janeiro 31, 2026

UMA ERA DE MODERNISMO COM CRITÉRIO, MAS, PROGRESSISTA




Artigo de Bruno Bezerra de Macedo


“Tudo me é permitido, mas, nem tudo me convém”, esclarece Paulo em sua primeira carta aos Coríntios, como que a admoestar a Saulo de Tarso, que ainda em si habita com sua irreverência, sua euforia e, principalmente, com seu proativo stalking sempre direcionado ao que lhe é contrário. Saulo é para Paulo o que o lado negro é para a lua: obscuro, tenebroso e, indiscutivelmente, imprevisível. Todos nós temos um lado escuro, cuja força indelével é domada pelos limites que lhe impomos, pois, ainda que reine licitude, todo feito tem consequências, sendo sábio e sadio aferir se seus efeitos trazem bonança e protagonismo à coletividade da qual se é parte.

Responsáveis socialmente, ao invés de uma imagem idealizada do Brasil, os modernistas traziam uma visão antropofágica retratada numa arte comprometida com a realidade nacional – crítica e, por vezes, "grotesca" da identidade nacional –, “afastando-se da mera cópia dos modelos europeus” – frase que define o cerne da independência cultural brasileira. Proposta por Oswald de Andrade, a antropofagia não significava rejeitar a cultura europeia, mas sim "devorá-la", absorvendo suas técnicas vanguardistas e reprocessando-as com elementos nativos (indígenas, africanos e populares) para o ciese do (i)novo – autêntico e original – permanente desde então no Brasil.

Os modernistas revolucionam a literatura brasileira, permitindo que ela passasse de uma "mera herança cultural" para uma "composição cultural" autônoma. Liderado por figuras como Mário de Andrade e Oswald de Andrade, o movimento buscou romper com o academicismo, o parnasianismo e a dependência estética de Portugal e da França. Houve uma forte valorização da identidade brasileira, da língua coloquial (o "português falado no Brasil" em vez do padrão lusitano), das lendas, da fauna, da flora e da temática social brasileira. Especialmente com a Geração de 30, a literatura mergulhou nos problemas sociais do Nordeste e de outras regiões.

O Estado Novo (de Vargas) auroresceu os anos 30, valorizando o modernismo, mas, depurado de suas experiências mais radicais, transformando-o em símbolo oficial do nacionalismo cívico. Aproveitou-se do conceito de miscigenação (influenciado por Gilberto Freyre) e fomentou a ideia de união nacional, transformando elementos da cultura popular, como o samba e o futebol, em símbolos oficiais do país. O modernismo é (desde sempre) uma ferramenta cultural que dialoga com as estruturas autoritárias e nacionalistas, não só da Era Vargas, e agindo constantemente como mediador, apoiando desde o nacionalismo varguista, enquanto a arte oficial focada na ordem, pátria e no trabalho, até a construção da identidade brasileira como a temos hoje.

Justiça seja feita, o positivismo, forte na maçonaria brasileira e no Exército, influencia a busca por uma nova ordem social e cultural, alinhando-se com o desejo de renovação dos modernistas, a pleno vapor na Era Vargas. A Maçonaria, no Estado Novo, atuou no bastidor político e educacional para a "modernização educativa" do Brasil, através da defesa da educação laica e racional. Embora não haja um registro unânime sobre quais modernistas eram maçons ativos, a influência do liberalismo maçônico preparou o terreno intelectual para a aceitação de novas ideias estéticas e filosóficas propostas pelos modernistas, sendo parte da história intelectual brasileira. Ainda assim, cabe destacar entes humanos magníficos como Benjamim Constant – capital intelectual maçônico cativante – que deixaram seu legado glorioso a disposição dos Brasileiros

Embora a Maçonaria seja uma instituição tradicionalmente masculina, muitos maçons apoiaram as causas sufragistas do início do século XX, vendo o voto feminino como uma extensão natural da liberdade civil e da cidadania. Sob este auspício, o Brasil instituiu o voto feminino em 24 de fevereiro de 1932 – a exemplo do Equador que o fez primeiro – por meio do Código Eleitoral promulgado por Getúlio Vargas, que não foi Maçom, porém, era virilmente influenciado por seu pai, Manoel do Nascimento Vargas (Loja Vigilância Fé) e pelos irmãos, Coronel Manoel Viriato Dornelles Vargas (Loja Brasil) e o Coronel Protásio Vargas (Loja Brasil). Quem sai aos seus, não degenera!

Decididamente, a relevância do voto feminino vai muito além do simples ato de depositar uma cédula na urna; ele é o alicerce da democracia moderna e o ponto de partida para a conquista de direitos civis básicos para as mulheres. Antes do sufrágio, as mulheres eram frequentemente consideradas juridicamente incapazes, subordinadas a pais ou maridos e impedidas de participar de decisões públicas. O direito ao voto simbolizou o reconhecimento da mulher como cidadã plena, com voz própria e capacidade de influenciar os rumos da nação, como deve ser! Atualmente, as mulheres são a maioria do eleitorado (cerca de 52,4%), o que as torna a força decisiva na escolha de representantes em todos os níveis.

Uma democracia só é plena quando todos os grupos da sociedade estão representados. O voto feminino permitiu que pautas específicas (saúde da mulher, proteção à infância, equidade no trabalho) entrassem na agenda política. A legislação evoluiu para garantir que pelo menos 30% das candidaturas sejam de um dos gêneros, além de exigir que recursos públicos de campanha e tempo de TV sejam distribuídos proporcionalmente às candidatas. A entrada das mulheres na política pressionou por legislações que antes eram ignoradas. Conquistas como o direito à educação superior e igualdade salarial, dentre outras, são exemplos de leis que foram impulsionadas por essa maior participação e representatividade.

Getúlio Vargas, embora tenha suspendido atividades de maçonaria durante o Estado Novo, promulgou a CLT, concluindo a semeadura de Washington Luiz, que abrira caminho para isto com a criação de Câmara de Mediação. Muitos juristas e políticos influentes na época, maçons ou influenciados por seus ideais de "fraternidade", defendiam a regularização do trabalho para evitar conflitos de classe. Cabendo destacar, Joaquim Pedro Salgado Filho, Primeiro Ministro do Trabalho, Indústria e Comércio (1932-1934), responsável pela criação da Carteira de Trabalho e das regulamentações sobre férias e jornada. Salgado Filho, maçom dedicado, teve grande participação na Loja Capitular Harmonia, sendo considerado ícone da maçonaria paraense e sustentáculo do jornal maçônico "O Pelicano”.

Orgulhosamente, desde 1943, o Brasil é referência na proteção ao trabalhador devido à robustez de sua legislação trabalhista, especialmente a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que consolidou direitos fundamentais e continua sendo um dos conjuntos de leis mais extensos do mundo.  Sob a regência do nível e do prumo, o direito do trabalho brasileiro é guiado pelo "princípio da proteção" (norma mais favorável ao trabalhador), que visa equilibrar a relação de desigualdade entre patrão e empregado. Plenamente absorvida pela Constituição Federal de 1988, que colocou o trabalho como direito fundamental e fortalecendo a proteção social, as garantias já existentes na CLT foram ampliadas.

A participação da maçonaria na elaboração técnica do direito brasileiro não só é incontestável, como formidável são seus produtos. E no Estado Novo de Vargas isso não foi diferente. O Código de 1940 refletia o caráter técnico e secular, consolidando a autoridade do Estado na aplicação da norma penal, um princípio caro à visão positivista compartilhada por muitos maçons da elite política. Roberto Lyra, renomado jurista brasileiro conhecido como o "Príncipe do Ministério Público" e Grande Orador do Grande Oriente do Brasil (Loja Liberdade e União) foi o principal responsável pela parte do Código Penal que trata das medidas de segurança.

Sendo o terceiro e mais longevo código da história do Brasil, O Código Penal Brasileiro demonstra prodigiosa capacidade de adaptação através de reformas pontuais, mantendo sua Parte Geral técnica, enquanto a Parte Especial evolui sempre que pertinente para acompanhar as mudanças sociais. Funciona hoje como uma "tríade" junto ao Código de Processo Penal e à Lei de Execução Penal, garantindo que o convívio em sociedade seja regido por normas claras e previsíveis. Com o advento da Lei de Execução Penal (1984), o sistema buscou ir além do castigo, focando na reeducação do condenado. Absorvido pela Constituição Federal de 1988, O Código firmou-se como instrumento que operacionaliza princípios constitucionais como a Legalidade (não há crime sem lei anterior) e a Humanidade das penas (proibição de tortura ou penas cruéis).

Sob a tutela modernista avança o Brasil sempre progressista. Além da arte, o ideário modernista influenciou o urbanismo e a arquitetura, culminando em projetos como a construção de Brasília, que ainda hoje estimula a busca por um Brasil moderno, funcional e com identidade própria. tendo “voz” a partir da liberdade de expressão, livre dos condicionamentos trazidos por quem não tem em si a brasilidade nativa, vetores que impulsionam a nação a superar-se diuturnamente, valorizando a língua falada pelo povo, os temas nacionais, o folclore, a cultura popular. ao contestar o tradicional e abraçar a liberdade de estilo, o Modernismo forçou o Brasil a olhar para suas próprias peculiaridades com mais consciência, senso de humor, ironia e, sobretudo, discernimento crítico.   

Discernir me lembra que “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém" (1 Coríntios 6:12), significa que, embora o ser humano tenha livre arbítrio para realizar qualquer ação, nem todas as escolhas são benéficas, construtivas ou saudáveis para si, para a família ou para a comunidade. Traz como conceito central a liberdade com responsabilidade, pois, embora o ser humano possua o livre-arbítrio para agir como desejar, a maturidade reside em filtrar essas ações através de dois critérios: Edificação - ação que constrói algo positivo para si ou para o próximo - e Domínio Próprio - A capacidade de não se tornar escravo de seus próprios desejos ou hábitos. É um "choque" de realidade que nos leva à reflexão sobre a "brasilidade".





DEBATE: A SUBLIME.ORDEM EM DECLÍNIO? PARA ONDE VAMOS?

Debate realizado no dia 25 de janeiro na ARLS LUX in TENEBRIS com a mediação do irmão Márcio Gomes e os debatedores Roberto Zardo e Michael Winetzki. Imperdível.



 

PARA ONDE VAMOS ? - Adilson Zotovici




Partida por tirocínio

Até aqui hoje marchamos

Tentaram até seu extermínio

As investidas rechaçamos


Fez valer o predomínio

Por aquilo que lutamos

Que causou até fascínio

Onde quer que labutamos


Artesãos com o domínio

Em destras mãos que exaltamos

Que de outrora o vaticínio

E que agora especulamos 


Do Grande Arquiteto Patrocínio

Na filosofia baseamos

Simbologia,  raciocínio...

Com afeto compartilhamos


Prime agora bom escrutínio

Donde chegamos, indagamos:

A Sublime Ordem em declínio ?...

Para onde vamos ?


PRAZO DE VALIDADE - Newton Agrella



Desnecessário ser tão astuto para perceber que somos contemporâneos de  uma geração tão impermeável que sente falta, mas não procura;

Discute mas não estuda;

Gosta, mas não demonstra;

Tem nas mãos, mas não valoriza; 

Erra demais, mas não se desculpa

E na grande maioria das vezes, perde por deixar a ignorância e a arrogância falarem mais alto

E não adianta sair por aí procurando os culpados.

Essa impermeabilidade que tanto prejudica as relações humanas e acaba por impedir a fluidez do entendimento e o espírito conciliador entre as pessoas, em praticamente todos os segmentos da sociedade, tornou-se um instrumento bélico, onde a luta irrepresável pela sustentação de um ponto de vista, virou "questão de honra" ou uma "piéce de resistance" diante de um objeto de discussão, mesmo que a inteligência, o bom senso e o discernimento sejam solenemente relegados a um segundo plano

Na onda desta nossa geração contemporânea, o que  vale é o que ostenta mais atenção e rende mais discussões, inobstante o fundamento e a consistência de seu significado

Debate-se para vencer, e não para criar novas ideias.

Discute-se para mostrar algum tipo de superioridade e não com o propósito de encontrar solução

Teima-se e persiste-se na manutenção de um argumento, por mais  improcedente que possa ser, sem permitir ou abrir espaço para uma contra-argumentação.

Sejamos justos. 

Na própria maçonaria brasileira a frequente inconsistência e inversão de valores se manifestam neste nosso fragmento de tempo, independente da diversidade de faixa etária ou até mesmo do grau maçônico e sobretudo do nível intelectual de seus membros.

O tão decantado caráter universal da Maçonaria, a cada pouco, sofre alguns atentados ideológicos que ganham singelos codinomes, tais como; Disruptiva,  Executiva, Política, Religiosa, Desmistificada ou seja lá o adjetivo que for, mas que a rigor, constituem-se em  tentativas de descaracterizar a essência filosófica e dialética da Sublime Ordem, sempre em nome de uma ação de modernidade, vanguardismo e transformação.

Mudar é bom, novos ares oxigenam o cérebro, evoluir é a missão, porém antes de tudo isso, aprimorar o nível de consciência humana é o que de mais  valor a Maçonaria nos oferece.

Nada mais eficaz do que, a cada pouco, revisitarmos a nossa Câmara de Reflexão e revermos os nossos conceitos.



janeiro 30, 2026

DO NUMERAL - Heitor Rodrigues Freire


O meu objetivo com esta série de artigos sobre a gramática e seus componentes é lançar um novo olhar sobre as peculiaridades do nosso idioma, o que, para muitos, é algo indigesto.

Desta vez trataremos dos numerais, uma classe gramatical relacionada com os números e as formas como eles contabilizam os elementos numa frase. Os numerais são uma classe de palavras variáveis que expressam quantidade, ordem, multiplicação ou fração de seres e objetos, sendo classificados em cardinais – que indicam uma quantidade exata  (um, cem, mil) – , ordinais –  que indicam ordem ou posição, (primeiro, terceiro, centésimo) –, multiplicativos – que indicam um múltiplo (dobro, triplo, quádruplo) –, fracionários – que indicam divisão ou parte de um todo (meio, terço, quarto) e coletivos – que indicam um conjunto de seres (dúzia, centena). Os numerais podem ser escritos por extenso (um, dois) ou em algarismos (1, 2), e indicam um valor numérico ou posição em uma série.  

Há uma diferença entre número, a ideia abstrata de quantidade, e numeral, que é a palavra ou símbolo que representa o número, a sua representação gráfica. E há também o algarismo, que é o símbolo de um numeral decimal.

Mas o que nos interessa mesmo é a abordagem filosófica, ou seja, quando o numeral transcende a mera contagem, sendo visto como princípio estruturante do universo.

Esse tema mereceu atenção especial de grandes pensadores como Pitágoras, Platão, e, mais recentemente, Carl Jung. 

Para Pitágoras, o número é a arché, o princípio fundamental de tudo: “O cosmos é ordem numérica, harmonia e proporção”.

Já Platão distingue o número sensível (matemático) da ideia numérica (realidade superior e espiritual). O neoplatonismo diz que o número organiza o caos primitivo, sendo um princípio espiritual que tece a ordem cósmica.

Já Jung entende que o número é o arquétipo da ordem e a ponte entre psique e matéria, organizando o caos e ligando o mundo interior ao exterior. 

A filosofia investiga se os números são invenções (abstratos) ou descobertas (reais), e sua relação com a experiência humana e a verdade. 

Na Índia antiga, o súnia (zero/vazio) era um conceito filosófico e numérico, um ponto inicial ou o todo, fundamental para o sistema decimal. 

Filosoficamente, o numeral é muito mais do que um símbolo: é a chave para entender a estrutura do universo, a natureza da realidade e a própria consciência, sendo um conceito que permeia desde a matemática pura até os arquétipos mais profundos da psique humana. 

Assim, fica clara a importância da abordagem filosófica como meio de um entendimento melhor de tudo.

Heitor Rodrigues Freire – Corretor de imóveis e advogado.

A PRÓXIMA CURVA DA VIDA

 


Esta imagem foi feita em 1898, em algum ponto da Rua da Alfândega, no coração do Rio de Janeiro.

O menino se chamava Benício. Tinha uns seis anos, talvez sete, ninguém sabia ao certo — a mãe dizia uma idade, o batistério dizia outra.

O cachorro, todo ossudo e ligeiro, era chamado de Pintado. Por causa das manchas escuras no lombo claro.

A fotografia foi feita por um francês que passava pela cidade com um tripé de madeira e uma daquelas máquinas grandes, de pano preto e pose demorada.

Quis registrar “o espírito popular da capital do império”, segundo ele.

Mas naquele dia, o que ele viu foi só um menino sentado na calçada com um cachorro magrelo dormindo ao lado.

Benício não morava em casa. Dormia embaixo do balcão da quitanda da Dona Assunção, que deixava ele ficar ali contanto que ajudasse a espantar pombo e carregar sacola.

Era rápido, esperto, bom de conversa e ruim de escola — porque nunca tinha entrado numa.

Mas sabia de cor os nomes dos navios no cais, o preço da farinha e o som que o bonde fazia ao virar a esquina da rua do Ouvidor.

Pintado apareceu certo dia, tropeçando entre as rodas de uma carroça.

Tinha só três patas boas, a outra virada pra dentro. Um olho lacrimejava o tempo todo.

Mas abanava o rabo com uma teimosia que só quem já passou fome entende.

Benício dividiu o pão dormido. Depois o osso. Depois a coberta velha.

E pronto. Eram dois.

Andavam juntos, dormiam juntos, mendigavam sombra nos mesmos cantos.

Pintado era pequeno, mas valente. Latia pra qualquer um que se aproximasse de Benício enquanto ele dormia.

E quando o menino tossia à noite, era ele quem lambia seu rosto pra acordá-lo.

O francês tirou a foto e prometeu mandar uma cópia revelada. Nunca mandou.

Mas Dona Assunção, que viu a cena, pediu outra cópia, pagou com uns trocados, e colou a imagem na parede do balcão.

Ficou lá por décadas.

Gente entrava, comprava laranja, olhava a foto e perguntava:

“Quem são?”

E ela respondia:

“São dois que se amavam com fome e silêncio.”

Anos depois, ninguém soube direito pra onde Benício foi.

Dizem que entrou como ajudante num navio estrangeiro.

Dizem que virou estivador no cais de Santos.

Dizem que morreu de febre em Belém.

Pintado ficou um tempo pela rua. Voltava toda noite pra frente da quitanda.

Depois sumiu.

Talvez tenha ido atrás do dono. Talvez tenha cansado.

Ou talvez tenha sido levado por aquele amor que nem a morte separa, só desloca de tempo.

Hoje, a fotografia está guardada num acervo esquecido de imagens antigas.

Amarelada, com fungo nas bordas.

Mas se alguém olhar com calma, ainda vai ver:

o sorriso torto de um menino de rua

e a orelha em pé de um cachorro remendado,

esperando, pra sempre, a próxima curva da vida.

Fonte: Facebook

janeiro 29, 2026

QUANDO A AUSÊNCIA É PRESENÇA E CAMINHO - Rui Calado



Que motivação pode ter um homem de sessenta anos para percorrer centenas de quilómetros e estar apenas duas horas numa reunião maçónica? 

Vista de fora, a pergunta parece legítima, quase prática. 

Vista de dentro, porém, revela outra coisa: a dificuldade de medir o valor do que não é imediato, do que não se traduz em conforto ou descanso.

Aos sessenta anos, o tempo já não se oferece com a generosidade distraída da juventude. 

Cada viagem pesa no corpo, cada ausência se faz sentir em casa. 

Ficam a família, a mesa que se adia, os silêncios partilhados que não se repetem. 

Um homem dessa idade sabe bem o que deixa para trás quando fecha a porta. 

E é precisamente por saber isso que a decisão de partir nunca é leviana.

Ele não vai por fuga, nem por desinteresse pelos seus. 

Vai, muitas vezes, com o consentimento silencioso de quem fica, sustentado por uma compreensão feita de anos, de rotinas partilhadas e de respeito mútuo. 

Há, nesse gesto, uma forma discreta de confiança: a família sabe que aquela ausência tem sentido, mesmo que não precise de ser explicada.

A Maçonaria, para quem a percorreu ao longo de uma vida, deixa de ser um espaço exterior à existência quotidiana. 

Integra-se nela. 

Torna-se parte daquilo que moldou o homem que regressa a casa: mais atento, mais sereno, mais consciente dos seus limites e deveres. 

A viagem não o afasta da família; paradoxalmente, ajuda-o a voltar mais inteiro para ela.

Na Loja, essas duas horas não são apenas tempo ritual. 

São um reencontro com uma fidelidade antiga, com Irmãos que também deixaram algo para trás para ali estar. 

Cada presença é, nesse sentido, um acto de respeito mútuo: ninguém ignora o custo que aquele encontro teve na vida privada de cada um.

Percorrer centenas de quilómetros é, assim, um gesto simples e profundo. 

Não é heroico, nem exibido. 

É um compromisso assumido com lucidez, onde o dever não se opõe ao afecto, mas dialoga com ele. 

O homem que parte sabe que a família é o seu primeiro templo — e talvez por isso trate o segundo com igual reverência.

No regresso, traz consigo o cansaço do corpo e uma quietude diferente no olhar. 

Regressa a casa não como alguém que se ausentou, mas como alguém que cumpriu. 

E nesse equilíbrio frágil entre partir e voltar, entre estar fora e estar presente, constrói-se uma forma madura de fidelidade — à Ordem, à família e a si próprio.


A TORRE DE BABEL 2.0 - Dário Angelo Baggieri


 No crepúsculo da era digital, onde telas piscam como estrelas falsas e o homem corre atrás de likes efêmeros, surge a dúvida antiga:  vale a pena ser maçom, guardião de símbolos eternos, em tempos de templos virtuais e rituais esquecidos?

Olhe ao redor: o mundo grita em caos.  Guerras frias viram quentes em posts; virtudes se dissolvem em algoritmos. E a fraternidade, onde fica?  Está se tornando “um meme” passageiro.

Por que vestir o avental, erguer o malhete, quando o esquadro da vida parece torto?  Pergunta coloquial que muitos fazem.  Mas pare, irmão, e contemple o Oriente.

A Maçonaria não é relíquia de museu, nem clube de segredos para curiosos.  É forja de almas, lapidação do artífice de si próprio, onde o eu bruto vira pedra polida.  Analisando pela batuta do sábio mestre, concluímos que, nos dias atuais, vale mais do que nunca.

Vivemos na Torre de Babel 2.0:  línguas confusas em redes sem alma, onde o ego reina soberano e solitário.

Ser maçom é rebelar-se contra isso:  juntar mãos em Loja, olhos no mesmo ideal, construir pontes sobre abismos de ódio.  Vale pela ética que o mundo perdeu.

Princípios como pedras angulares da Ordem —  Liberdade, Igualdade e Fraternidade — sempre orientarão nossas condutas e posturas.  Não em discursos vazios, mas em atos, no silêncio do juramento, no toque sagrado.

Persistimos na caminhada da verdadeira Luz, enquanto o mundo negocia almas por poder.  Vale pela busca interior, quando o ter suplanta o ser.  O maçom desce às profundezas do templo, enfrenta sombras no Quarto de Reflexões e emerge com a luz da razão acesa.  No “Instagram” da existência, ele posta virtude.

E a filantropia?

Ah, não é pose, arrogância ou leviandade.  É trabalho voluntário e abnegado.  As Lojas tecem redes de solidariedade, ajudam as viúvas, educam o órfão, sem holofotes ou hashtags vazias.  No seio da Verdadeira Maçonaria, berço de templos vibrantes, vemos isso pulsar: mãos unidas no escuro.

Críticos da Ordem ululam e gritam:  “Arcaica! Elitista!”

Mas esquecem: a Maçonaria é universal, abre portas a todos que buscam crescer.  Não é para preguiçosos de espírito, mas para quem labuta na própria obra.  Vale pela disciplina que o mundo abandonou.

Hoje, com fake news como pragas, o maçom cultiva a verdade como planta rara.  No ritual, aprende a discernir o ouro do chumbo, a geometria da retidão em curvas sociais.  Ser maçom é ser farol em noites de eclipse.

E o mistério?

Em tempos de tudo exposto, o véu do Templo guarda o sagrado.  Não é segredo por segredo, mas por proteção: a luz cega os despreparados.  Vale pela jornada iniciática, eterna como o sol que nasce no Oriente.

Duvida ainda?

Olhe para líderes caídos, políticos sem bússola, ricos sem alma.  O maçom, lapidado, resiste à erosão.  Constrói catedrais invisíveis: de caráter firme, de irmandade viva.  Nos dias atuais, com a IA ditando destinos e a solidão em meio à multidão conectada, a Maçonaria é o antídoto humano:  um círculo de irmãos, real e tátil, onde o malhete ecoa: “Melhore-se!”

Vale a pena?

Sim, mil vezes sim.  Não por glórias passageiras ou títulos, mas pela Obra Magna da alma em construção.  Seja aquele que busca a perfeição, sob as bênçãos do Grande Arquiteto que guia o traçado.  Levante-se, irmão, e responda ao chamado.  O mundo precisa de mais Pedreiros Livres.  A Loja espera.  O Oriente brilha.

Ser maçom hoje?

Vale não por glórias de pó estelar, passageiras como névoa matinal.   É valer a pena em cada traço do compasso da virtude.  É valer a pena em cada sílaba do Grande Livro da Vida.

Fonte: O Malhete

RITOS MAÇÔNICOS - Almir Sant’Anna Cruz


Um Rito maçônico pode ser definido como um conjunto de cerimônias usadas nos atos litúrgicos e identificam-se cada um deles pela forma como se realizam os rituais, pelo comportamento comunitário padronizado, pelas ações que se executam periódica e repetitivamente, enfim, pelas regras e preceitos com os quais se comunicam os sinais, toques, palavras, graus e todas as demais instruções veladas decorrentes. 

Cada Potência Maçônica elabora e distribui seus Rituais impressos de cada Rito, para os Graus simbólicos.

Qualquer que seja o Rito praticado por um Maçom, ele é reconhecido como Irmão por todos os demais Maçons do mundo, pois a Maçonaria é universal e os Ritos são meramente formas diferenciadas de praticá-la.

As Lojas maçônicas possuem autonomia para decidir o Rito a ser adotado em suas sessões litúrgicas, bem como a de trocar de Rito se assim for o desejo daqueles que integram o seu quadro. 

No Brasil praticam-se os seguintes Ritos pelas Potências Maçônicas consideradas regulares:

*- Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA)* Criado na França, é o mais difundido no Brasil

*- Rito ou Regime Escocês Retificado (RER)* Criado na França é o mais recentemente introduzido no Brasil.

*- Rito Adonhiramita* Criado na França, foi introduzido no Brasil colonial pelo Grande Oriente Lusitano. Adormeceu no mundo todo, sendo preservado somente no Brasil e recentemente reexportado para Portugal.

*- Rito Moderno ou Francês* Criado na França, foi introduzido no Brasil colonial pelo Grande Oriente de França. É o Rito oficial do GOB desde a sua fundação em 1822.

*- Rito Brasileiro* Criado no Brasil.

*- Rito Schröder* Criado na Alemanha e introduzido no Brasil pela colônia alemã.

*- Rito ou Ritual de Emulação* Criado na Inglaterra e introduzido no Brasil por britânicos. É denominado incorretamente no GOB como sendo Rito de York (Emulação).

*- Rito de York ou Rito de York Americano* Criado na Inglaterra e exportado para os Estados Unidos, de onde veio para o Brasil. 

*- Rito de São João* Criado na Hungria e introduzido no Brasil pela colônia húngara. É praticado por pouquíssimas Lojas, todas jurisdicionadas à Grande Loja Maçônica do Estado de São Paulo.

Essa diversidade de Ritos, que se interpenetram e se completam, dá aos Maçons brasileiros uma oportunidade ímpar de ampliar seus conhecimentos sobre a Maçonaria, abrangendo, inclusive, a essência do Iluminismo, movimento que derrubou a tirania, os preconceitos, as superstições e a ignorância. 

Além desses 9 Ritos praticados pelas Potências Maçônicas nacionais consideradas regulares, temos ainda:

*- Rito de Mêmfis-Misraim* Criado na França, é trabalhado sobretudo por Potências Mistas e Femininas.

*- Rito ou Ritual Lauderdale* Criado na Inglaterra, vinha sendo praticado unicamente pela Ordem Maçônica Mista Internacional Le Droit Humain – Federação Brasileira, a partir da aprovação do Supremo Conselho Le Droit Humain para o Império Britânico. Parece que foi substituído pelo Ritual de Emulação.

Do livro *O que um Mestre Maçom deve saber - interessados no livro contatar o autor, Irm.’. Almir, no WhatsApp (21) 99568-1350 - Exclusivo para Mestres Maçons

janeiro 28, 2026

A MORTE DE HENRIQUE VIII - Renato Drummond Tapioca Neto



Nas primeiras horas da madrugada do dia 28 de janeiro de 1547, falecia aos 55 anos o rei Henrique VIII da Inglaterra, no Palácio de Whitehall, em Londres. Há anos, o monarca sofria com sérios problemas no trato digestivo, agravados pela obesidade, e por sua perna ulcerada, que lhe causava fortes dores e às vezes o impossibilitava de andar. À beira da morte, o soberano mal conseguia se comunicar.

Segundo Antonia Fraser: "Nos seus últimos dias, só membros do Conselho Privado e os Cavalheiros da Casa Real tinham tido permissão para vê-lo. [...] No entanto, quando o arcebispo pediu ao rei que lhe desse algum sinal, com os olhos ou com a mão, de que confiava em Deus, o rei conseguiu apertar a mão de Cranmer" (2010, p. 521). Nem a rainha Catarina Parr ou as filhas do monarca, Lady Mary e Lady Elizabeth, se encontravam presentes na ocasião. Elas partiram para o Palácio de Greenwich na véspera do Natal de 1546 e nunca mais voltariam a ver o soberano com vida.

Catarina Parr acabou se tornando a última das seis esposas de Henrique VIII, usufruindo do título de rainha-viúva, das joias, rendas e propriedades que lhe haviam sido garantidas pelo casamento real. Imediatamente após a morte do rei, a família Seymour tratou de tomar as rédeas dos assuntos de Estado, com Sir Edward Seymour, agindo como regente em nome do sobrinho.

De acordo com o último Ato de Sucessão aprovado pelo Parlamento durante o reinado de Henrique VIII, em 1543, a coroa passaria para seu único filho varão, o príncipe Edward VI. Na ausência de filhos do novo rei, o trono seria herdado pela filha mais velha de Henrique, Lady Mary. Depois dela, vinha sua meia-irmã, Lady Elizabeth. As duas as princesas foram readmitidas pelo soberano como sucessoras legítimas e, após a morte precoce do irmão em 1553, ambas chegaram a governar. Essa talvez seja uma das maiores ironias na história do rei Henrique VIII. Após disputas políticas e religiosas que custaram as vidas de mais de 72 mil pessoas para que os ingleses fossem governados por um sucessor masculino, foram as duas filhas do monarca que provaram aos seus contemporâneos o quão preparadas eram para o exercício do poder!

Imagem: Tela gerada por I.A., segundo as descrições das últimas horas do rei Henrique VIII. Os irmãos Seymour estão presentes na cena, enquanto o arcebispo de Canterbury, Thomas Cranmer, administra o último sacramento ao monarca.

MAÇONARIA E DIPLOMACIA NA CONSTRUÇÃO DO ESTADO BRASILEIRO

 

Alexandre de Gusmão 


Uma tradição invisível da política externa nacional

Um artigo de Helio P. Leite 

Durante mais de dois séculos, a diplomacia brasileira foi conduzida por homens, que além de estadistas, juristas e políticos, partilhavam uma mesma formação simbólica, ética e intelectual: a Maçonaria. Essa presença, pouco explorada pela historiografia tradicional, revela a existência de uma tradição invisível que atravessa o período joanino, o Império, a República e o sistema internacional do século XX.

Não se trata de sugerir uma diplomacia secreta ou conspiratória. Trata-se de reconhecer que a Maçonaria funcionou, no Brasil, como uma escola informal de formação de elites, fornecendo linguagem comum, redes de confiança e uma ética no serviço público que moldaram profundamente o ethos do Itamaraty.

Desde antes da Independência, essa influência é perceptível. Alexandre de Gusmão, formulador do princípio do uti possidetis, lançou as bases da diplomacia territorial portuguesa na América. Poucas décadas depois, José Bonifácio de Andrada e Silva, patrono da Independência e maçom ativo, estruturou simultaneamente o novo Estado e sua política externa.

No primeiro reinado e no período regencial, figuras como Rodrigo Anes de Sá Almeida e Menezes, Marquês de Abrantes; José Clemente Pereira; Pedro de Araújo Lima, Marquês de Olinda; Honório Hermeto Carneiro Leão, Marquês de Paraná; e Paulino José Soares de Souza, Visconde de Uruguai, consolidaram uma diplomacia de Estado fundada no legalismo, na centralização institucional e na defesa da soberania.

No Segundo Reinado, a presença maçônica na alta diplomacia tornou-se particularmente densa. O Livro Maçônico do Centenário, publicado pelo Grande Oriente do Brasil em 1922,lista diversos diplomatas maçons que ocuparam os principais postos europeus:

Francisco Gê de Acaiaba Montezuma, Visconde de Jequitinhonha, ministro em Londres e Lisboa;

Marcos Antônio de Araújo, Marquês de Itajubá, ministro em Paris, Londres e Roma:

Antônio de Menezes de Vasconcelos Drummond, enviado em missões do Prata;

José Francisco de Paula Cavalcanti, diploma e senador liberal;

Antônio Carlos Ribeiro de Andrada;

Pedro Manoel de Toledo;

E José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, um dos pilares da diplomacia Imperial.

Essa lista demonstra que a presença maçônica não foi episódica, mas estrutural e institucional, sobretudo nos grandes centros diplomáticos europeus do século XIX.

Com a transição para a República, essa tradição não se rompeu – transformou-se.

Quintino Bocaiuva, primeiro ministro das Relações Exteriores da República, inaugurou a chancelaria republicana. Ao seu lado, Américo de Campos, Lopes Trovão e Lauro Müller garantiram a continuidade institucional em meio à mudança de regime.

Pouco depois, Joaquim Nabuco, lançou as bases da relação estratégica com os Estados Unidos, inaugurando a diplomacia moderna em Washington. Rui Barbosa, na Conferência de Haia de 1907, projetou o Brasil como potência jurídica ao defender a igualdade soberana dos Estados.

No início do século XX, o Barão do Rio Branco, talvez o maior chanceler da história nacional, consolidou as fronteiras brasileiras exclusivamente por meios pacíficos, transformando o Itamaraty em uma instituição  permanente de Estado.

A linhagem prosseguiu com figuras como Arthur Jaceguai, Alberto Gracie, Alexandre Manoel Vieira de Carvalho e, sobretudo, Osvaldo Aranha, responsável por inserir o Brasil no núcleo decisório do pós – guerra e por presidir a sessão histórica da ONU que aprovou a criação do Estado de Israel.

Em todos esse nomes, ao longo de mais de duzentos anos, reaparece um mesmo padrão: formação jurídica; defesa do direito internacional: valorização da negociação pacífica: busca da autonomia nacional: continuidade institucional; e universalismo moderado.

São princípios que coincidem, de modo notável, com os valores clássicos da Maçonaria: liberdade, igualdade, fraternidade, tolerância, legalismo e progresso moral.

A Maçonaria não controlou a política externa do Brasil, mas ajudou a formar os homens que a conduziram.

Ao funcionar como ambiente duradouro de sociabilidade e formação de elites, contribuiu para moldar não apenas quadros técnicos, mas um ethos diplomático: uma maneira própria de pensar o Brasil no mundo.

Por isso, a história da diplomacia brasileira não pode ser plenamente compreendida sem considerar essa tradição invisível. Não por conspiração. Por formação.


O EXTERMINIO DE MACONS NA ESPANHA - Luciano Ulpia


 

O assassinato em série de maçons tomou grandes proporções nos primeiros dias da eclosão da Guerra Civil Espanhola. Em 1936, as tropas coloniais espanholas em Marrocos revoltaram-se contra a república democrática; a revolta galgou rapidamente o estreito de Gibraltar e espalhou-se para quartéis no continente.

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Em setembro de 1936, o Exército de África foi recompensado pelos seus êxitos  quando o seu comandante, o general Francisco Franco, assumiu a chefia militar e política da revolta. Ele adotaria o título de "Caudilho", o equivalente espanhol ao "Duce" ou ao "Führer".
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Na Espanha nacionalista, o exército e milicianos de direita impulseram um reino de terror. A sua intenção foi ostensivamente proclamada: "expurgar" a Pátria dos seus "poluentes" políticos e culturais. Qualquer pessoa associada à República e às suas instituições, à esquerda política e até a modernidade secular podia ser detida, torturada e executada: sindicalistas e políticos, operários e camponeses, liberais e intelectuais, mulheres emancipadas e homossexuais. Dezenas de milhares morreram. Entre elas contavam-se muitos maçons.

A CONFLITANTE ARTE DA LEITURA - Newton Agrella


Sabe por que muitas pessoas têm preguiça de ler ?

Uma das respostas mais verdadeiras se deve ao fato de que quando se está lendo, a pessoa precisa criar imagens em sua mente, elaborar idéias sobre os sons dos diálogos, os ruídos dos cenários em que se ambienta o texto, dentre tantos outos aspectos sensoriais que a leitura obriga o leitor a experienciar.

Vez por outra, ter que buscar no dicionário o significado de alguma palavra ou expressão.

E talvez por isso,  mais desalentador e cansativo seja o fato do leitor se ver obrigado a "interpretar"  o texto conforme seu conteúdo ou narrativa.

Tudo isso, concorre para que a leitura em muitos casos, se torne um verdadeiro fardo para muita gente.

Afora isso, há um outro aspecto crucial que contribui largamente para que a pessoa não se entusiasme pela leitura. 

Trata-se da "concorrência".

Ou seja, outros veículos de comunicação como a televisão, os computadores e smartphones que já trazem tudo mastigado, sem que se precise ler para se inteirar sobre as coisas.

Ler impõe um mínimo de foco e atenção, exige um raciocínio mais detido e depurado .

Enquanto os outros meios permitem um relaxamento; uma forma mais descontraída de atenção, a leitura por sua vez, requer um vínculo mais intenso entre o livro e o leitor. 

Ao manuseá-lo, sentir a textura de suas folhas e o próprio cheiro que ele exala, o leitor meio que se torna um cúmplice do livro.

Há uma interação muito mais profunda entre o Leitor e o Livro do que entre a Pessoa e um Instrumento de Mídia.

E para dar números finais a esta tênue crônica, desnecessário registrar que a falta de incentivo na própria formação escolar - e neste caso referimo-nos particularmente ao nosso país - é algo que não pode e nem deve passar incólume.

De modo geral, a Educação no Brasil, que deveria se ocupar de estimular o estudante ao hábito da leitura desde a mais tenra idade, simplesmente ignora esta condição.

Ler livros faz com que a capacidade crítica de uma pessoa se desenvolva quase que imperceptivelmente.

A leitura produz um terreno mais fértil para a argumentação e contra-argumentação no campo das idéias.

Além disso, proporciona um alastramento do território vocabular, tornando a pessoa cada vez mais fluida e versátil no exercício do raciocínio.

Apenas a título de observação, lembre-se que fontes de referência não são "googlegráficas". 

Elas são legitimamente "bibliográficas".