Ele partiu da ideia do teólogo paquistanês Sayyid Mawdudi de que todos os povos do mundo devem ser governados pelos sacerdotes, em nome de Allah e segundo as leis islâmicas. Ou seja, nada diferente do que pregavam os santos teólogos católicos medievais, a começar por Santo Agostinho – esse ai, confesso, com quem ainda nutro afinidades.

Khomeini foi discípulo de Mawdudi na decada de 1930. Homem intelectualmente limitado mas dono de uma oratória aguda e de uma genialidade política raras, Khomeini acrescentou outra ideia – a necessidade de uso da violência e da guerra como armas de conversão ao islamismo. Ele pregava a necessidade do martírio, do suicídio e da espada para impor o sharia aos fiéis e aos infiéis. Ele tinha como lema: 

“A espada é a chave do paraíso”.

Suas ideias e práticas, enfim, são extremamente similares à do teólogo católico Joaquim de Fiore, inspirador de grupos de camponeses “iluminados” do Século 11 que buscavam precipitar os final dos tempos para instaurar o Paraíso na Terra e, na sequência, das Cruzadas Santas cristãs contra os inféis do Oriente. 

Como fizeram todos os demais movimentos messiânicos radicais anteriores --cruzados católicos, iluministas franceses ou revolucionários marxistas-- tão logo Khomeini consolidou-se no poder, imediatamente passou a exportar sua guerra santa para outros países. Encontrou por todo Oriente Médio uma juventude humilhada por séculos de dominação Ocidental, por décadas de despotismo de governantes fantoches, e por crises econômicas que parecem não ter mais fim. Terreno fértil, húmus puro, para pregações messiânicas radicais. 

Sua teologia disseminou-se por grupos políticos em uma enorme faixa de terra que vai do extremo ocidente africano ao extremo oriente asiático. Cada um mais radical do que o outro. Todos buscando as mais esdrúxulas e possíveis ligações com a divindade para justificar o uso da religião para fins políticos. 

Assim, no dia 11 de Setembro de 2001, uma dessas muitas facções escatológicas, Al-Qaeda, liderado por um autonomeado messias chamado Osama bin-Laden, conseguiu, dentre outros feitos, devolver ao pó duas torres gêmeas fincadas no coração do Império Americano, símbolos do imaginário capitalista, oficializando o início da sharia, uma Cruzada Santa do Islã contra os infiéis do Ocidente.

Desde então, vêm proliferando estudos, teses e prospecções sobre essa guerra. Os analistas mais conceituados, como o economista francês Jacques Atalli, um genial visionário, apontam para uma cruzada que tende a durar cerca de 50 anos. Tende também a se radicalizar reciprocamente, incitando grupos religiosos cristãos a perderem a racionalidade de tal forma que já defendem abertamente o expurgo da Teoria da Evolução das Espécies de Darwin dos currículos das escolas oficiais, em favor da teologia mais primitiva – a de que o homem foi criado por Deus e a mulher nasceu da costela de Adão. Esses fundamentalistas cristãos são os nossos próprios aiatolás xiitas, com os quais teremos que conviver por muitas décadas, em uma noite que talvez pareça não ter mais fim.


janeiro 18, 2026

OS LANDMARKS - Paulo Valle


 

Landmark é um termo em inglês que pode ser traduzido como "marco de terra". Refere-se a uma prática antiga de demarcar o limite de um território com grandes pedras, sendo que mover essas pedras era crime grave (Deuteronômio 19:14; 27:17; Provérbios 22:28).

Seguindo a simbologia do Antigo Ofício, o termo significa uma regra (limite) que deve ser respeitada. Seria algo como uma "cláusula pétrea", cujo adjetivo, "pétrea", transmite a mesma ideia de um "marco de terra": relevância, referência, solidez e imutabilidade.

Os Landmarks mais conhecidos no Brasil são os chamados "25 Landmarks de Mackey". Eles foram escritos por Albert Mackey em 1858 (40), mais de um século após o estabelecimento da Maçonaria como a conhecemos. Alvo de críticas, sua lista não é adotada na maioria da Maçonaria norte-americana, onde Mackey nasceu e viveu. Albert Pike foi um dos críticos, chegando ao sarcasmo de escrever que um cogumelo pode crescer numa fronteira, mas não deve ser confundido com um marco de terra (41).

Há várias outras listas de Landmarks, desde listas com apenas cinco deles, até listas com mais de cinquenta, sendo que são muitas as jurisdições que adotam seus próprios Landmarks. O famoso autor maçônico inglês, George Oliver, tinha sua lista de Landmarks, num total de quarenta (42.) Outro famoso autor, Roscoe Pound (43), apontava apenas sete (44).

O que praticamente todas as listas de Landmarks concordam é quanto: a crença em um Ser Supremo e na Imortalidade da Alma; a presença de um livro sagrado, esquadro e compasso em loja; o simbolismo da maçonaria operativa; a restrição a homens livres e adultos; e o caráter sigiloso da Ordem. Outros Landmarks contidos na maioria das listas tratam sobre: as lojas são governadas por um VM e dois Vigilantes; a Grande Loja é governada por um GM e é soberana, não devendo obediência a qualquer outra Grande Loja; veto a discussões sobre política ou religião; e que uma Grande Loja somente governa os três graus simbólicos.

Quaisquer outros landmarks além desses são discutíveis, e não podem servir de desculpas para camuflar ou proteger preconceitos.

*REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:*

(40) MACKEY, A. G. The Foundations of Masonic Law. In: The American Quarterly Review of Freemasonry and Its Kindred Sciences. New York: Robert Macoy, 1858.

(41) PIKE, A. The So-Called Antient Landmarks. In: Proceedings of the Grand Lodge of Free and

Accepted Masons of the District of Columbia for the Year 1983. Washington: John F. Shelby, 1894.

(42) OLIVER, G. The Freemason's Treasury. London: Bro. R. Spencer, 1863.

(43) Foi professor de Direito nas Universidade de Harvard, Universidade de Chicago e UCLA.

(44) POUND, N. R. Lectures on masonic jurisprudence. Anamosa: The National Masonic Research Society, 1920.

BOM LIVRO - Adilson Zotovici



Ao livre pedreiro é vital

Desde o primeiro momento

Ao canteiro d’Arte Real

Donde parte o fundamento


Companheiro habitual

Que silente  traz alento

Nas folhas vivas  um fanal

Que nos faz viajar ao vento


Tal  semeadura, um portal

Em cada historia ou evento

Que à cultura é fulcral


Chave do conhecimento

Ao crescimento é  cabal

À alma, bom livro...é alimento !



VOU DE PROSA OU DE POESIA ? - Newton Agrella


Esta nossa língua  portuguesa merece ser internada ou pelo menos submeter-se a uma longa terapia.

Senão vejamos, o grau de insanidade a que ela nos conduz.

Da *Prosa*, que como substantivo significa: "conversa" ou "bate papo",  por outro lado, encerra o  significado de "escritos de forma corrente, obedecendo parágrafos, normas e padrões gramaticais, cuja intenção é a exposição de uma ideia, de fatos ou de uma história.

De *Prosa* deriva-se o adjetivo "prosaico", sinônimo de banal, reles, comum, costumeiro, dentre outros. 

Entretanto, a forma de linguagem utilizada para escrever um texto, seja ele um romance, uma narrativa, um estudo, uma pesquisa de âmbito científico, histórico, filosófico ou social é invariavelmente "em prosa". 

Como se percebe, as nuances linguísticas derivadas de um mesmo vocábulo podem dar vida a uma infinidade de outros significados.

Outrossim, a *Poesia* é uma forma distinta de linguagem, cuja caracteristica mais marcante é a sua personalidade artística, fazendo das letras uma pintura e do poeta um pintor.

A Poesia ainda provê ao Poeta, a liberdade de escrever seus versos e rimas de maneira absolutamente livre, sem a preocupação de obedecer uma métrica, uma quantidade de sílabas, palavras ou versos nem tampouco de  se submeter a uma regularidade fonética.

Bem como, pode ser artisticamente elaborada sob a rigorosa precisão de versos, rimas e sons, tal qual os belíssimos Sonetos.

Prosa e Poesia no entanto, convivem de maneira Justa e Perfeita no arcabouço cultural da nossa língua, demonstrando que a capacidade de expressão  do autor é proporcional às imensas possibilidades num idioma como o nosso que congrega cerca de 370.000 palavras em seu registro ortográfico. 

Isso tudo, sem contar os inúmeros estrangeirismos que invadem-na a cada pouco e de algum modo podem servir como instrumentos de apoio, tanto tanto em prosa quanto em versos.



SABER CONDUZIR O TEMPO - Eduardo Fondello


 A dinâmica da era digital, não deve se sobrepor às atribuições de um Venerável Mestre contemporâneo e comprometido com a causa, mas sim, auxiliar nas tarefas de gestão de forma a garantir o equilíbrio necessário ao pleno emprego das ferramentas simbólicas na vida de uma Loja Maçônica.

Nesse cenário, cabe uma reflexão honesta: “a aceleração do mundo atual tem afetado a real condição dos Veneráveis Mestres de exercer, com plenitude, suas atribuições administrativas, doutrinárias e ritualísticas à frente de uma Loja Maçônica”?

A resposta não comporta simplificações.

Os membros de uma diretoria não são meros "ocupantes de cargos" são agentes de transformação. Devem preservar o tempo simbólico da Loja. Seus papéis exigem presença consciente, equilíbrio interior e domínio. São qualidades que não florescem na pressa nem sobrevivem à dispersão causada pelo excesso de estímulos e interrupções.

É inegável que a tecnologia, usada com critério, facilita a organização e aproxima os irmãos. O problema surge quando ela passa a ocupar todo o espaço. O Venerável, quase sempre, se torna mais acessível, mas deve estar preparado; responder a tudo, na teoria e na prática. A função corre o risco de ser exercida no automático, sem densidade, sem sentido.

A Maçonaria jamais foi construída sobre a lógica do imediatismo. O rito, ensina pela constância, pela ordem e pela solenidade. Ele pede um tempo próprio, que não aceita atalhos sem prejuízo ao significado.

Por isso, impõe-se um desafio silencioso aos Veneráveis Mestres de hoje: “não afastar o mundo digital, mas mantê-lo sob controle, a serviço da finalidade iniciática da Ordem”. Saber distinguir imediatismo de conhecimento. Impedir que o urgente sufoque o essencial.

Conduzir uma Loja Maçônica é, em grande parte, saber conduzir o tempo.

Tempo para aprender.

Tempo para praticar.

Tempo para administrar.

Tempo para orientar.

Tempo para ouvir.

Tempo para ritualizar.

Tempo para formar homens melhores.

Que os Veneráveis Mestres, como sustentáculos vivos da Tradição, tenham sempre presente que a autoridade maçônica não nasce da disponibilidade constante, mas do equilíbrio tranquilo entre agir e refletir.


janeiro 17, 2026

COMBATE A "IDOLATRIA" - Celso Abrahão


Desde o dia inesquecível de nossa iniciação, aprendemos que devemos combater a idolatria. Sempre que lemos ou ouvimos isso, um certo desconforto surge, pois imediatamente começam a orbitar em nossa mente imagens de santos, de padroeiras, de deuses, de entidades espirituais que, desde pequenos, aprendemos a venerar com respeito e fé, pois, com certeza, de uma forma ou de outra, nós ou nossas famílias já foram agraciados pela generosidade de seus poderes.

Combater a idolatria, em uma análise mais superficial, talvez gere conflitos íntimos, pois o grau de aprimoramento intelectual progressivo que a Maçonaria nos oferece, talvez nos distancie de nossas crenças mais íntimas, arraigadas em nossos corações e em nossas mentes.

Porém, se pesquisarmos um pouco, talvez o significado de idolatria seja menos raso, mais abrangente e mais esclarecedor. Em 1620, Francis Bacon, buscando avidamente uma ampla reforma do conhecimento humano, publica, em sua obra Novum Organum, a Teoria dos Ídolos.

Segundo Bacon, “ídolos” são agentes comuns, sistemáticos e eficientes em causar distorções, erros e preconceitos na mente humana, dificultando a busca pelo verdadeiro entendimento da natureza.

Bacon os classifica em:

a) Ídolos da Tribo

Esses ídolos provêm da própria natureza humana e, como tal, possuem uma abrangência universal. Surgem e se multiplicam facilmente, pois o intelecto humano tende a não ser o espelho fiel da realidade. Os Ídolos da Tribo levam-nos a enxergar ordem onde ela não existe; a buscar explicações distorcidas para verdades incontestáveis; a acreditar em boatos e inverdades; a generalizar situações a partir de poucos exemplos; a projetar sentimentos humanos nas leis da natureza. Em resumo, tentamos entender a natureza sob forte influência de usos e costumes gerais.

b) Ídolos da Caverna

, esses provêm do íntimo de cada pessoa, com intensa carga psicológica, educacional e comportamental, advinda de experiências pessoais de vida.

c) Ídolos do Foro ou do Mercado

Esses ídolos provêm da linguagem, das tendências e das comunicações sociais. Possuem um forte âmbito coletivo, cultural, religioso e político. Surgem de ideias pouco claras, de palavras ambíguas, de cargas emocionais e de intenções mal definidas. Debates filosóficos e políticos são terrenos férteis para esse tipo de ídolo.

d) Ídolos do Teatro

São os ídolos herdados de grandes sistemas políticos, religiosos e culturais, aceitos sem crítica e sem análise, como se tivéssemos que simplesmente encenar repetidamente uma peça teatral centenas de vezes ao longo de nossas vidas. Para Bacon, enquadram-se nesse grupo os dogmas religiosos e metafísicos e a figura de autoridades intelectuais incontestáveis.

Ao decifrarmos o REAA, constatamos que a luta contra a idolatria é muito mais próxima da concepção de Francis Bacon do que um simples alerta contra a idolatria religiosa. Combater a idolatria no REAA é evitar a submissão do intelecto e da vontade humana; impedir a inoperância sistemática da consciência individual e coletiva; promover, a qualquer custo, a justiça, a equidade e a ética.

Ao combater a idolatria religiosa, o REAA não se torna antirreligioso, pois reconhece a existência de Deus na crença do Grande Arquiteto do Universo. Em seus ensinamentos, há, inequivocamente, uma respeitosa valorização da dimensão espiritual, abrangendo todas as religiões.

O REAA combate, sim, em seus símbolos, alegorias e filosofia, todas as formas de fanatismo que deformam as crenças e a consciência humana pela manipulação do medo e pela obediência cega.

As teorias de Francis Bacon possuem grande aplicabilidade na contemporaneidade, opondo-se à idolatria das ideologias; ao uso da ciência sem ética; à massificação da informação; aos falsos profetas e aos políticos desonestos e à falta de senso crítico que assola a humanidade em geral.

A Teoria dos Ídolos de Bacon mantém-se viva por ser essencialmente ética, exigindo humildade e honestidade intelectual. Ela nos ajuda a lembrar que o maior inimigo do conhecimento é a convicção.

Enquanto o idólatra simplesmente entrega sua consciência, o iniciado trabalha e responde por seus atos diante da LUZ.



                                              

UMA VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA MAÇONARIA (6/6) - Leonardo Redaelli


MAÇONARIA SOB A SEGUNDA REPÚBLICA

Após a queda de Luís Filipe, outros maçons com inclinações políticas mais "operacionais" conceberam a ideia de fundar uma nova ordem que, embora baseada nos princípios de 1848, não seria indiferente aos assuntos públicos. Esse compromisso político, que começou com uma reunião no Hôtel de Ville e uma manifestação em apoio ao Governo Provisório da República, levou, por um lado, a um discurso de Lamartine e, por outro, à criação de uma Grande Loja Nacional da França. Convencidos de que agiam de acordo com a verdade maçônica e cumpriam a vontade do Grande Arquiteto do Universo, seus fundadores começaram decretando a abolição dos Altos Graus e a irremovibilidade dos cargos.

Inicialmente, essa obediência compreendia sete lojas, incluindo cinco desertores do Supremo Conselho: os Trinitários (3), os Comandantes do Monte Líbano (16), os Patriotas (38), os Escoceses Invisíveis (65), a Estrela de Belém (90).

Mas os dissidentes permaneceram fiéis às tradições do rito, o que só piorou as coisas. Eles colocaram o Dr. du Planty, prefeito de Saint-Ouen, à sua frente e criaram uma loja chamada La Fraternité no Oriente de Montmartre.

Diante desse cisma potencialmente preocupante, a obediência escocesa limitou-se a falar de supostas demonstrações maçônicas e tomou medidas discretas caso a caso, que, no entanto, chegaram ao ponto da exclusão sumária de lojas ou irmãos, enquanto se podia falar dos "irmãos que permaneceram fiéis ao seu juramento".

Por sua vez, o Grande Oriente não perdeu tempo. Em sua convenção de 1849, recusando-se a fazer concessões, considerou necessário definir seus princípios e fortalecer sua regularidade, especificando uma obrigação que até então permanecera vaga.

Após relatório, debate e votação, a Assembleia Geral adotou o Artigo 1 da Constituição do Grande Oriente da França, que declarava que "a Maçonaria tem como princípio a existência de Deus e a imortalidade da alma". Apesar de um esclarecimento sobre a liberdade de consciência, essa afirmação, inegavelmente dogmática, parece, com o tempo, bastante inadequada. Contudo, oferecia a esperança de alcançar um público relativamente amplo, pois atraía um segmento da opinião pública hostil ao "Rei Cidadão", mas ainda assim "voltaireano". Esse segmento incluía até mesmo padres que abençoavam árvores da liberdade, e, baseando-se apenas em Balzac, seria possível realizar um estudo instrutivo sobre eles.

A MAÇONARIA SOB O SEGUNDO IMPÉRIO

Teriam as duas organizações, assim regularizadas por um decreto oficial, procurado justificar essa confiança retornando à tradição maçônica pura? Somos compelidos a crer que sim, porque — e esta observação certamente perturbará os antimaçons que, ao longo da história, sempre persistiram em classificar a Ordem entre os grupos de vanguarda — dificilmente se vê tal manifestação durante o Golpe de Estado de dezembro de 1852. Um discurso do Grande Oriente, dois meses antes, demonstra, inclusive, seu caráter imperialista perante o Império.

O trabalho desta loja dificilmente era suspeito. Infelizmente, rivalidades internas e bastante acirradas pela Grão-Mestrado, que foi brevemente disputada pelo Príncipe Murat e por Jérôme Napoleão, levaram à intervenção de Napoleão III. As táticas do tio inspiraram o sobrinho. E assim, sua decisão apareceu no "Oficial" de 2 de janeiro de 1862: "Napoleão, tendo em vista os artigos, etc., considerando, etc., decretou e decreta o seguinte... Sua Excelência o Marechal Magnan é nomeado Grão-Mestre do Grande Oriente da França." Magnan nem sequer era maçom.

O golpe foi duro; não que o Marechal Magnan fosse inerentemente antipatizado, mas o método foi chocante. Certamente, não era a primeira vez que o Estado impunha seu favorito, mas o fazia preservando as aparências; o voto dos irmãos ratificou a decisão. Além disso, a própria Ordem, para demonstrar sua lealdade, frequentemente solicitava ao governo a nomeação de um líder. Em 1862, tratava-se de uma nomeação forçada, contra a qual nada podia ser feito, exceto ser flexível o suficiente — e foi o que aconteceu — para recuperar o direito ao voto. E as votações confirmaram a escolha do Imperador, mantendo o Marechal Magnan em sua posição como Grão-Mestre.

Para aumentar seu prestígio e atender aos desejos evidentes do Imperador, ele quer forçar o Supremo Conselho a se fundir com o Grande Oriente. Isso, ele acredita, justificaria o título que ostenta com orgulho, mas de forma imprecisa: Grão-Mestre da Ordem Maçônica na França. O Rito Escocês se opõe. Em suma, estão lhe pedindo para cometer suicídio. Desde o nascimento, lhe foram oferecidas as propostas mais tentadoras para uma absorção indolor.

Desta vez a situação é grave, pois — e isto ainda é inédito na história da Instituição — o Poder lança a sua espada na balança. Resistir à vontade do Imperador teria sido impossível se o Conselho Supremo não fosse chefiado por um homem bastante controverso, o escritor e político Viennet. Ele tem a vantagem da sua posição social — é membro da Academia Francesa — e a vantagem da sua idade avançada. É monarquista. Fez parte daquele grupo de colaboradores do Constitutionnel conhecido como os "voltairianos da direita" ou "os hereges da legitimidade" — e manteve-se fiel às suas convicções monarquistas. Seria esta uma razão ainda maior para silenciá-lo? Não. Todos os governos fazem acordos com os seus adversários. É do seu próprio interesse, especialmente em questões de importância secundária.

Viennet recusou-se a submeter-se à exigência imperativa do Marechal Magnan; suas cartas testemunhavam o orgulho de seu Rito. Magnan insistiu, pior, ameaçou. Viennet foi ter com o Imperador. O Imperador não era malicioso. No fundo, simpatizava com a revolta sentimental daquele velho que se recusava a render-se. Podemos imaginá-lo acalmando a impaciência do Marechal: "Vamos deixá-lo em paz... Ele tem oitenta e oito anos... Quando ele não estiver mais aqui...". Por outro lado, sabia muito bem que o Rito Escocês podia ser monarquista, mas que seu caráter iniciático, avesso à aventura, dificilmente representava uma ameaça ao regime. O Supremo Conselho preocupava-se primordialmente com o internacionalismo, não no sentido antipatriótico que alguns poderiam maliciosamente atribuir à palavra, mas como um apostolado de fraternidade. Outros Conselhos Supremos foram criados em muitas nações por meio de estatutos precisos, nos quais a crença em Deus e o respeito às leis são afirmados e, por sua confederação, auxiliam a interpenetração de mentes e, consequentemente, a aproximação dos povos.

Quando Viennet morreu, após Magnan, a atenção do governo estava voltada para muitas outras questões. Além disso, a Maçonaria quase não estava em evidência; um de seus membros, o Dr. Buchtold-Beaupré, em seu livro *Ísis ou Iniciação Maçônica*, chegou a criticá-la por "sua abstenção ou reserva nas grandes lutas políticas e religiosas da época". A instituição era verdadeiramente fiel à sua doutrina original, que não prescrevia nenhuma fé, mas quase não há exemplos, naquela época, de um rito que admitisse um único neófito que se declarasse abertamente ateu. Mesmo em 1875, no Rito Escocês (estamos antecipando um pouco os acontecimentos, mas este detalhe é relevante e de considerável interesse aqui), a Loja United Hearts recusou um candidato que não quis reconhecer a existência do Grande Arquiteto, "o que", afirmava o relatório enviado à Autoridade Central, "é contrário aos nossos Regulamentos".

Sob o Segundo Império, a Maçonaria ao menos conquistou uma visão favorável tanto na Corte quanto na cidade. Quando a Sociedade de São Vicente de Paulo, cujas atividades políticas eram bastante problemáticas, recusou o reconhecimento público que lhe foi oferecido, o ministro, M. de Persigny, contrastou oficialmente (circular de 16 de outubro de 1861) o bom espírito da Maçonaria com a atitude desconfiada da Sociedade. Isso certamente provocou um protesto acalorado do Bispo Dupanloup. A influência do Marechal Magnan contribuiu para essa reputação positiva.

De fato, todo sistema, por mais infeliz que seja, traz consigo algumas vantagens compensatórias: esses Grão-Mestres, sempre escolhidos entre figuras de alto escalão, não apenas protegem a Ordem, como esta também se beneficia moralmente de sua posição no mundo secular. Isso não se deu apenas no século XVIII, mas ao longo de todo o século XIX até 1871. Até o advento da Terceira República, os maçons gozavam de considerável estima em todas as classes sociais. Certamente tinham inimigos entre os católicos, mas inimigos que jamais conseguiram macular sua reputação aos olhos de seus contemporâneos. Mantinham o prestígio de terem contado em suas fileiras homens renomados por seu talento, seus méritos e até mesmo por sua linhagem.

Quando aqueles conhecidos como livre-pensadores eram difamados por seus oponentes nas assembleias representativas, tomava-se o cuidado de não confundi-los com maçons. Quão reveladora é essa observação sobre uma mentalidade que nos surpreende hoje! Para aqueles que possam considerá-la insuficientemente fundamentada, citaremos este fragmento do discurso que Sainte-Beuve proferiu no Senado em 1868 sobre as "tendências materialistas da educação". Encontramo-lo no Moniteur Universel de quarta-feira, 20 de maio de 1868:

Será porque as mentes pertencentes a essa classe não estão associadas, afiliadas umas às outras, como acontece com seitas e comunidades religiosas? Eu quase me sentiria tentado a acreditar nisso, porque assim que há um vínculo de associação, como na Ordem da Maçonaria, por exemplo, ah! então a pessoa deixa de ser insultada, repudiada, amaldiçoada — não estou falando dos púlpitos, isso é um direito deles — mas sim em assembleias públicas e políticas. Se alguém falasse aqui no Senado sobre maçons como se fala normalmente sobre livre-pensadores, certamente encontraria alguém em posição de destaque para responder. (Sorri, os olhos se voltam para o General Mellinet, que também se junta à hilaridade.) (O General Mellinet era então Grão-Mestre do Grande Oriente, mas, ao contrário do Marechal Magnan, ele era maçom há muitos anos.)

MAÇONARIA SOB A TERCEIRA REPÚBLICA

Grande parte da Maçonaria, e em particular alguns de seus líderes mais importantes, estava prestes a mudar de rumo. Bonapartistas sob o Império, eles se tornariam, sob a 11ª República, republicanos progressistas.

A década de 1871-1881 representou outro ponto de virada. Enquanto, segundo relatos posteriores de Léo Taxil ou de partidários fanáticos, a Comuna de Paris era uma criação maçônica, contemporâneos como Louise Michel, Maxime du Camp e uma de suas figuras-chave, o Irmão Thirifocq, demonstram claramente que, assim como durante a Revolução Francesa, havia apoiadores em ambos os lados. Como o Rito Escocês estava mais bem estabelecido em Paris do que o Grande Oriente e contava com muitos membros e simpatizantes, o Irmão Malapert, Grande Orador do Supremo Conselho e seu representante em Paris, limitou-se a instar seus membros a não comprometerem a Ordem como um todo. Contudo, o Prefeito Babeau-Laribière, Grão-Mestre do Grande Oriente, e vários de seus Grandes Oficiais estigmatizaram os apoiadores da Comuna, mesmo em suas ações como cidadãos livres. Ele se justificava por ser um alto funcionário provincial e provavelmente pouco informado sobre a mentalidade parisiense, o que se explica facilmente, considerando o contexto geral.


Com a República estabelecida e posteriormente entregue aos Republicanos, como explicar a reviravolta ocorrida na mentalidade de certa elite social e, admitamos, na opinião pública, em relação à reputação da Maçonaria? Certamente, isso se deve à campanha promovida pelo clero, mas também às suas próprias falhas. O advento da República levou ao poder vários de seus membros que haviam aprendido a pensar dentro de seus templos e que se viram obrigados a colocar em prática o liberalismo de seus ensinamentos.

Torna-se então cada vez mais difícil para a Ordem manter-se alheia aos acontecimentos seculares — sobretudo porque a República, ainda bastante instável, terá de se livrar de certos erros que dificultam o seu desenvolvimento. A Lei de Falloux está em debate. O clero ainda exerce considerável influência na máquina estatal...

O sucesso é tingido de obscuridade. Jovens maçons querem "externalizar" a Maçonaria. Alguns deles, como Gambetta, Jules Ferry, Brisson, Floquet, Camille Pelletan, Georges Perin, Edouard Lockroy, Wyrouboff, o escultor Millet, o Dr. Lannelongue e outros — muitos dos quais, como os nove últimos, pertencem a lojas escocesas — querem pressionar o Supremo Conselho a romper o silêncio. Eles propõem inovações à constituição que os Grandes Comendadores desaprovam — até mesmo líderes como Adolphe Crémieux, cujo republicanismo é irrepreensível. Eles querem descartar o Grande Arquiteto do Universo. O Grande Oriente fez isso em 1877, ao rejeitar de sua "Declaração de Princípios" a crença em Deus e na imortalidade da alma. Por que o Rito Escocês não deveria seguir um exemplo tão meritório? O Conselho Supremo protelou, esquivou-se e concedeu concessões que não abordavam o cerne do debate: seu próprio poder ditatorial, que os revolucionários consideravam um anacronismo inaceitável. Isso continuou até 1880, quando lojas intransigentes se separaram para fundar uma ordem com inclinações claramente políticas: a Grande Loja Simbólica Escocesa. Doze lojas se separaram dessa ordem.

O Supremo Conselho, cedendo à força das circunstâncias, concedeu às suas Lojas Azuis (do 3º ao 4º grau) tais vantagens que a Grande Loja Simbólica Escocesa se uniu para fundar, com as lojas fiéis restantes, a organização que existe hoje sob o título de Grande Loja da França (1894). Em 1905, essas vantagens se estenderam até a completa autonomia, de modo que o Rito está atualmente dividido em duas partes que, no entanto, constituem a unidade escocesa: o Supremo Conselho, que continua a administrar as lojas do 4º ao 33º grau, e a Grande Loja da França, sob cuja jurisdição operam as lojas do 3º ao 4º grau.

A Grande Loja da França herdou, portanto, o legado espiritual da Maçonaria do Rito Escocês, a riqueza de seu simbolismo e a generosidade de sua ética. Por meio de constantes retornos às suas raízes, os maçons da Grande Loja da França se esforçam para serem guardiões iluminados das mais puras tradições de tolerância e progresso humano da Maçonaria Universal, respeitando as opiniões pessoais de cada indivíduo em matéria de política, religião e filosofia. De fato, a Ordem Maçônica deve fomentar o livre desenvolvimento de cada indivíduo e o crescimento da fraternidade entre todos os povos, mantendo-se acima dos conflitos de cada época.

janeiro 16, 2026

UMA VISÃO GERAL DA HISTÓRIA DA MAÇONARIA (5/6) - Leonardo Redaelli



O trabalho das lojas foi obviamente severamente prejudicado pela Convenção. Muitas delas, no entanto, praticaram, como frequentemente aconteceu posteriormente na história, uma Maçonaria das sombras e do silêncio, mantendo as brasas acesas. Foi o caso em Toulouse, onde foi relatada a iniciação de "parte do Estado-Maior"; em Marselha, onde, na Loja La Parfaite Sincérité, o Irmão Joseph Clary apresentou seu futuro genro Joseph Bonaparte e o amigo deste, Antoine Saliceti, como Comissário dos Exércitos; em Lyon, onde a maioria dos maçons do Rito Escocês, depois de se posicionarem contra a Igreja Católica Romana, mas também contra o clero constitucional, encontraram a morte, como Antoine Willermoz, ou foram forçados ao exílio, como seu irmão Jean-Baptiste; e, finalmente, em Paris. Aqui, a atividade maçônica é proibida por "moderação", mas continua, no entanto, dentro da loja dos Amigos de Sully, que se tornou La Montagne, por exemplo, mas especialmente no Centre des Amis, em torno do venerável Alexandre Roëttiers de Montaleau, que soube manter a chama acesa nas piores circunstâncias.

Após o Reinado do Terror, as duas obediências maçônicas francesas se esforçaram para reagrupar os elementos que pudessem retomar alguma atividade. Uma concordata foi concluída em 21 de maio de 1799 entre o Grande Oriente e a Grande Loja. Ela previa a fusão das duas obediências sob o nome de Grande Oriente da França. O Irmão Roêttiers de Montaleau foi eleito Grão-Venerável Mestre, e não Grão-Mestre. As Lojas gradualmente se reergueram e a Ordem experimentou um crescimento significativo. Mais uma vez, a Maçonaria ofereceu refúgio às mentes cansadas de contendas e ansiosas por evitar mais violência. A unidade parecia ter sido alcançada entre todos os maçons e todas as Lojas, não fosse, como escreveram Dumesnil de Gramont e Antonio Coen, a existência de algumas células do Rito Escocês zelosas de sua independência. Foi a partir dessas Lojas, e em particular da Loja de Santo Alexandre da Escócia, cujo Venerável Mestre era Godefroy de la Tour d'Auvergne, que o Conde de Grasse-Tilly, membro do recém-formado Supremo Conselho dos Estados Unidos, agiria para fundar, em setembro-outubro de 1804, o Supremo Conselho da França do Rito Escocês Antigo e Aceito, e para promover a formação de uma Grande Loja Geral Escocesa, que elegeu o Príncipe Luís Bonaparte como seu Grão-Mestre. Mas, contrariamente às expectativas dos escoceses, Napoleão não autorizou o que lhe parecia ser um cisma. Ele ordenou que a Grande Loja Escocesa se fundisse com o Grande Oriente, o que foi concretizado em 3 de dezembro de 1804, sob os auspícios do Marechal Kellermann, por meio de um "Ato de União" e uma Concordata equitativa. Esta reservava a jurisdição sobre os Altos Graus ao Supremo Conselho e autorizava as Lojas Escocesas dos três primeiros graus a praticarem seu Rito sob a autoridade do Grande Oriente.

Após a queda de Napoleão, o Grande Oriente apressou-se em proclamar a deposição de seu Grão-Mestre, o Rei José, e do Grão-Mestre Adjunto, Cambacérès, e em arrogar para si jurisdição sobre os Altos Graus da Maçonaria do Rito Escocês, enquanto o Supremo Conselho, composto por dignitários do Império, só pôde reservar seus direitos e hibernar. Só despertaria em 1821, quando o Terror Branco não passava de uma lembrança ruim. Os Bourbons, tendo retornado ao poder, portanto, pouco se preocuparam em perturbar uma Maçonaria que não lhes causava preocupação. Ela ainda lhes parecia em sua verdadeira essência: pessoas boas que se reúnem para trocar gentilezas sem malícia e, em

"Ágapes inocentes", celebrando as alegrias da fraternidade com hinos de ingenuidade medíocre. Em 1818, Luís XVIII nomeou o bispo de La Châtre, um maçom, como seu capelão no bispado de Beauvais.

Quando, em sua acusação contra os Quatro Sargentos de La Rochelle, o Procurador-Geral alude à condição maçônica de dois deles, ele se recusa — com certo desdém — a considerá-la um agravante de sua culpa.

Contudo, a Maçonaria, por força das circunstâncias, ver-se-ia obrigada a apoiar as ações seculares dos liberais. Devemos tentar explicar por que, embora sua influência na Revolução Francesa tenha sido, como vimos, bastante limitada, ela participou do movimento insurrecional de 1830.

O imperador Napoleão, por meio da Concordata com o Papa, aparentava circunscrever humilhantemente o poder deste último; na realidade — como a França só percebeu após a votação sobre a Separação entre Igreja e Estado — o Vaticano havia ganhado ao não mais ser incomodado no próprio domínio ao qual fora relegado: o âmbito espiritual. Por muito tempo, qualquer intrusão em assuntos temporais lhe fora proibida, apesar de suas tentativas discretas e indiscretas, e na prática pouco se perdia — exceto talvez em prestígio — com a codificação dessa proibição. Tornar-se o chefe indiscutível da Igreja Católica conferia ao Papa o direito absoluto de governar a espiritualidade de seus ministros e fiéis. No século XVIII, os parlamentos haviam limitado esse direito, submetendo suas manifestações ao seu exame crítico ou à discrição do monarca. A recusa em ratificar as bulas papais contra os maçons é um exemplo típico. Após a assinatura da Concordata, pelo contrário, toda a Igreja Católica retornou à autoridade do Santo Padre, e as excomunhões papais, para usar uma expressão maçônica, recuperaram sua "força e vigor". Como resultado, o clero abandonou suas lojas, e os devotos nutriram hostilidade contra os maçons, hostilidade alimentada pelas fofocas de padres incultos e, já, por jornais que exploravam a credulidade de seus leitores. Sente-se em seus pronunciamentos um quê das calúnias do Abade Barruel.

O ódio a essas figuras apostólicas, em reação, tornou-se tema de discussões maçônicas. Como poderia ser diferente? De fato, corria o risco de pôr em perigo a própria existência da Ordem se os conselheiros de confiança de Carlos X, que lideravam o então chamado "partido sacerdotal", conseguissem superar o ressentimento latente do povo francês, a quem a Carta de 1814, ao restaurar o termo ofensivo "súditos", havia confiscado as conquistas cívicas da Revolução. Assim, é inegável que, mesmo que não tenham orquestrado secretamente a queda do regime, as lojas maçônicas contribuíram com toda a sua fé, e por meio da atividade beligerante de seus membros, para a explosão de fúria que varreu o trono Bourbon.

Este é um fato crucial na história da Maçonaria.

Até então, podia-se dizer que a nação havia permanecido simplesmente espectadora dos acontecimentos. O fato de alguns de seus membros terem se envolvido como atores nesses eventos não constitui uma contradição, visto que lhes era constitucional e efetivamente garantida total liberdade de ação e pensamento, assim como hoje. Mas, após a Revolução de Julho, veríamos a nação se vangloriar — pela primeira vez — de ter ajudado a estabelecer uma era menos retrógrada. Não dizemos uma era liberal porque o rei cidadão logo frustraria as esperanças de seus apoiadores iniciais. A celebração que realizou em homenagem ao General Lafayette na Prefeitura de Paris, a exaltação de seus heróis que morreram pela "causa sagrada", seus cânticos e discursos testemunham claramente suas preocupações políticas. O Rito Escocês certamente compartilhou da alegria geral, já que seu Grão-Comandante, o Duque de Choiseul, presidiu a cerimônia em honra ao "libertador de dois mundos", mas, ainda assim, percebia-se que a Ordem não desejava que essa postura, embora justificada por um sólido instinto de autodefesa, determinasse um rumo contrário aos seus princípios. A prova disso reside no fato de que, quando os maçons, veteranos da Revolução de Julho de 1830, buscaram, sob os auspícios do próprio Lafayette, que concordou em ser seu Venerável Mestre Honorário, criar uma nova loja com o título "Les Trois Jours" (Os Três Dias), eles fracassaram apesar de, ou talvez por causa de, seu plano de ação.

Acabamos de examinar a breve história desta loja, com seu título duplamente simbólico. Sua liderança incluía os mais eminentes maçons: além de Lafayette, o deputado Alexandre de Laborde, o banqueiro Laffitte, o Venerável Mestre, o prefeito do 4º arrondissement, Ch. Cadet de Gassicourt, o Dr. de Laborde, o futuro ministro Odilon Barrot e o explorador Crampe. Mas, após sua instalação, o General Ch. Jubé, Grande Secretário Geral do Supremo Conselho, revogou sua carta constitutiva, visto que, mesmo antes de sua integração oficial, a loja havia acompanhado, com a bandeira desfraldada, o cortejo fúnebre do General Lamarque e que pretendia, no próprio dia de sua instalação, admitir um refugiado polonês. O recurso apresentado, apoiado apenas timidamente ou não apoiado de forma alguma pelos fundadores que pertenciam ao Supremo Conselho, foi em vão e, de acordo com os regulamentos, esta loja foi dissolvida.

Luís Filipe, filho do primeiro Grão-Mestre do Grande Oriente, cuja benevolência era esperada e que, esperava-se, colocaria ou permitiria que seu filho fosse colocado à frente da Ordem, já demonstrava uma hostilidade dissimulada tanto às instituições quanto aos homens que o haviam levado ao poder.

Por sua vez, a Maçonaria demonstrou prudência e discrição, retornando à sua verdadeira tradição.

Ela acabara de sair de sua torre de marfim. Um precedente perigoso. Raciocinando em termos absolutos, ela por vezes se mostrou errada. Mas existem circunstâncias na vida das nações que transcendem a vontade dos indivíduos e comprovam a falibilidade de suas leis. Tolstói demonstrou isso profeticamente em Guerra e Paz. E nós mesmos testemunhamos isso quando, durante um episódio famoso, acadêmicos até então conhecidos por seu desprezo por contingências, escritores de ceticismo quase ostensivo e até mesmo sociedades científicas se envolveram no conflito ideológico que dividiu o país em dois campos resolutamente opostos. O perigo de tais ações reside na dificuldade de recuperar a serenidade perdida.

......CONTINUA AMANHÃ......