janeiro 22, 2024

POLÍTICA X PRINCÍPIOS MAÇÔNICOS - Kennyo Ismail



Em 2010, por iniciativa do então Grão-Mestre, François Stifani, a Grande Loja Nacional Francesa publicou carta aberta em apoio a Nicolas Sarkozy, presidente da França. 

Durante os anos de 2011 e 2012, todas as importantes Grandes Lojas da Europa e da América do Norte, além de várias em outras partes do mundo, retiraram o reconhecimento da Grande Loja Nacional Francesa por desrespeitar o princípio básico da Maçonaria de que “um maçom na sua qualidade maçônica não faz nenhum comentário sobre política, ou que possa ser interpretado como se aliasse sua Grande Loja com um determinado partido político ou facção”. 

Muito menos um Grão-Mestre. 

O reestabelecimento do reconhecimento da GLNF só ocorreu em Junho deste ano de 2014, apenas após eleito um novo Grão-Mestre e a adoção de ações internas que garantissem que o episódio não mais ocorrerá. 

No entanto, somente 04 meses depois, parece que há irmãos brasileiros que não conseguiram aprender com os erros da GLNF. 

Talvez por desconhecer tais fatos ou mesmo tal princípio básico da Maçonaria. 

Quanto ao princípio, maçom algum pode declarar desconhecê-lo, visto que na Ordem só ingressa homens alfabetizados e em plenas condições de aprendizagem das leis, regras, cerimônias e instruções maçônicas. 

Fato é que, em 1938, a Grande Loja Unida da Inglaterra publicou, em conjunto com as Grandes Lojas da Escócia e da Irlanda, “The Aims and Relations of the Craft”, uma declaração dos princípios fundamentais que serve de base para todas as Grandes Lojas regulares do mundo. 

O item 6 dessa declaração registra claramente tal proibição ao afirmar que: 

_“Enquanto a Maçonaria inculca em cada um dos seus membros os deveres de lealdade e de cidadania, reserva-se ao indivíduo o direito de ter sua própria opinião em relação a assuntos políticos. 

Entretanto, nem em uma Loja, nem a qualquer momento em sua qualidade de maçom, lhe é permitido discutir ou fazer promover seus pontos de vista sobre questões teológicas ou políticas”. 

A razão de tal proibição é notória e muito bem registrada na literatura maçônica. 

Sendo a Maçonaria uma ordem universal, que abraça membros de diferentes religiões e convicções políticas, defensora perpétua das liberdades civil, religiosa, política e intelectual, nunca poderia ou poderá, como instituição, imprimir preferências políticas ou religiosas, por risco de desrespeitar as convicções de seus próprios membros, independente se maioria ou minoria, causando assim desarmonia entre maçons ou Lojas. 

Passado o período eleitoral, que a lição seja aprendida, correções de curso sejam feitas, erros sejam corrigidos, e, principalmente, que nas próximas eleições eles não sejam repetidos.



janeiro 21, 2024

Podcast #26: Maçonaria também é poesia - Kleber Siqueira

SE - Rudyard Kipling


Rudyard Kipling, premio Nobel de literatura em 1907, escreveu este poema para o filho de apenas 12 anos, em 1909, aconselhando-o com o que era preciso fazer para se tornar um bom homem.  Estes conselhos também se aplicam à maçonaria como padrão de comportamento para todos os irmãos. Tragicamente o filho morreu aos 18 anos combatendo na Primeira Guerra Mundial. Porém o poema imortalizou os dois. Tradução de Guilherme de Almeida.

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!

janeiro 20, 2024

O IRREFREÁVEL GERÚNDIO NACIONAL - Newton Agrella


Viver no *gerundismo* é ironicamente um estado de embriaguez linguística.  

Enquanto o *gerúndio* é apenas uma forma ou  flexão verbal que se caracteriza pela desinência dos verbos em *"ndo"* para indicar um estado ou ação que ocorre num exato momento e constitui-se numa conjugação verbal legítima, o mesmo é todavia, despudoradamente utilizado no Português falado ou escrito no Brasil.

Por outro lado, o *"gerundismo"* trata-se de um modismo que se vale de maneira inadequada e inconveniente da utilização deste expediente  numa incompreensível tentativa de reforçar uma ideia de continuidade de um verbo no futuro.

A rigor o uso descabido deste "tempo verbal venerado pelos brasileiros" acaba por tornar mais complicado o que já é suficientemente complicado por si só.

O *Gerundismo* impõe que aquilo que poderia ser expresso de maneira mais econômica e direta, seja substituído por uma intrincada estrutura que prefere utilizar três verbos a apenas um ou dois. 

Exemplos desta sandice:

Padrão da norma culta da língua portuguesa:

Eu farei.

ou

Eu vou fazer.

No gerundismo:

Eu *vou estar fazendo*.

A empresa entrará em contato para resolver o problema.

ou

A empresa vai entrar em contato para resolver o problema.

No gerundismo:

A empresa *vai estar entrando* em contato para resolver o problema.

Como é claramente perceptível, nos exemplos dados, transformamos, desnecessariamente, um verbo conjugado em um gerúndio, ao aplicar aquilo que deve ser evitado, 

O *Gerundismo* é, portanto, um excesso linguístico que deve ceder lugar para construções mais adequadas e simples.

Não se quer aqui impor que o gerúndio seja abolido, porém deixar claro que seu uso sistemático em construções de frases que deveriam constar apenas de um único verbo ou de uma locução,  faz mal à saúde intelectual ao falante da última Flor do Lácio.



AS PROFECIAS DE DANIEL- Jorge Gonçalves



No livro de Daniel, capítulo 2, a Bíblia relata a convocação de "mágicos, astrólogos, encantadores e caldeus" pelo Rei Nabucodonosor para interpretar seus sonhos. Curiosamente, o motivo de chamar os caldeus estava relacionado à associação da região da Caldéia. habitada pelos caldeus no sul da Mesopotâmia, à prática de adivinhação.

Após a conquista da Babilônia pelos caldeus, astrônomos (ou astrólogos) assumiram o papel de adivinhos tornando a palavra "Caldeu" sinônimo de astrólogo ou mago.

(Veja mais em www.michaelwinetzki.com.br/2023/12/os-reis-magos-jorge-gonçalves.html)

Atormentado pelos pesadelos, o Rei da Babilônia ameaçou matar todos os sábios, astrólogos e magos da Babilônia, pois nenhum deles foi capaz de interpretar seu terrível pesadelo. Segundo os relatos bíblicos, Daniel, após pedir um prazo e orar fervorosamente a Deus, recebeu a revelação do sonho e seu significado.

No sonho de Nabucodonosor, havia uma estátua cuja cabeça era feita de ouro, o peito e os braços eram de prata, a barriga e os quadris de bronze, as pernas de ferro e os pés uma mistura de ferro e barro. Uma pedra foi cortada numa montanha sem que houvesse mãos para tal e arremessada contra a estátua, despedaçando-a. A pedra se tornou uma montanha e preencheu toda a Terra.

Inspirado por Deus, Daniel interpretou o sonho do rei explicando que a grande estátua feita de diferentes metais representava quatro reinos sucessivos: Babilônia, Medo Persa, Grécia e Roma. A destruição da estátua por uma pedra, tornando-se um grande monte, simboliza o reino de Deus que nunca será destruído.

Avançando milênios no tempo, em 1936, o economista John Maynard Keynes adquiriu diversos documentos sobre o maior gênio da humanidade, Isaac Newton, a quem Keynes descreveu como "o último dos magos, o último dos babilônios e dos sumérios, a última grande mente que viu além do mundo visível e racional, com os mesmos olhos daqueles que iniciaram a construção de nossa herança intelectual."

Isaac Newton desvendou alguns dos maiores mistérios da natureza, como a gravidade, também estabeleceu as leis do movimento, contribuiu para a ótica e revolucionou a matemática. Curiosamente, dedicou parte significativa de sua vida ao estudo bíblico. Em sua obra póstuma, "Observações sobre as Profecias de Daniel e o Apocalipse de São João", publicada em 1733, Newton analisa as visões proféticas de Daniel e do apóstolo João, buscando prever o retorno de Jesus à Terra. 

Essa história continua...




LOJAS, ORDEM E OBEDIÊNCIAS MAÇÔNICAS - Alfério Di Giaimo Neto


Brethren, vejam o que nos ensina o escritor francês, Ir Marius Lepage, sobre o acima mencionado:

As Lojas podem existir sem Grandes Lojas ou Grandes Orientes, garantindo sua federação. O inverso, porém, não é verdadeiro. Nem Grande Loja, nem Grande Oriente podem existir sem as Oficinas chamadas “azuis”, que são a base de qualquer Potencia ou Obediência.

Assim, fica muito claro a diferença entre a Ordem e a Obediência Maçônicas.

A Ordem (em inglês é chamada de Craft) – a Franco Maçonaria tradicional e iniciática – não tem origem historicamente conhecida. Usando a expressão habitualmente empregada, podemos dizer que ela data de “tempos imemoriais”.

...antes do século XIV nada encontramos que se possa ligar, com provas irrefutáveis, à Maçonaria. Todos os documentos que possuímos estabelecem que foi da Maçonaria Operativa que saiu nossa Ordem, e demonstram apenas isso, a não ser para aqueles que suplementam fatos e fontes com a imaginação...” (F.Marcy, l´Histoirie du Grand Orient de France).

As Obediências, ao contrário, são criações recentes, das quais é possível – embora com algumas dificuldades e imperfeições – descrever o nascimento, e cuja existência, a partir daí, é bem conhecida na maior parte dos pormenores.

Entretanto, se a Ordem é universal, as Obediências, sejam elas quais forem, mostram-se particularistas, influenciadas pelas condições sociais, religiosas, econômicas e políticas dos países em que se desenvolveram.

A Ordem é, por essência, indefinível e absoluta: a Obediência está sujeita a todas as variações da fraqueza congênita ao espírito humano.



janeiro 19, 2024

UMA QUESTÃO DE COMPROMETIMENTO! - José Pellegrino


O mestrado maçônico, teoricamente, é o auge do simbolismo, mas será que todo aquele que atinge o grau de Mestre Maçom se encontra preparado para o importantíssimo papel que a maçonaria lhe reserva?

A palavra “mestre”, tão importante para nós, maçons, deriva do latim magister, que traduz como professor, ou seja, aquele que professa algo, que se dedica à arte de ensinar.

Ser um verdadeiro Mestre Maçom é sonhar o sonho de cada Aprendiz, de cada Companheiro, e se tornar um exemplo vivo de dedicação, respeito, doação, ética, tolerância, humildade, paciência, justiça, amor ao próximo e dignidade.

O Mestre Maçom deve seguir quase de forma imperceptível, transmitindo aos Aprendizes e Companheiros não apenas a sua sabedoria e os seus conhecimentos teóricos, mas também um pouco de sua fé e muito do seu amor por nossa Sublime Instituição.

Dentro das nossas lojas, identificamos diversos tipos de mestres: há os que falam bastante e de forma prolixa, mas ninguém os ouve; muitos fazem longos e inflamados discursos, esbanjam verborragia, mas suas falas são vazias, raramente os sentimos em nosso amago; Outros, de maneira ríspida, nos golpeiam com suas línguas ferinas, porém não geram cicatrizes.

Os mestres desse tipo consideram-se os donos da verdade, únicos conhecedores dos nossos “segredos” e da nossa ritualística, mas por outro lado disputam os primeiros lugares no ranking da animosidade.

O papel de um Mestre é tão importante que a sua postura pode tanto estimular quanto desestimular o nosso obreiro. 

O Mestre Maçom mais esclarecido, estudioso e comprometido, auxiliará Aprendizes e Companheiros a superar suas limitações, conduzindo-os de forma equilibrada para angariarem forças e triunfarem sobre as dificuldades que certamente surgirão.

A diferença entre o Mestre preparado e um mestre comum é, em todos os aspectos, incalculável.  

Ressalve-se que ainda há em nosso meio aquele que permanecerá na instituição anos e anos, muitas vezes até a sua morte física, todavia sem compreender a dimensão dela.

Isto não é um privilégio da Maçonaria, existe em todos os ambientes e em todas as sociedades organizadas.

Em nossa Ordem, costumo denomina-los de maçons festivos ou maçom protocolar.

Frequentam nossas lojas, mas no fundo não sabem por que o fazem.

Muitas vezes, através de manobras politicas, estimulados pela vaidade, alcançam o Veneralato, conduzindo sua loja rapidamente ao caos.

O progresso dos neófitos será proporcional aos ensinamentos e orientações recebidas dos mais experientes.

Muito pior do que não aprender é aprender de forma errada.

Quando o neófito assimila uma postura errada, continuará propagando erros e equívocos no decorrer de toda sua jornada maçônica.

Como cobrar de um Aprendiz ou Companheiro para que ele se conserve em sua coluna, com o devido respeito, disciplina e ordem, quando observa mestres mais antigos sentarem-se ou comportam-se de forma descuidada?

Balandrau com colarinho aberto, pernas cruzadas ou distendidas lateralmente, entre outras negligencias de posturas.

O que será que passa pela cabeça de um Aprendiz ou Companheiro quando observam um Mestre cochilando, bocejando ou espreguiçando- se no Oriente?

Que interpretações terão nossos neófitos, ao verem seus mestres Instalados, conversando, e às vezes até rindo, consultando as mensagens do seu celular, totalmente alheios á ritualística e ao cerimonial em si?

Somente com um solido programa de aperfeiçoamento litúrgico, nossas lojas se distanciarão daquela Maçonaria protocolar, viciosa e inútil.

É fundamental caminhar na direção de uma ordem mais coerente, efetiva e espiritualizada.

O neófito será sempre o reflexo das atitudes de seus mestres e aqui é imperativo que se entenda por Mestre, não os mais sábios e experientes, mas os Mestres verdadeiramente dedicados e comprometidos com a nossa Instituição.

O Mestre Maçom cheio de conceitos equivocados, de hábitos, de pontos de vista dogmáticos, estará distante de captar o sentido real da Maçonaria, que se expressa justamente através da simplicidade e da humildade do verdadeiro e sincero maçom, através do exemplo dos bons e dos dedicados mestres é que a Maçonaria caminha e evolui.

Tudo na Ordem ocorre em razão da caminhada correta dos verdadeiros Metres Maçons.

O neófito pode encontrar e trazer valores com ele, mediante os quais e a cada dia, ele chegará mais próximo da perfeição, ninguém desenvolverá valores os quais não possua dentro de si.

Felizmente, para nós e para a Maçonaria, existem aqueles mestres que nos marcam profundamente com a sua sabedoria e com suas significativas atitudes. 

Na presença de tais irmãos, nós sentimos mais alegres, há uma leveza e uma aura de felicidade no ar.

São esses mestres que nos transmitem a segurança e a tranquilidade para seguirmos em frente, sem eles não haveria a Maçonaria.


 



 



DEZ COISAS A CONSIDERAR ANTES DE PEDIR A PALAVRA - Carlos Alberto Mourão Júnior



Como eu já fiz todos os erros elencados neste artigo, resolvi partilhar as minhas reflexões com os irmãos. Antes de pedirmos para usar (ou abusar) da palavra em Loja, que tal pensarmos melhor e considerarmos algumas pequenas coisas?

1-Quando falamos em Loja, os outros irmãos são obrigados a escutar-nos. A ritualística não permite que eles nos interpelem, argumentem conosco ou então que se levantem e saiam. Eles não têm escolha, terão de escutar tudo o que quisermos dizer sem nos interromper. Portanto, sejamos misericordiosos não os forçando a escutar tolices.

2-Grande parte dos assuntos que são tratados em Loja poderiam, e deveriam, ser tratados antes ou após a reunião, na sala dos passos perdidos ou no salão da Loja. O Templo, como o próprio nome diz, é um local sagrado, onde não se deve tratar de assuntos corriqueiros ou picuinhas administrativas. Agir assim é profanar o sagrado Templo maçónico.

3-O Templo não é um palanque político. De nada adianta queixar-se eternamente da conjuntura política e económica. A Maçonaria pode e deve tentar mudar a realidade nacional e mundial, mas isso só pode ser feito com ação. Palavras e lamúrias recorrentes só servirão para fazer com que cheguemos mais tarde e casa e não irão mudar o mundo.

4-O Templo não é um púlpito onde se devam fazer pregações ou então ministrar palestras sobre questões metafísicas e filosóficas. Especulações esotéricas servem muito mais para cansar quem as ouve do que para trazer algo de efetivamente concreto. Lembremo-nos que os pobres Irmãos são obrigados a ouvir-nos quando resolvemos, num desvario de insana vaidade, exibir o nosso “profundo conhecimento”. A nossa vaidade já deveria ter sido sepultada na câmara das reflexões…

5-O Templo não é um divã ou um consultório psicológico onde devemos emitir as nossas indignações ou fazer histéricos desabafos. Será que as questões mundanas que andam “entaladas nas nossas gargantas” realmente interessam aos outros irmãos (os quais, repito, são forçados a ouvir-nos) ou à nossa Ordem?

6-O Templo não é uma mesa de bar e nem um clube, onde se contam casos “interessantes” (somente para quem os conta…) ou se fala de boatos ou questiúnculas. Antes de mais nada, estar num Templo exige postura e respeito pela egrégora. Conversas de bar caem bem num bar.

7-Quando formos ministrar alguma instrução, convém lembrar que, conforme determina o ritual, devemos fazê-lo utilizando um quarto de hora. Ora, isto equivale a exatos 15 minutos. Nada mais do que isto. Qualquer mensagem pode ser passada e absorvida nesse período. Mais do que isto dispersa a atenção do ouvinte, fazendo com que o mesmo se perca em devaneios, além de minar a sua santa paciência.

8-Qualquer outra comunicação deve ser dada nos 3 minutos que o ritual preconiza. Três minutos são tempo de sobra para passar a essência de uma mensagem de maneira clara, concisa e precisa. Mais do que isto é verborreia e só serve para motivar os irmãos a não voltarem nas próximas sessões.

9-É sempre bom lembrarmos que, para nos estar a ouvir, os Irmãos estão a prescindir de estar no aconchego dos seus lares e estão a dispensar-nos o seu precioso tempo. Será que não é um dever moral e um ato de amor respeitarmos e valorizarmos este tempo que os irmãos nos dispensam ouvindo-nos? Será justo fazer com que esses irmãos voltem para os seus lares com a sensação de tempo perdido?

10-Será que é sensato alongar-se na leitura do expediente? Muita coisa pode ser afixada no quadro da Loja e os boletins podem ser lidos na internet. Será que é racional gastar longo tempo a falar sobre os eventos sociais da Loja? Será que não teríamos uma reunião mais gratificante se, de facto, somente usássemos da palavra para falar sobre algo que seja verdadeiramente a bem da Ordem, da Loja ou dos Irmãos? Lembremo-nos: se a palavra é de prata, o silêncio é de ouro.

Meus Irmãos, aí estão algumas reflexões. Creio que todos nós devemos refletir sobre elas. Talvez ajudem a responder àquela eterna pergunta que se nunca cala dentro de nós: porque será que, ano após ano, as Lojas estão cada vez mais vazias?

Fonte: Freemason

A MAÇONARIA OPERATIVA - Alfério Di Giaimo Neto


Na Idade Média os maçons eram distintos. Era essa a sensação generalizada na Inglaterra, França e Europa Central, pois enquanto os outros trabalhadores trabalhavam para os senhores feudais, sem sair de seu vilarejo, os maçons eram especialistas e serviam aos reis, clero e nobreza e viajam para todos os cantos desses paises. Trabalhavam as pedras e erigiam castelos, mansões, catedrais e abadias. 

As informações abaixo foram extraídas do “Compedium” de Bernard Jones e “Enciclopédia” de Wilson Coil.

Inglaterra

A vida profissional era bem estabelecida. Existiam dois tipos de maçons: os “rústicos” que cortavam e moviam os blocos para o alicerce, a base que sustenta a construção, e os “especialistas” que faziam o trabalho na superfície dos blocos para detalhes da arquitetura, em geral, e o acabamento e ornamentação.

Pertenciam a Grêmios que eram compostos pelos principais empregadores do ramo e, as vezes, controlados por um funcionário real. Tinham “deveres” (Charges) estabelecidos por esses Grêmios. 

O primeiro era com Deus: deviam crer na doutrina da Igreja Católica e repudiar todas as heresias. O segundo era com o Rei, cuja soberania deviam obedecer. O terceiro era para com seu Mestre, o empreiteiro das obras (não existia o grau de Mestre. Apareceu na Maçonaria Especulativa). 

Formavam sindicatos, ilegais, pois contrariavam as determinações salariais dos grêmios, e se reuniam secretamente correndo o risco de penalidades da lei.

França

Os maçons eram, como na Inglaterra, a elite dos trabalhadores.

Diferentemente, formaram uma organização que não tenha paralelo na Inglaterra: a “Compagnonnage”. Os “Compagnons” (companheiros), seus membros, que algumas vezes eram trabalhadores com outros ofícios, formavam uma forte organização. 

Os reis e governos da França não aprovavam essa situação e, por diversas vezes, ditaram leis e decretos contra a Companonnage (1498, 1506, 1539...). Em 1601, um estatuto proibia que se reunissem em mais de três nas tabernas. Em 1655, a Faculdade de Sorbone, proclamou que os compagnons eram malvados e ofendiam as leis de Deus.

Alemanha e centro da Europa

Os maçons eram chamados de Steinmetzen, e, da mesma forma, eram a elite dos trabalhadores. Suas atividades eram também reguladas por corporações do ramo. Havia Lojas importantes de Steinmetzen em Viena, Colônia, Berna e Zurich, mas todas aceitavam a liderança dos maçons de Estrasburgo. 

Inclusive, o imperador Maximiliano I proclamou um decreto em que dava força de lei ao seu código de conduta (diferente do que foi escrito para Inglaterra e França). Essa liderança durou até 1685, quando a cidade foi invadida pelo exercito de Luiz XIV e anexada à França.

Escócia

Os Grêmios de maçons eram mais antigos do que os da Inglaterra. Em 1057, o rei Malcolm III Canmore outorgou uma Carta, com o poder e obrigação de regular o oficio, à Companhia de Maçons de Glasgow.

Infelizmente, por não haver em abundancia a pedra franca na região, tiveram menos êxito para manter a boa posição já citada. Inclusive, nesse país foi modificada a regra para os “aprendizes ingressados” de tal modo que, o aprendizado ficou com um lapso de tempo mais curto, do que na Inglaterra, por exemplo. 

Os mestres mais antigos, qualificados, para se protegerem profissionalmente, começaram a usar uma palavra secreta que era transmitida entre eles, para o reconhecimento entre si. Essa palavra chave ficou conhecida como a “Palavra Maçônica”.



O MAÇOM E O CONFLITO - Rui Bandeira


O conflito faz parte das nossas vidas.

Quer queiramos, quer não.

Existem interesses divergentes, quantas vezes inconciliáveis.

Quando tal sucede, várias formas de lidar com o assunto existem: a força, a imposição de poder, a desistência, a conciliação, a cooperação, a hierarquização, etc.

Os maçons também vivem e estão sujeitos a conflitos, tanto como qualquer outra pessoa vivendo em sociedade.

Mas os maçons aprendem a lidar melhor com o conflito desde logo, porque aprendem, interiorizam e procuram praticar a Tolerância. 

Esta postura não elimina, obviamente, os conflitos, nem leva quem a pratica a deles fugir, ou a ceder para os evitar. 

Pelo contrário, ensina e possibilita a melhor gerir o conflito. 

*E melhor gerir um conflito e não procurar ganhar a todo o custo.*

Melhor gerir um conflito consiste em detectar e obter a melhor solução possível para o mesmo. 

Por vezes, "vencer" o conflito pode parecer a melhor solução no curto prazo, mas revela-se desastrosa depois.

O maçom aprende a gerir o conflito, desde logo treinando-se a fazer algo que, sendo básico, é muitas vezes esquecido: *ouvir!*

Ouvir o outro, as suas razões, pretensões.

Ouvir o outro não é apenas deixá-lo falar.

É prestar efetivamente atenção ao que diz e como o diz.

Para procurar determinar porque o diz e para que o diz.

E assim poder elucubrar em que medida existe realmente conflito de interesses entre si e o outro - ou se existe apenas uma aparência de conflito de interesses, por deficiente entendimento, de uma ou das duas partes, de propósitos, intenções e objetivos. 

Ouvir o outro é o primeiro exercício prático da Tolerância, da verdadeira Tolerância. 

Porque esta não é o ato de, condescendentemente, admitir que o outro tenha uma posição diferente da nossa e permitirmos-lhe, "generosamente", que a tenha.

A verdadeira Tolerância não é um ponto de chegada - é uma base de partida.

A verdadeira Tolerância resulta do pressuposto filosófico de que ninguém está imune ao erro. 

Nem nós - por maioria de razão que julguemos ter. 

Portanto, tolerar a opinião do outro, a exposição do seu interesse, porventura conflituais com a nossa opinião e o nosso interesse, não é um ato de generosidade, de condescendente superioridade. 

É a consequência da nossa consciência da Igualdade fundamental entre nós e o outro.

Que implica o inevitável corolário de que, sendo diferentes as opiniões, se alguém está errado, tanto pode ser o outro como podemos ser nós.

A Tolerância não é um ponto de chegada - é uma base de partida.

Não é demais repeti-lo. 

Porque a consciência disto possibilita a primeira ferramenta para a gestão do conflito: a disponibilidade para cooperar com o outro, para determinar:

_ (1) se existe verdadeiramente divergência entre ambos; 

_(2) existindo, qual é ela, precisamente; 

_(3) em que medida é essa divergência, superável, total ou parcialmente; 

_(4) ocorrendo superação parcial da divergência, se o conflito se mantém e, mantendo-se, se conserva a mesma gravidade; 

_(5) finalmente, em que medida é possível harmonizar os interesses conflituantes: cada um abdicando de parte do seu interesse inicial? Garantindo ambos os interesses, seja em tempos diferentes, seja em planos diversos? 

Treinando-se na prática da Tolerância, o maçom aprende a lidar melhor com o conflito, porque é capaz de, em primeiro lugar, determinar se existe mesmo conflito, em segundo lugar predispõe-se para cooperar na superação do conflito e finalmente adquire a consciência de que existem várias, e por vezes insuspeitas, formas de superar, controlar, diminuir, resolver, conflitos - quantas vezes logrando-se garantir o essencial dos interesses inicialmente em confronto. 

"E tudo, afinal, começa por saber ouvir e por saber tolerar (o que implica entender) a posição do outro."

Por isso o primeiro exercício que é exigido ao maçom é a prática do silêncio. 

Para que aprenda a ouvir, para que se aperceba do que realmente é dito, para que reflita sobre a melhor forma de resolver os problemas que ouça expostos. 

Através do silêncio, aprende o maçom a sair de si e a atender ao Outro. 

Através da Tolerância da posição do Outro, aprende o maçom a descobrir a forma de harmonizá-la com a sua.

Através da busca da Harmonia, aprende o maçom a gerir os conflitos. 

Através da gestão dos conflitos, torna-se o maçom melhor, mais eficiente, mais bem sucedido.





janeiro 18, 2024

A ESCOLA DA ALMA - Marcos José da Silva,


Ninguém entra na Maçonaria pelo seu valor intelectual, nem pela capacidade econômica ou financeira, nem pela posição social que ocupe. 

Depois de o irmão ser recebido Maçom, e com maior razão, será tratado como um igual, à parte suas qualificações na vida profana. Essa é a regra.

Mesmo as investigações que se fazem sobre o candidato – as chamadas sindicâncias – equivalentes a uma devassa na vida do candidato proposto, não o preparam para a iniciação maçônica; apenas dão informações sobre de quem se trata, relacionadas com o grau de instrução, o comportamento na sociedade, posição financeira e profissional e as referentes à moral comum.

O que abre a porta do templo à iniciação maçônica é a sensibilidade do coração, da alma do profano, sinal que é percebido, intuitivamente, pelos mestres – iniciados do 3º grau –      durante a citada investigação preliminar. 

É quando os sindicantes avaliam se aquela alma tem predisposição para praticar o bem, se é terreno fértil para a semeadura das virtudes maçônicas.

O neófito, bem orientado pelos seus instrutores, e assimilando as lições dos símbolos, logo percebe que embora a Maçonaria proclame a “prevalência do espírito sobre a matéria”, não é uma religião, nem suas lojas são uma variedade de igreja.

Mas cada maçom deve conduzir-se, em sua respectiva religião, com responsabilidade e cooperação.

Vê também, o neófito, que não obstante a declaração de que a Maçonaria pugna pelo aperfeiçoamento intelectual da humanidade      – v. Constituição Federal – ela não chega a ser uma faculdade e suas lojas não são escolas noturnas, como já observou um mestre do passado. 

Incumbe a cada Irmão, nas universidades, nos governos, nos parlamentos, nos fóruns internacionais e em suas atividades profissionais e sociais de caráter individual, exercitar esse mandamento maçônico, inscrito no Art. 1º da Constituição do Grande Oriente do Brasil, em benefício da humanidade.

O ensinamento individual, dentro das lojas, é regido, ao menos os primeiros passos, pelo nível, que equaliza e disciplina, e pelo prumo, que baixa nas profundezas do coração, conhecendo ali o verdadeiro grau de evolução de cada obreiro para a consecução do nosso objetivo final – Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Os candidatos que realmente poderão enriquecer as nossas colunas são aqueles que sintam amor pelo Deus Altíssimo e pela Sua obra, que se deixem atrair pelos mistérios da vida e da morte, que respeitem as milenares tradições iniciáticas e que sejam capazes de aplicar com dignidade o ensinamento superior colhido na extraordinária escola da alma, que é a Maçonaria.

O MITO DA FÊNIX E A ROSA-CRUZ - João Anatalino Rodrigues



O mito da Fénix é um dos arquétipos mais compartilhados pelo inconsciente humano em todos os tempos. Iremos encontrá-lo em quase todas as tradições antigas, geralmente conectado com o anseio humano de imortalidade, ou de um renascimento em outra forma ou condição de vida.

Diz a lenda que a fénix (em grego ϕοῖνιξ) é um pássaro que, quando morre, o seu corpo entra em combustão espontânea, e depois de algum tempo, das suas cinzas nasce outro pássaro. A tradição sustenta que ela é uma ave muito forte, que é capaz de transportar cargas muito pesadas, e se atacada pode transformar-se numa bola de fogo.

A lenda descreve a fénix como sendo um pássaro de porte superior a uma águia, com lindas penas brilhantes, da cor de ouro, com matizes vermelho-lilás. Teria uma vida bastante longa, podendo chegar a quinhentos anos. Mas houve quem dissesse que ela poderia viver até 97.200 anos, sendo por isso, o pássaro símbolo da imortalidade.

O mito da fénix ficou famoso na mitologia grega, mas provavelmente é bem mais antigo do que a própria civilização grega. Há registros milenários no Antigo Egito que falam de um pássaro chamado Bennu, que tinha exatamente estas características da fénix grega. Ele era o pássaro de Rá, portador da chama do sol. Diziam que ele era o mensageiro desse deus, e o seu ciclo de vida representava exatamente a duração dos ciclos de vida da natureza, ou seja, quando grandes mudanças ocorriam na terra. Assim, quando um ciclo estava para terminar, esses pássaros voavam ao Santuário de Heliópolis, pousavam na pira do deus Rá e se imolavam na fogueira. Depois de algum tempo, das suas cinzas nasciam novos pássaros, indicando o renascimento da terra.

Os historiadores, de uma forma geral, tendem a reconhecer neste mito um comportamento natural de certo tipo de garças (hoje extintas) que viviam no antigo Egipto. Quando o ciclo natural das enchentes do Nilo, que ocorriam invariavelmente de sete em sete anos, diminuía, este tipo de aves se retirava para o deserto e botavam os seus ovos na areia. Depois morriam em função do sol sufocante. Os ovos eram chocados pelo calor da areia e dai nasciam os filhotes.

A lenda egípcia dizia que a ave, sentindo a proximidade da morte, fazia um ninho com ramos de canela, sálvia e mirra, a qual sendo aceso pelos raios do sol se transformava numa pira onde ela se imolava. Era um sacrifício natural oferecido ao Deus Sol (Rá), para garantir o renascimento natural da vida na terra. E das suas cinzas erguia-se então uma nova fénix, que recolhia os restos mortais da sua antecessora e os levava até o Santuário de Heliópolis, onde os colocava no Altar de Rá.

Os sacerdotes egípcios diziam que as cinzas da fénix tinham o poder de ressuscitar um morto. Este mito era tão divulgado entre os povos antigos que o próprio imperador romano Heliogábalo (204-222 d. C.) quis comer a carne desse pássaro com o objetivo de conseguir a imortalidade. Mas sendo uma ave mítica, cuja existência era duvidosa, as pessoas encarregadas de providenciar o bizarro repasto não conseguiram encontrar um desses pássaros e lhe enviaram uma ave-do-paraíso, que tinha uma aparência bem próxima da mítica ave. O doido imperador comeu a ave, mas foi assassinado dois anos depois.

Provavelmente, a lenda da fénix é uma alegoria adaptada das crenças egípcias a respeito da morte e renascimento diários do sol. Na religião de Heliópolis, o sol era visto como um astro-deus que morria e renascia todos os dias. Como ele era sempre o mesmo, renascido de si mesmo, a analogia com o mítico pássaro ficou estabelecida e ganhou status de lenda.

Em algumas tradições ela era identificada com a estrela Sótis. Na Grécia ela era também reconhecida como o pássaro de Hermes. Na China e no Japão era o símbolo da felicidade, virtude, força e inteligência. Na tradição cristã, a fénix tornou-se o símbolo da ressurreição de Cristo. E para os alquimistas era o símbolo da regeneração da natureza, momento sublime em que a matéria da Obra começava a sua regeneração para se transformar na Pedra Filosofal.

A fénix na Maçonaria

No moderno ritual do Rito Escocês Antigo e Aceito, o mito da Fénix é uma alegoria que aparece no grau dezoito, consagrado ao Cavaleiro da Rosa-Cruz. Por se tratar de uma alegoria essencialmente alquímica, ela integra a tradição hermética da morte ritual e do renascimento em outro nível de consciência, como acreditavam os alquimistas poder fazer com o material trabalhado nos seus laboratórios e com os seus próprios espíritos.

Aqui, o recipiendário “perdido nas trevas, na encruzilhada dos caminhos, perto do total abatimento e da morte, ouve uma voz misteriosa saída do fundo da sua alma”. (palavras do ritual do grau). É nesse momento que ele reencontra a Palavra Perdida, oculta sobre as asas da fénix, no instante em que ela renasce das cinzas. E ele se sente como se “um sopro o penetrasse, no momento em que murmura, afastando-se, a Palavra que para ele é a revelação de uma nova Luz.” E dali ele sai reanimado, renovado, porque agora sabe que a Palavra Perdida significa “ Igne Natura Renovatur Integra”, ou seja que a natureza inteira se renova pelo fogo, e que essas palavras são justamente as iniciais colocadas sobre a cruz de Cristo (INRI). É nesse instante que ele tem a revelação final e fundamental do mistério contido na Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, ou seja, o verdadeiro significado desse mistério magno da cristandade.

Na Maçonaria o mito da fénix é invocado em toda a sua grandeza iniciática para mostrar a natureza que se renova em toda a sua integridade, pela ação do fogo, que  aqui significa tanto o trabalho do alquimista no seu forno, cozendo e recozendo o material da Obra, quanto o baptismo cristão, conforme preconizado por João Batista. Ambos são analogias que simbolizam a prática da doutrina renovadora da Maçonaria.

E rosa mística, centralizada no ponto de encontro dos braços da cruz é este ponto crucial do universo, ou da alma humana, onde a Palavra Perdida é recuperada e faz nascer, da própria morte, a vida renovada. A mística do ensinamento iniciático alia-se à poesia para dizer ao espirito humano que existe uma esperança, mesmo na mais sombria e aterradora das situações, que é a própria morte.

Na tradição Rosa-Cruz, a luz do mundo morre e renasce no centro de uma cruz. Por isso essa morte e renascimento eram comemorados pelos cavaleiros Rosa-Cruzes nas vésperas das sextas-feiras santas, em cerimónias que evocavam a última ceia de Cristo com os seus apóstolos, ocasião em que dividiam um carneiro. Neste significativo ritual se promove, não só uma evocação à Páscoa hebraica, mas também o retorno do sol no equinócio da Primavera, ocasião em que a natureza morta pela acção do Inverno, recomeça um novo ciclo.

Aí está, em toda a sua grandeza simbólica e beleza poética, o mito da fénix.

Da Obra “Conhecendo a Arte Real”, Ed. Madras, São Paulo, 2007


A PAVONICE ENSANDECIDA - Roberto Ribeiro Reis



A par da enorme ostentação, 

Dorme um triste coração, 

Assolado pela fútil mesmice;

Dotado de material euforia, 

Aquele homem se vangloria

De sua e𝙣𝙨𝙖𝙣𝙙𝙚𝙘𝙞𝙙𝙖 𝙥𝙖𝙫𝙤𝙣𝙞𝙘𝙚.


De todos quer tirar um sarro, 

𝙏𝙪𝙙𝙤 é 𝙙𝙚 𝙤𝙪𝙧𝙤 - menos o carro- 

A 𝙥𝙧𝙤𝙫𝙖 𝙘𝙖𝙗𝙖𝙡 da luxúria;

Em que pese o bolso graúdo, 

O intelecto carece de conteúdo:

Padece de 𝙥𝙡𝙚𝙣𝙖 penúria


𝙍𝙚𝙛𝙤𝙧𝙢𝙖 𝙞𝙣𝙩𝙚𝙧𝙞𝙤𝙧 𝙚𝙨𝙩𝙖𝙣𝙦𝙪𝙚, 

Sua 𝙫𝙖𝙞𝙙𝙖𝙙𝙚 em pleno 𝙥𝙖𝙡𝙖𝙣𝙦𝙪𝙚

É incapaz de preencher seu 𝙫𝙖𝙯𝙞𝙤;

Desejo a ele melhor sorte, 

A 𝙗𝙤𝙖 essência que o conforte, 

E dê norte ao 𝙝𝙤𝙢𝙚𝙢 𝙚𝙧𝙧𝙖𝙙𝙞𝙤. 


O mundo das superficialidades

É 𝙧𝙚𝙛𝙡𝙚𝙭𝙤 das 𝙗𝙖𝙣𝙖𝙡𝙞𝙙𝙖𝙙𝙚𝙨

Que 𝙘𝙚𝙜𝙖𝙢 ao homem 𝙥𝙧𝙤𝙛𝙖𝙣𝙤;

Para toda 𝙢𝙤𝙡𝙚𝙨𝙩𝙞𝙖 e 𝙘𝙧𝙞𝙢𝙚, 

Somente uma 𝘼𝙧𝙩𝙚 𝙎𝙪𝙗𝙡𝙞𝙢𝙚

É capaz de 𝙙𝙚𝙨𝙫𝙚𝙣𝙙𝙖𝙧 o 𝙚𝙣𝙜𝙖𝙣𝙤. 


𝙉𝙖𝙤 𝙣𝙤𝙨 𝙖𝙘𝙝𝙚𝙢𝙤𝙨 𝙨𝙪𝙥𝙚𝙧𝙞𝙤𝙧𝙚𝙨, 

Mas 𝙥𝙧𝙞𝙢𝙚𝙢𝙤𝙨 pelos 𝙫𝙖𝙡𝙤𝙧𝙚𝙨

Que ao mundo têm faltado;

Preferimos o silêncio 𝙙𝙤 𝙗𝙤𝙙𝙚

À essa inútil pavonice que pode

𝘼𝙙𝙤𝙚𝙘𝙚𝙧 o homem tão 𝙖𝙡𝙞𝙚𝙣𝙖𝙙𝙤.